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Paulo Pimenta

“É fácil e difícil imaginar aqueles animais acorrentados na noite do incêndio”: o relato de Carlos num cenário “a preto e branco”

Mal soube da notícia, Carlos Luís Ramalhão não hesitou: o instinto mandou-o ir para o local. Em Santo Tirso, no terreno que “não pode ser chamado de abrigo”, o cenário lembrava a Segunda Guerra Mundial. “Parecia A Lista de Schindler. Era a preto e branco.” Um testemunho na primeira pessoa.

“No domingo acordei com a notícia da tragédia. Aliás, acordei com a própria imagem. Não foi nenhuma premonição, mas fui ver as notícias e apareceu-me logo a fotografia dos animais carbonizados. E decidi ir para lá, da Maia para Santo Tirso. Quando cheguei, por volta das 15h, deparei-me com um cenário de Segunda Guerra Mundial. Eu sei que provavelmente algumas pessoas ficam chocadas com a comparação, mas a imagem era muito A Lista de Schindler (Steven Spielberg, 1993). Era a preto e branco. Quando cheguei lá, o terreno continuava fechado. Havia alguns elementos da GNR, uma pequena multidão de pessoas a querer ajudar, mas ainda havia alguma calma.

Entretanto, um grupo de pessoas conseguiu derrubar uma das vedações e entrou no terreno. Não sou, de todo, um defensor da desobediência às leis, mais do que à autoridade, mas a verdade é que se não tivesse sido derrubada a vedação eu não sei o que teria sido dos animais. Era a única forma de impor o bom senso a uma regra estúpida que prefere a defesa da propriedade privada à defesa da vida.

Entrei e dirigi-me logo àquelas jaulas carbonizadas. Não podemos chamar aquilo de abrigo, de todo. Encontrámos alguns animais em sofrimento, imagens muito difíceis de descrever, e pessoas em choque, a chorar, com ataques de raiva completamente justificados. É fácil e difícil imaginar aqueles animais acorrentados na noite do incêndio. Começámos imediatamente a pegar nos animais, que foram a nossa preocupação. Nos que estavam vivos, claro. O segundo animal com que estive em contacto era um galgo completamente escanzelado, coberto de carraças, com muitas peladas, e que tinha chip. Para além de chip, tinha as iniciais do dono tatuadas numa orelha. 

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É importante dizer que o acesso ao terreno é horroroso, está no mínimo a uns dois quilómetros de qualquer casa ou arruamento. Não dá para chegar lá de carro, só de jipes e motas. Nós íamos sendo guiados pelos verdadeiros heróis, as associações, que foram incríveis. Andei a transportar os cães, uns mais velhinhos, outros cachorrinhos, serra abaixo. Cães, só, porque não foi possível salvar nenhum gato, eles são difíceis de apanhar. Temos esperança que tenham fugido na noite do incêndio. Houve cães a serem transportados de mota, havia cães que não conseguiam andar. Ainda hoje estou com as costas partidas de transportar cães ao colo.

Entretanto ouvimos que havia outro canil que era mesmo muito longe, no meio da serra. Aí nem de jipe lá se chegava. Era, então, outro terreno com umas dezenas de cães em condições miseráveis e onde encontrámos a pessoa que era dona do terreno que provocou a morte dos animais, não permitiu o seu salvamento. Uma amiga tinha-me enviado a foto do Paulo Pimenta [fotojornalista do PÚBLICO] em que eu apareço e há uma história engraçada sobre a cadelinha que tenho ao colo. Essa pessoa, a dona do terreno, veio ter comigo, meia aluada, olhou para a cadelinha e disse: “Esta é a Anabela. Esta não vai, fica aqui.” E eu mantive o sangue frio, peguei na cadelinha e saí pelo outro lado. Fui identificado pela GNR, que esteve a identificar toda a gente que lá estava. Disponibilizei-me a dar os dados todos, só queria levar a cadela lá para fora.

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Não posso corroborar isto, mas passou por mim um rapaz revoltadíssimo com um cão a dizer que esse cão lhe tinha sido roubado há dois anos e há dois anos ele andava a procura dele. Não podemos chamar abrigo àquilo, era um campo de tortura. Notava-se que os animais eram mantidos de uma forma muito estranha. É preciso dizer que um grupo de médicos veterinários fez um trabalho absolutamente fantástico. Foram montados hospitais de campanha, havia animais a soro e animais que foram sedados, porque estavam extremamente nervosos. Houve, mais uma vez, muitos ataques de pânico. Mas também houve adopções, adopções muito comoventes.

O dado mais macabro desta situação, de que muita gente falava no local, foi o facto de terem sido encontradas arcas frigoríficas com animais congelados lá dentro, que seriam dados como alimento para os outros. Isso eu não quis ver.

Estive lá até por volta das 22h. Por essa altura ainda andavam a correr atras de cinco cães que tinham fugido. Eu já não tinha forças, estava a ajudar a cadelinha, extremamente meiga, que acabou por ficar com uma associação de Condeixa, que foi até Santo Tirso salvar animais. As voluntárias foram fantásticas.

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Em relação às autoridades, ouvi muitos relatos de agressividade por parte da GNR. Pessoalmente, quando fui identificado, fui bem tratado. Notava-se, em alguns guardas, algum pouco à vontade em estar ali e nós temos sempre de nos lembrar que eles estavam a cumprir ordens. Outros tinham alguma tendência para serem mais ríspidos e inflexíveis. A certa altura deram-nos dois minutos para tirar os animais todos e sair dali. Isso só gerou mais pânico e o pânico não é amigo da eficiência. Uma coisa que achei negativa foi enviarem guardas a cavalo para o local, revelou falta de bom senso. Os cães já estavam suficientemente assustados para serem assustados também por cavalos, animais de grande porte.

Estava muita gente, centenas de pessoas. Acho que poderia estar melhor organizado. Foi mais ou menos mantida a distância, tanto quanto possível nestas circunstâncias, e estava toda a gente de máscara. Houve alguma confusão em termos de política, porque houve uma coordenadora do Bloco de Esquerda de Santo Tirso que não foi bem recebida. Depois falou a deputada do PAN, a Bebiana Cunha. Esta, sim, foi muito bem recebida, e realmente foi uma pessoa que esteve lá não só ontem para discursar, mas durante o fim-de-semana. E falou também a Maria Manuel Rola, a quem também reconheço mérito porque se tem dedicado à causa.

As pessoas estavam muito exaltadas e as notícias também iam surgindo. Chegaram notícias sobre as casas que depois foram encontradas em Valongo, pertencentes à mesma pessoa e que também tinham animais lá dentro, e também surgiu a notícia da suspensão do médico veterinário de Santo Tirso, a mais aplaudida da noite. As pessoas querem justiça.

Houve dois extremos nesta situação: o extremo da maldade e do macabro e o extremo comovente de centenas de pessoas que abdicaram de um domingo de sol e foram para ali dar tudo, desde crianças a pessoas mais idosas, famílias inteiras, casais, pessoas sozinhas, todos a dar tudo por aqueles animais. E muita solidariedade e entreajuda. Houve um cãozinho que me mordeu, assustado, e um rapaz foi logo buscar Betadine para pôr no meu dedo. As pessoas confortavam-se umas às outras nos poucos momentos em que estavam paradas.

As pessoas mencionavam constantemente, e ontem também, a existência de outros terrenos nas mesmas condições no país todo. Tem de acabar essa indiferença porque nós temos leis até muito avançadas, mas uma coisa é a teoria da lei e outra coisa e aplicá-la. E, em termos de aplicar a lei, estamos muito atrasados. Não estamos a falar de ocupar a casa, não estamos a falar de vandalizar. Tínhamos de salvar vidas.”

Texto editado por Ana Maria Henriques

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