Editorial

Silicon Valley deveria aprender a comportar-se

Jeff Bezos, da Amazon, Tim Cook, da Apple, Mark Zuckerberg, do Facebook, e Sundar Pichai, da Google, testemunharam perante o Congresso dos EUA sobre as práticas comerciais das suas empresas.

O monopólio global nas suas respectivas áreas, e as consequentes práticas abusivas de mercado das GAFA, o acrónimo de Google, Apple, Facebook e Amazon, como são referidos na Europa, juntou esta quarta-feira, no Congresso dos EUA, os quatro mais poderosos das chamadas big tech. Jeff Bezos, da Amazon, Tim Cook, da Apple, Mark Zuckerberg, do Facebook, e Sundar Pichai, da Google, foram chamados a testemunhar perante o congresso sobre as práticas comerciais das suas empresas, no âmbito de uma investigação sobre os seus efeitos na diminuição da concorrência e sobre como os consumidores são prejudicados. O poder incomensurável implica sempre abusos de poder.

Algumas destas empresas têm vindo a adquirir eventuais concorrentes, têm desrespeitado a privacidade dos seus utilizadores, a autoria e propriedade intelectual de uma forma generalizada e, como já vimos, utilizam os dados que recolhem para fins nem sempre transparentes. O software é a indústria do século XXI, não restam dúvidas. Mas, como em qualquer indústria, a ética não pode ser indissociável da actividade empresarial. Tim Bray, um pioneiro da Internet, despediu-se da vice-presidência da Amazon em sinal de protesto contra o despedimento de funcionários que tinham colocado em causa a segurança dos armazéns da empresa em tempos de pandemia.

São os respectivos algoritmos que hierarquizam o que vemos e o que lemos, que filtram o que sabemos, em função de interesses publicitários ou de interesses mais obscuros, dependendo da empresa em questão e do contexto político, restringindo diversidade de opiniões e de gostos. É possível reverter este mundo conformista e homogéneo? Manda quem manda no algoritmo.

Não é claro até aonde pode (ou quer) ir o Congresso norte-americano numa eventual tentativa de limitar os monopólios de cada um. O que é claro é que o futuro não passa por censurar serviços, nomeadamente os de distribuição de conteúdos, adoptando legislação como a Turquia acaba de fazer, com uma pseudo-intenção reguladora, nem pela resignação com que utilizadores e países acompanham a evolução destes titãs.

Oxalá o exemplo de Margrethe Vestager, a comissária europeia da Concorrência, que tem aplicado multas pesadas a algumas destas empresas por desrespeito de normas de concorrência, possa ter uma sequência do outro lado do Atlântico, de modo a que a regulação seja global e eficaz. A mensagem de Vestager, a quem Donald Trump chama “Lady Tax” e as empresas norte-americanas do sector apelidam de “atormentadora-chefe” de Bruxelas, é muito simples: não se trata de ser inimigo de Silicon Valley, trata-se apenas de exigir que Silicon Valley se comporte.

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