aDeus Bolhão de Joaquim Massena quer lançar reflexão sobre mercado do Porto

Livro digital vai ser publicado por capítulos no Facebook. “O regime democrático é isso mesmo, é a capacidade de haver contraditório, há pessoas que gostam, há pessoas que não gostam”, aponta arquitecto que fez um projecto de reabilitação para o Bolhão

Mercearia do Bolhão
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Mercado histórico do Porto está em obras desde Maio de 2018 Nelson Garrido

O arquitecto Joaquim Massena, autor de um projecto de requalificação Bolhão preterido pela Câmara do Porto, lançou esta sexta-feira, numa rede social, o primeiro capítulo de um “livro digital” sobre o edifício centenário cuja “demolição profunda” critica.

A empreitada de restauro do Mercado do Bolhão foi consignada oficialmente a 15 de Maio de 2018, prevendo-se, à data, um prazo de dois anos para a conclusão dos trabalhos. Contudo, em Dezembro de 2019, a autarquia anunciou que as obras de requalificação, cujo término estava previsto para Maio deste ano, iriam ser prolongadas por mais um ano, devido à necessidade de alterar “o método construtivo”.

Esta alteração foi aprovada em 27 de Março, pela Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) e implica “o desmonte de alguns elementos metálicos (colunas, varandas e consolas da cobertura) e a demolição de três, das quatro, lajes existentes de betão das galerias superiores do mercado”.

Intitulado aDeus Bolhão, o manuscrito será divulgado na página pessoal na rede social Facebook, por capítulos, sendo que se inicia com “uma breve contextualização de imagens do verdadeiro Mercado do Bolhão”.

Seguir-se-á uma abordagem à cidade do Porto século XIX, marcando e assinalando as zonas que sofreram demolições profundas, um capitulo que abre caminho a uma reflexão mais profunda sobre o processo de reabilitação do Mercado do Bolhão, desde a identificação, por parte do município, em 1982, da necessidade de intervir no edifício centenário, ao Concurso Público de Arquitectura para a elaboração do projecto de execução para a reabilitação do Bolhão, que venceu em 1992 e cujo contrato público foi assinado em 1996.

O projecto de execução foi aprovado por todos os organismos de tutela, em 1998, estando pronto a ser executado o que não se concretizou, estando o caso agora em tribunal. “A partir daqui as pessoas têm elementos suficientes para começar a abordar o que está feito e o que está a ser feito. Acho que desta maneira conseguiremos ter matéria suficiente para criar diálogo”, afirmou em declarações à Lusa.

Na primeira publicação feita esta tarde, onde o autor explica que a capa do livro, da autoria do Mestre José Emídio, é uma alegoria às artes, Joaquim Massena refere que a publicação deste livro, suportada em documentos e imagens, pretende promover a “discussão pública em vez da promoção pública”, acusação que tem vindo a dirigir à Câmara do Porto durante todo este processo.

“Já que não a câmara não quer fazer, faço eu. Exponho-me de forma a que as pessoas possam interagir. O regime democrático é isso mesmo, é a capacidade de haver contraditório, há pessoas que gostam, há pessoas que não gostam, mas é fundamental que exista. Este exercício democrático tem de existir e os políticos têm de saber fazer este exercício democrático”, defendeu.

À Lusa, o arquitecto explicou que decidiu não publicar fisicamente o livro, precisamente por entender que desta forma é possível promover o diálogo e a discussão pública, sobre o processo de reabilitação do Bolhão, que, no seu entender, reafirmou, não pode ser considerado “um restauro, nem uma reabilitação”, “é quanto muito uma reconstrução em alguns casos e noutras, apenas e somente reinterpretações”.

Suportado mais uma vez em documentação, Joaquim Massena vai mostrar que teria sido possível fazer uma reabilitação sem fechar o mercado, respeitando a vontade dos comerciantes do Bolhão, fazê-lo com um orçamento de apenas 12,5 milhões de euros, e preservando a identidade do edifício centenário.

“Nós fizemos um estudo geológico e geotérmico, que também vou mostrar, com o Instituto [de Ciências da Construção] Eduardo Torroja - que não me faz favores, com certeza - que faz uma caracterização do betão (...). Portanto, quando eu digo que o betão armado está bom, está bom, não o digo porque algo o disse. Não, alguém fez a caracterização daquele material, verificou a capacidade de carga e resistência e disse é possível”, declarou.

Em Junho, Massena tinha já desafiado o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, para um “frente a frente”, defendendo que o independente deve promover o diálogo em vez do “insulto”. À data, em reposta à Lusa, sobre este tema a autarquia indicou “apenas que o senhor arquitecto Joaquim Massena concorreu em 2013 e perdeu”.

Na sua primeira publicação, Massena salienta que este livro poderá ainda constituir como “um instrumento” que permitirá “um conhecimento efectivo sobre o que é a reabilitação e o dito restauro profundo, sem ferir o digno trabalho de investigação do DIAP [Departamento de Investigação e Acção Penal] que decorre desde Agosto de 2016, promovendo a abordagem e o conhecimento de verdade”.

O Ministério Público está a investigar “a existência de um eventual crime no processo de reabilitação” daquela estrutura, na sequência de uma participação que o arquitecto Joaquim Massena, apresentou no DIAP do Porto.

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