EUA à beira das 150 mil mortes com Trump a insistir na reabertura das escolas

Projecções mais pessimistas apontam para 250 mil mortes até Novembro e 150 mil novas infecções por dia no Outono. Tendência só será travada com distanciamento social e uso generalizado de máscaras.

Uma professora da Florida pinta a frase "Queremos dar aulas, não queremos morrer"
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Uma professora da Florida pinta a frase "Queremos dar aulas, não queremos morrer" Reuters/OCTAVIO JONES

O número de mortes nos Estados Unidos por covid-19 vai ultrapassar os 150 mil nos próximos dias, e as projecções oficiais indicam que só uma quarentena apertada em várias regiões do país e o uso de máscaras por 95% da população podem travar a curva ascendente.

Segundo a mais recente projecção do Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças norte-americano, publicada na quinta-feira, é possível que o número de mortes chegue aos 175 mil nas próximas três semanas, até 15 de Agosto.

E o modelo do Instituto para a Avaliação da Saúde, da Universidade de Washington, que foi muito criticado pela comunidade científica nos primeiros tempos da pandemia por ser considerado demasiadamente conservador, indica agora que no início de Novembro o país pode registar quase 250 mil mortes por covid-19.

Se os estados mais afectados pela pandemia forem rigorosos no cumprimento de medidas como o distanciamento social e o uso de máscaras, é possível que sejam poupadas 75 mil vidas até ao início de Novembro, segundo o mesmo modelo.

“A primeira vaga da pandemia nunca chegou ao fim nos Estados Unidos”, disse o director do instituto, Christopher Murray, num comunicado. “Isso não nos vai poupar a um segundo surto no Outono, que deverá atingir com particular gravidade os estados que registam actualmente taxas elevadas de infecção.”

Pressão sobre as escolas

Ao mesmo tempo, a Administração Trump tem pressionado os estados no sentido de reabrirem as escolas a tempo do início do próximo ano lectivo, no Outono. O Presidente Trump já admitiu cortar o financiamento federal às escolas públicas que não forem reabertas mesmo que não tenham condições para cumprirem as regras de segurança como o distanciamento e o uso de máscaras.

Numa sondagem da agência Associated Press e da Universidade de Chicago, publicada na quarta-feira, 46% dos inquiridos disseram que só concordam com a reabertura das escolas se forem feitas “mudanças profundas” e 31% disseram que as escolas não devem reabrir seja qual for o cenário. Só 8% concordam com uma reabertura sem grandes preocupações de segurança e 14% admitem uma reabertura com “pequenas mudanças”.

Há um mês, no dia 23 de Junho, o Presidente norte-americano disse que o número total de mortes por covid-19 no país podia chegar a 150 mil “ou talvez um pouco mais”, e afirmou que a resposta da sua Administração fez com que tivessem sido poupadas “entre dois milhões e quatro milhões de vidas”. 

Apesar de Trump não ter citado a fonte dessa estimativa, acredita-se que seja um estudo do Imperial College de Londres, publicado em Março, que admitiu um máximo de 40 milhões de mortes em todo o mundo, só este ano, se nada fosse feito para combater a pandemia – um cenário improvável fosse qual fosse o Presidente norte-americano.

Mil mortes por dia

Com o aumento de infecções nos últimos dias em quase todos os 50 estados norte-americanos, alguns modelos antecipam um cenário ainda mais dramático nas próximas semanas e meses. 

Segundo Matthew Harrison, um especialista em biotecnologia no banco de investimento Morgan Stanley, o novo coronavírus pode infectar até 150 mil pessoas por dia nos Estados Unidos durante o Outono.

“Actualizámos os nossos cenários para incluirmos uma taxa de infecção mais elevada”, disse Harrison na quinta-feira. “O nosso cenário mais optimista reflecte um controlo do vírus semelhante ao que se verifica na Europa, enquanto o cenário mais provável prevê uma estabilização a curto prazo seguida de um crescimento no Outono. Sem um melhor controlo do vírus, é possível que haja 150 mil novos casos por dia.”

Desde o dia 7 de Julho que os Estados Unidos registam mais de 50 mil casos por dia, com picos de 76 mil a 17 de Julho e 74 mil na sexta-feira. E desde terça-feira da semana passada, o número de mortes por dia só ficou abaixo dos mil no sábado.

Os números variam consoante as fontes de informação. Segundo a Universidade Johns Hopkins, até este fim-de-semana morreram 146 mil pessoas nos Estados Unidos; os números compilados pelo Google e pelo New York Times dão conta de 149 mil mortes por covid-19 desde o início de Março.

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