Não nos podemos dar ao luxo de criar uma geração perdida covid-19

Ao mesmo tempo que a pandemia do coronavírus está a gerar ondas de choque pelo mundo inteiro, propaga-se outrossim o risco de, por todo o lado, toda uma geração de diplomados universitários ficar para trás.

Com a crise económica, social e humana que a pandemia da covid-19 está a desencadear à escala planetária, cada dia que passa aumentam também as especulações sobre como será o mundo no futuro. Para já, parece óbvio que esta emergência de saúde pública sem precedentes provocou uma queda abrupta do crescimento económico em todo o mundo, arrastando também a subida do desemprego, a perda de rendimentos e um acréscimo de vulnerabilidade. Mas o que quer que o futuro nos reserve, a pergunta certa não é, a meu ver, tanto a de nos interrogarmos como o coronavírus vai mudar o mundo, mas, sim, a de saber como vão as sociedades e os governos reagir às suas consequências. Devemos tentar voltar ao statu quo ante? Vamos ficar atolados em dificuldades e paralisados? Por muitos e complexos que sejam os desafios colocados por esta crise, esta traz também a oportunidade de apostarmos numa agenda progressista que vise alcançar o progresso social, tornando realidade a protecção social universal, revisitando os impactos sociais da globalização, construindo sociedades mais inclusivas e garantindo estratégias de crescimento verde. Façamos votos para que este seja o caminho a seguir.

A verdade é que a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, que se aplica a todas as nações do mundo, bem como outros objectivos comuns acordados a nível internacional, de que são exemplo os Acordos do Clima de Paris, constituem um quadro global único que não deveria ser desperdiçado para traçar um rumo claro de saída da actual crise. No entanto, no meio de tantas necessidades prementes que se fazem sentir, há também o risco de não só se perder o progresso já alcançado para lograr aqueles objectivos, como até de se registarem retrocessos irreversíveis, especialmente no que diz respeito às populações e sociedades mais vulneráveis ou a certas questões mais específicas que dificilmente serão consideradas prioritárias. Mas perder uma década nesta luta significa perder uma geração inteira. A questão do acesso ao ensino superior é um exemplo acabado disto mesmo.

Em tempos de crise, o ensino superior tende sempre a ser negligenciado. Tal como, nessas circunstâncias, as famílias são levadas a adoptar estratégias de sobrevivência, adiando gastos com a educação, também, amiúde, os governos tendem a deixar para trás as políticas de equidade em matéria de educação. Regra geral, estas tendências criam défices a longo prazo, destroem o capital humano e produzem gerações perdidas de diplomados do ensino superior. Ao mesmo tempo que a pandemia do coronavírus está a gerar ondas de choque pelo mundo inteiro, propaga-se outrossim o risco de, por todo o lado, toda uma geração ficar para trás.

Para prevenir que tal aconteça, é necessário agir de forma colectiva e tomar medidas arrojadas por forma a garantir que os estudantes mais vulneráveis sejam apoiados, quer se trate de estudantes de famílias mais carenciadas e com menores rendimentos, de refugiados de todos os tipos (deslocados interna e externamente), migrantes forçados ou estudantes em sociedades afectadas por conflitos. Até porque há um conjunto adverso de factores – com a diminuição expectável dos fluxos de ajuda internacional, do financiamento de doadores privados e filantrópicos, dos recursos públicos disponíveis ao nível dos países, a que se vai somar a própria diminuição de recursos ao nível das instituições de ensino superior com a previsível redução de propinas arrecadadas que produzirão efeitos negativos mutuamente reforçados e que irão moldar uma conjuntura extremamente difícil.

Assim, o nosso desafio consiste em encontrar formas de lidar com esta tempestade perfeita, no meio de todas as incertezas e da multiplicidade de necessidades e solicitações concorrentes, quando praticamente tudo é urgente e as coisas evoluem tão depressa que parece estarmos a viver em estado de emergência permanente. Sem sombra de dúvida, hoje mais do que nunca, são necessárias iniciativas colectivas de carácter global que tenham um impacto local forte, trazendo respostas corajosas e soluções arrojadas para apoiar e aumentar as oportunidades de ensino superior para todos.

Não nos podemos dar ao luxo de criar à escala mundial uma geração perdida covid-19 de diplomados universitários. Para garantir o progresso e condições de prosperidade para todos, só há um caminho, o da criação de oportunidades de ensino terciário que capacitem os jovens, aumentem a sua resiliência e reforcem as suas competências para assegurar o desenvolvimento económico e social e criar esperança no futuro. Os dados disponíveis mostram que os retornos privados e sociais do ensino superior são de 12,4% nos países de rendimento elevado. Mas nos países em desenvolvimento, a taxa de retorno social é de 16,4%. O ensino superior é um verdadeiro catalisador da coesão social, do progresso da sociedade e do desenvolvimento humano. Quando estalam as crises e tudo se desmorona, o capital humano é o primeiro a sofrer o embate. No nosso tempo de crise global, precisamos realmente de nos bater por mais apoios e mais investimentos no ensino superior por forma a proteger e a promover o capital humano, um bem público global, guardião da humanidade.

Para que isso aconteça, precisamos de um fundo global para a educação superior em situações de emergência e de ferramentas de financiamento inovadoras e de acesso rápido para evitar que haja uma debandada geral do ensino terciário e que o próprio sistema do ensino superior colapse como um todo. Assim, exorto a comunidade académica, o sector privado, as filantropias, as organizações internacionais e os governos a unirem esforços para impedir a criação de uma geração perdida covid-19 de diplomados universitários. Se não agirmos, os nossos jovens terão um futuro sombrio independentemente de onde se encontrem. Se agirmos agora, podemos torná-lo promissor para muitos em qualquer lugar que estejam.

Não deixemos ninguém para trás, em particular os mais necessitados e mais vulneráveis, não só no seio das sociedades mais desenvolvidas, mas também e sobretudo nas sociedades mais frágeis e afectadas por conflitos. A título de exemplo da impressionante escala do desafio que temos pela frente, recorde-se que actualmente apenas 3% dos refugiados estão matriculados no ensino superior, em comparação com 37% no plano global. E, no entanto, sabemos bem o quanto o ensino superior protege, reforça a resiliência e promove a inovação, as competências e a cultura de empreendedorismo que são cruciais para a recuperação económica e a criação de emprego, constituindo uma base mais sólida para a recuperação sustentada a nível global.

Hoje, no dia do aniversário de Nelson Mandela, que nunca deixou de valorizar a aprendizagem, a educação e o conhecimento como forma por excelência de afirmação da liberdade humana, e que enquanto esteve detido em Robben Island completou um curso universitário por correspondência, lembremos as suas inspiradoras palavras para nos guiar na acção e dar força na luta pela construção de um mundo mais próspero, justo, livre e pacífico – “A educação é a arma mais poderosa que se pode usar para mudar o mundo.”

Presidente da República (1996-2006), co-galardoado da 1.ª edição do Prémio das Nações Unidas Nelson Mandela (2015)