Os Jogos que deviam estar a começar talvez comecem daqui a um ano

Devido à expansão global do novo coronavírus, Tóquio 2020 passou para 2021, mas não é certo 23 de Julho do próximo ano seja o arranque dos Jogos da XXXII Olimpíada.

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A cerimónia de abertura dos Jogos de Tóquio está marcada para 23 de Julho de 2021 Reuters/ISSEI KATO

Vinte e quatro de Julho de 2020. Antes de o mundo ter sido engolido pela pandemia da covid-19, este era o dia da cerimónia de abertura dos Jogos da XXXII Olimpíada. Tudo ficou adiado por um ano menos um dia. Assim, a cerimónia que era para acontecer nesta sexta-feira passou para 23 de Julho de 2021 - que também será uma sexta-feira. Mas como estará o mundo nessa data? Estará ainda envolvido pelo novo coronavírus?  Nesta altura, está tudo em cima da mesa. Jogos a uma escala reduzida, Jogos sem espectadores, Jogos numa “bolha” e até um mundo sem Jogos Olímpicos.

Foi há precisamente quatro meses (a 24 de Março) que o COI se resignou a tomar a decisão de adiar os Jogos de Tóquio depois de longas semanas de indefinição e de um clamor do desporto internacional a pedir o adiamento do evento que incluiu ameaças de boicote por parte de países importantes no movimento olímpico como o Canadá e a Austrália. Mas, se há quatro meses, não era uma boa ideia juntar 11 mil atletas de 200 países diferentes em competição e receber centenas de milhares de visitantes do mundo inteiro na capital japonesa, essa ideia continua a não ser viável agora. E não se sabe quando vai ser.

“Nas condições actuais, não haveria Jogos”, admitia há poucos dias Yoshiro Mori, presidente do Comité Organizador de Tóquio 2020. “Os Jogos dependem da humanidade conseguir, ou não, derrotar o novo coronavírus. É preciso desenvolver uma vacina ou encontrar uma cura”, acrescentou Mori. Thomas Bach, presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), chegou a ir mais longe. Se não houver condições para haver Jogos no Verão do próximo ano, disse o alemão, não haverá Jogos.

“Não podemos estar a empregar para sempre três mil, cinco mil pessoas no Comité Organizador. Não podemos estar a mudar o calendário desportivo mundial todos os anos. Não podemos deixar os atletas na incerteza, e não podemos ficar demasiado próximos dos Jogos futuros. Por isso, há um entendimento com os nossos parceiros japoneses para esta abordagem”, admitiu Bach numa entrevista a BBC.

A um ano da cerimónia de abertura, o número de novos casos de covid-19 a nível mundial rondou os 250 mil (247,255), o segundo dia com mais casos desde Janeiro. E o Japão teve o seu pico de novos casos (726), cerca de metade dos quais registados em Tóquio (366). Mas o problema não é apenas o Japão, que parece ter a pandemia relativamente controlada. É o resto do mundo. E mesmo que haja uma vacina testada e aprovada para uso global nos próximos 12 meses, é altamente improvável, para não dizer impossível, que aconteça em tempo útil de imunizar a população mundial e tornar os Jogos de Tóquio num evento à prova de covid-19.

“As infecções vão aumentar se insistirmos com os Jogos. Não tenho qualquer dúvida. Mal conseguimos ter o vírus sob controlo, não deixando entrar pessoas de fora. Com eventos como os Jogos Olímpicos, o vírus vai entrar de certeza e o número de infecções vai disparar”, diz Daiichi Morii, especialista de doenças infeciosas do hospital da Universidade de Osaka, citado pela agência Reuters. “Mesmo que haja uma vacina, é impossível que chegue ao mundo inteiro”, acrescenta Atsuo Hamada, médico do hospital universitário de Tóquio, também citado pela Reuters.

Até ver, os preparativos para os Jogos continuam e, tanto quanto possível, os organizadores vão-se preparando para todas as contingências. Uma delas, tal como tem acontecido em várias competições desportivas um pouco por todo o mundo, será não ter espectadores nos recintos o que, para além de ser muito pouco olímpico, seria uma enorme perda de receitas para a organização, mas o presidente do COI não quer, para já, admitir esse cenário.

“Ter Jogos Olímpicos à porta fechada é algo que não queremos fazer. Estamos a trabalhar em soluções que salvaguardem a segurança de todos os participantes e que também reflicta o espírito olímpico”, assinalou Bach.

A palavra de ordem é simplificar, de forma a reduzir os custos, mas aquilo que se poupar no acessório poderá ter de ser aplicado na gestão da complicada logística de ter comitivas inteiras de quarentena antes de poderem, efectivamente, entrar na bolha olímpica. ”Será que precisamos de quarentena para alguns atletas de alguns países, ou para todos os atletas de todos os países? Como é que fazemos esta gestão? Precisamos de medidas especiais para os recintos? Quantas pessoas podem entrar? É uma tarefa gigante”, admite o presidente do COI.

Quase tudo o que envolve os Jogos Olímpicos de Tóquio é, neste momento, uma enorme interrogação. E prever o que quer que seja seria um exercício inútil de futurologia. Todas as medidas sanitárias de prevenção contra a covid-19 serão colocadas em marcha, diz a organização, a partir do Outono.

E os atletas vão continuar a preparação e/ou a qualificação para os segundos jogos, depois de 1964, realizados na capital japonesa. Assim estaremos nos próximos meses, a contar os dias até aos Jogos que serão numa sexta-feira em Junho de 2021. Ou não.

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