Covid-19: proximidade com as linhas férreas não está associada a aumento de risco de infecção

Dados foram apresentados na última reunião que juntou políticos e cientistas no Infarmed.

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Sergio Azenha

Foi uma das ideias mais relevantes que saiu da reunião desta quarta-feira - a última com estes contornos - que juntou políticos e cientistas no auditório do Infarmed, para analisar a evolução da pandemia: não há uma relação aparente entre as ligações ferroviárias e o surto pandémico na Área Metropolitana de Lisboa. O presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), entidade que realizou o estudo, explicou que “não há evidência” de que a proximidade com as linhas férreas ou o uso dos comboios “seja uma forma determinante de contributo para a infecção”, mas salientou que não é possível dizer que não haja infecção.

“Parece demonstrar que não existe ligação entre transporte ferroviário e o surto pandémico, é um dado novo que não era conhecido mas que foi estudado”, afirmou o Presidente da República, no final do encontro. “Linhas que à partida se considerariam de risco maior, verificou-se que são de risco, não direi irrelevante, mas escassíssimo. Do estudo parece decorrer que não está aí um factor causal determinante de transmissão do vírus”, concretizou Marcelo Rebelo de Sousa.

Dois dos participantes do encontro, ouvidos pelo PÚBLICO, sugerem cautelas na análise desta questão. “Como foi encontrada uma correlação mais forte entre a coabitação e o surto em Lisboa, esta relação causa-efeito entre comboios e surto foi desvalorizada”, refere um dos participantes, salientando que ela não é inexistente mas tem um peso menor. Outra fonte refere que os peritos analisaram o número de infectados nas zonas servidas por comboios suburbanos, mas que o estudo “vai ser agora aprofundado partindo dos infectados e verificando quais destes andam de comboio”.

Ainda em relação às linhas de comboio na região de Lisboa e Vale do Tejo, apesar de haver um aumento de casos, por exemplo, na linha de Sintra, tal não é comum a outras linhas – e foram analisadas a da Azambuja, de Cascais e do Sado. Isso não permite tirar uma conclusão fechada, o que não significa que não possa haver contágio nos comboios. Por isso, há um estudo de caso-controlo com dois mil casos para investigar esta situação num período de 15 dias, com o objectivo de controlar casos negativos e positivos no movimento das linhas de comboio na região de Lisboa e Vale do Tejo.

No final do dia, em declarações à RTP3, Henrique Barros, presidente do ISPUP, explicou que as análises realizadas “permitiram concluir que a proximidade com as estações, a utilização dos comboios e o facto de atravessar determinadas freguesias não se associa ao aumento de risco de infecção na comunidade”. Mas alertou: “Não podemos fazer salto e dizer que não há transmissão. Pode ocorrer e é bem natural que aconteça.”

“O que analisámos foi o risco de infecção no conjunto de freguesias servidas por linhas férreas com o de outras mais afastadas, que contrariam a ideia de [as linhas férreas] terem um papel importante. Não há evidência que seja uma forma determinante de contributo para a infecção”, reforçou o especialista em saúde pública.

Na reunião no Infarmed foi ainda comunicado que a coabitação, o trabalho e razões de âmbito social, como festas, entre outras situações, podem ajudar a explicar o que se passa na região de Lisboa e Vale do Tejo. Em concreto, o caso da sobrelotação do alojamento, coabitação de famílias que vivem no mesmo espaço ou em lares, pode ser um motivo quantitativamente relevante.

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