A Q Magazine vai fechar, 34 anos e mais de 400 edições depois

A revista acompanhou extensivamente a explosão da Britpop nos anos 90 e ganhou notoriedade pela sua postura arrojada e linguagem sarcástica. Grupo Bauer Media colocara a publicação “sob revisão” em Maio devido a quebra nas receitas. Pandemia foi o derradeiro golpe.

Capa da Q Magazine em Abril de 2013
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Capa da Q Magazine com David Bowie em Abril de 2013 DR

Esta terça-feira, 28 de Julho, a Q Magazine leva às bancas a sua 415.ª e última edição. Fundada em 1986, a revista, uma das mais reverenciadas na história do jornalismo musical britânico, não terá conseguido resistir às complicações económicas exponenciadas pela pandemia, e, para a despedida, preparou uma edição comemorativa do seu legado. Em jeito de retrospectiva, o título Meeting People Is Easy: Adventures With Legends 1986-2020 lançará um olhar sobre algumas das “mais ilustres conversas (e desencontros) com as estrelas” que a Q documentou ao longo dos anos.

O fim da revista foi anunciado a 20 de Julho pelo editor Ted Kessler, que partilhou no Twitter o editorial que aparecerá na última edição. Nele, o jornalista recorda o pequeno questionário que teve de preencher e entregar à administração antes de assumir oficialmente a pasta. “A maior parte das perguntas eram aquelas coisas previsíveis: capas de sonho, planos para artigos de fundo, mudanças no design, orçamentos, por aí fora. Mas houve uma questão que me fez parar e pensar: ‘O que te assusta no cargo?’ Eu sei que a resposta devia demonstrar entusiasmo destemido, mas havia uma coisa que efectivamente me preocupava: eu não queria ser o último editor da Q. O meu patrão riu-se da nossa interacção. ‘Não vais ser o último editor de jeito nenhum’, disse-me ele…”, escreveu, pedindo desculpas aos leitores pelo seu “fracasso” na missão de manter a Q Magazine “à tona”.

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A capa daquela que será a última edição DR

Kessler também alude no editorial ao cenário de estrangulamento financeiro sob o qual sempre terá tido de operar desde a sua promoção, explicando que o novo coronavírus foi o derradeiro golpe para a redacção. Em Maio, sublinha o The Guardian, o grupo Bauer Media, conglomerado a que a Q pertence, colocara a revista “sob revisão”, citando uma quebra de receitas que, não tendo começado com a pandemia, havia sido agravada por ela. Segundo aquele jornal britânico, a circulação da Q Magazine rondava actualmente os 28 mil leitores, um registo magro em comparação com as tiragens de mais de 200 mil exemplares conseguidas pela publicação no seu auge, em 2001.

Criada há 34 anos pelos jornalistas Mark Ellen e David Hepworth, a revista rapidamente ganhou notoriedade pelas suas entrevistas em profundidade com alguns dos nomes maiores do universo pop – um dos personagens principais da primeira edição foi Paul McCartney – e pelos seus vários “Top 100”, dos 100 melhores álbuns britânicos aos 100 melhores singles da música contemporânea ou às 100 estrelas de rock mais ricas (num artigo de opinião publicado há uma semana no The Guardian, o premiado jornalista e crítico Alexis Petridis sugere que “a sensação de que a Q estava a exagerar tornou-se inequívoca quando a revista veio com as 150 melhores listas de rock”).

Atirando-se às bancas numa altura em que o furor dos CD estava, sobretudo junto de faixas etárias mais avançadas, a motivar uma espécie de nostalgia pelos ícones dos anos 60 e 70, Ellen e Hepworth não tiveram medo de resgatar figuras que, em plena era da synth-pop e da explosão indie comandada no Reino Unido pelos Smiths, não eram óbvias. Nos primeiros anos, acumularam-se entrevistas a Phil Collins, Rod Stewart, Paul Simon ou Elton John. “Esta era a revista que dizia aos miúdos que podiam gostar dos Dire Straits”, chegou a brincar o histórico jornalista e autor Steven Wells.

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Capa da 200.ª edição da Q, publicada em Março de 2003, com Courtney Love, viúva de Kurt Cobain e vocalista das Hole DR

A Q mudaria de foco nos anos 90, acompanhando de perto o furacão da Britpop que deu às rádios inglesas maratonas infindáveis de Oasis, Blur, Pulp, Travis, The Verve, Suede e tantos outros. Sem medo de arriscar, a publicação apostou em críticas e reportagens cada vez mais corrosivas e sarcásticas, desenvolvendo uma linguagem própria que se transformaria na sua imagem de marca. “Acho que adorávamos a revista e tínhamos medo dela na mesma medida”, resumiu Alex James, baixista dos Blur, numa crónica publicada no tablóide The Sun.

Nesse artigo de opinião, o artista descreve a Q como “uma revista que parecia encorajar positivamente o mau comportamento”. “Os jornalistas estavam sempre a perguntar-me se alguma vez tinha atirado uma televisão da janela, e dava para ver que ficavam genuinamente desapontados quando lhes respondia que não”, assinala. “O simples facto de os artistas serem mencionados pela publicação dava-lhes credibilidade, porque o nicho da Q era basicamente a realeza do rock.”

Vítima da pandemia, mas também de uma dessacralização da imprensa que começou há muito mais tempo, a Q Magazine deixa um vazio no panorama do jornalismo musical. No editorial já acima citado, Ted Kessler diz esperar que esta 415.ª e última edição possa “inspirar alguém suficientemente sagaz a preencher aquele buraco enorme em forma de Q nas bancas”. “Se isso acontecer, eu conheço a equipa de redactores certa.”

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