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Megafone

O elefante dos cães

De que serve uma lei que impede a morte de cães em canis municipais se continuamos a criar cães às centenas por dia?

A expressão “ignorar o elefante na sala” sempre foi uma, que desde nova, entendi perfeitamente. O elefante representa o problema óbvio, tão óbvio que é enorme, ocupa muito espaço, e toda a gente sabe que está lá, mas é ignorado por todos. Ninguém fala dele, ninguém o aborda, ninguém o reconhece como parte do problema.

Hoje venho falar de um “elefante” que é continuamente ignorado quando falamos de cães. Este elefante é ignorado porque é dos grandes, mexe com coisas que sempre foram feitas, com crenças antigas e perpetuadas ao longo do tempo, com memes, mexe com vontades e liberdades que os humanos estão acostumados a ter.

O ser humano sempre se considerou uma espécie superior a qualquer outra que habita este planeta e, como tal, sente-se no direito de tratar os outros animais como espécies de segunda, que existem para o servir.

Mas, então, qual é o elefante que continuamente é ignorado na questão específica dos cães e do seu bem-estar e vida? O elefante da procriação.

Quando se fala em diminuição de abandonos, de mortes, de maus tratos a cães, de canis ilegais, de associações a abarrotar, de canis cheios, de abater ou não cães, de matilhas que matam outros animais ou atacam pessoas, de cães presos a correntes, de cães explorados em corridas, fala-se de muitas outras coisas. E para que este ciclo se quebre, todas são importantes, mas ignoramos o elefante na sala, a criação.

De que serve uma lei que impede a morte de cães em canis municipais se continuamos a criar cães às centenas por dia? De que servem leis contra o abandono, maus tratos e negligência, quando as pessoas continuam a trazer ao mundo por dia milhares de cães que não vão ter todos um lar, por mais que queiramos? De que serve seja o que for quando sempre haverá no mundo cães a mais e lares a menos? Enquanto existirem mais cães do que lares, muitas pessoas terão cães a mais, muitos outros que nem gostam de cães vão tê-los para motivos aberrantes, muitos vão tê-los porque sim. Sempre existirá alguém que tem para dar ou vender, sempre existirão cães a mais e esse é o principal problema.

Eu falei com o elefante na sala — e durmo com ele desde sempre. Quando trabalhei na Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA), na Battersea Dogs Home, na Dogs Trust ou em canis em Portugal, o elefante era a minha sombra. Quando nos apercebemos que temos que começar por diminuir o número de cães que trazemos diariamente ao mundo, o arrepio na espinha é grande porque a missão parece impossível — e os obstáculos intransponíveis. Estar em associações repletas de cães de raça coloca ainda uma questão mais difícil e arrepiante.

Onde estão as leis que proíbem a venda de cães em lojas e online? Porque é que o Zé da esquina pode cruzar dois cães e vendê-los onde lhe apetecer? Gostava de ver leis que obrigassem pessoas que querem procriar a tirarem cursos e a serem supervisionadas por uma entidade competente de forma constante, e em que existissem números limites de cães que podem ser procriados.

É uma opinião muito pouco popular. A minha vida profissional teria sido muito mais fácil e muito mais lucrativa caso eu apoiasse a criação. Mas a quantidade de cães que vi irem e não voltarem, que morreram nos meus braços, que vivem vidas miseráveis, que sofrem de doenças atrozes passadas de geração em geração, é um peso que ninguém quer carregar e assombra-me os dias e as noites.

Porquê amarmos uma raça e não um cão? Porquê preferirmos um cachorro e não um adulto? Porquê condenarmos tantos a uma morte e abandono assistido em canis e associações, em nome da cor ou formato de um cão, de um pedigree que não passa de uma linhagem dos mais bonitos?

Não poderemos nós rever o que fazemos e mudar algo? O meu querido Joel, um border collie de 12 anos que comprei, foi o primeiro e último cão comprado. Eu amo-o incondicionalmente, como todos os que compraram os seus cães, mas se pudesse voltar atrás nunca o tinha comprado. Dizer e admitir isto é muito difícil, doloroso até, mas se a mudança não começar por mim, não vai ser por mais ninguém. Por isso começo eu.

Em nome de todos os cães, adopte, não compre.

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