Opinião

Mundo cão

Não há inocentes neste filme, senão cães e gatos. Nem nós, cidadãos hoje revoltados ou ao menos preocupados, estamos livres da cumplicidade.

Há centenas de abrigos iguais ou piores do que aqueles que arderam em Santo Tirso, e nos inflamam a indignação. Talvez sejam milhares. Demasiados são miseráveis. E toda a gente sabe onde estão e como são: sabem as policias, é do conhecimento dos dirigentes e veterinários nas câmaras municipais, já chegou a todos os ouvidos no Governo – a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) é um serviço do Ministério da Agricultura. E tudo isto se sabe há muitos anos. Não há inocentes neste filme, senão cães e gatos. Nem nós, cidadãos hoje revoltados ou ao menos preocupados, estamos livres da cumplicidade. A protecção e defesa animal é um mundo cão, onde falha estrondosamente o Estado, e os privados que surgem em sua substituição perdem-se excessivas vezes no caminho. Ou vamos todos para lá da fúria mediática-imediata, ou este filme de horror nunca será de outro género. 

A intervenção pública na vida dos animais baseia-se na protecção da saúde humana, e este é o pecado original. Até 2017 a lei só os tratava como “coisas” e via como propriedade. Não sendo de ninguém, e porque errantes constituíam-nos perigo, eram confinados em depósitos de condições presidiárias e execráveis. Isto foram os canis municipais por décadas, alguns ainda se perpetuam na miséria. Se pensarmos que cada animal ali alojado custa 1000/1500€ por ano, e atendermos à clássica escassez de recursos públicos, a dimensão desta falha pública é obvia, tal como a necessidade de intervenção da sociedade civil.

Actuam em Portugal mais de 200 associações de defesa dos animais, muitas com abrigos, todas a contar os cêntimos dos donativos e outras caridades. Os canis públicos, hoje renomeados “Centros de Recolha Oficial”, são 141 em todo o país e recolheram, em 2019, 31.966 cães e gatos errantes. Acompanhem-me: vivem em Portugal 6,7 milhões de animais de companhia; ainda que dos maus tratos, do abandono e dos animais de rua só tenhamos números concretos por extrapolação, não parecerá óbvio ao leitor que a oferta pública não chega? É muito difícil sobreviver na chamada “causa animal”, pôr ração nas taças e dar tecto a milhares de animais. Mas também manter a mente sã, perante a frustração, as dificuldades, as autoridades que fracassam, os abandonos galopantes, tudo isto emaranhado nos nossos afectos. As pessoas perdem-se na tentativa, não resistem a “salvar” mais um animal, passam de cuidador a abusador. E a falha avança do público para os privados. 

Mas a qualidade do enredo piora: quando a sociedade chama a si aquilo que o Estado não realiza, este tem ao menos de fiscalizar a actuação privada. As autarquias ou a DGAV, e mais uma miríade de entidades, são relapsos camuflados de acção. As polícias, quando chamadas a remediar, continuam a valorar a propriedade privada muito acima da vida e bem-estar de um animal. Não é a lei que diz, são os seus agentes que ainda não a executam na medida do que a sociedade evoluiu. 

Tudo isto aconteceu em Santo Tirso. E replica-se, qual praga pior que as pulgas. Está a acontecer neste instante, em centenas de locais, canis, abrigos, casas de anónimos. Se o seu cão ou gato já teve o infortúnio de apanhar pulgas, saberá como é difícil erradicar a praga. São meses de banhos e remédios, a virar a casa do avesso de aspirador e insecticidas biológicos em punho. Pois temos aqui de aplicar a mesma técnica.

O problema de fundo é o excesso de população, para as possibilidades de dar casa aos animais. Está identificado há anos e as medidas têm sido pífias. É necessário implementar políticas de esterilização sérias; é essencial a severidade com produtores e vendedores; é vital a pedagogia da adopção. Essa é a maratona da prevenção e educação. Mas tem paralela uma prova de velocidade, a do remédio: enquanto edil, GNR, DGAV, tribunais e abusadores brincam às culpas, aproveitemos o mediatismo estrategicamente. Temos todos de mostrar o que sabemos: onde estão os ilegais, os insanos, onde ficam as casas de horrores travestidas de abrigos ou salvação. E desnudar esta realidade para a opinião pública. 

Ficar calado é dar bênção ao estado das coisas. Mas berrar sem rumo produz apenas ruído. A Nonô, minha cachorrinha adorada, só ladra muito ocasionalmente – e, quando ladra, paro tudo para a (a)entender. 

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