Covid-19: Fauci, o cientista que contradiz Trump, também acredita numa vacina até ao fim do ano

Imunologista norte-americano garante que a rapidez das fases de teste não está a pôr em causa a segurança. Ouvido pelo Congresso, Fauci e outros dois responsáveis reforçaram os apelos ao uso de máscara e ao distanciamento social.

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Anthony Fauci e outros dois responsáveis reforçaram os apelos ao uso de máscara pela população em geral LUSA/KEVIN DIETSCH / POOL

O imunologista norte-americano Anthony Fauci, um dos responsáveis pelo combate à pandemia de covid-19 nos Estados Unidos e conhecido por desmentir e corrigir declarações do Presidente Donald Trump, afirmou, esta sexta-feira, que é “realista” esperar-se uma vacina eficaz e segura até ao final deste ano ou no início de 2021.

Ouvido pela segunda vez no Congresso norte-americano no espaço de um mês, agora por uma subcomissão da Câmara dos Representantes criada para investigar a resposta da Administração Trump à pandemia, Fauci garantiu que o desenvolvimento de uma vacina nos Estados Unidos está a ser feito em segurança, apesar da rapidez do processo em comparação com outros casos.

“Sei que para algumas pessoas parece que isto está a acontecer tão depressa que pode comprometer a segurança e a integridade científica. Mas posso dizer que isso não é verdade”, disse Fauci.

O cientista confirmou que uma das vacinas em que os Estados Unidos apostam – “uma de cinco ou seis” – entrou esta semana na Fase III, um passo antes da aprovação, e vai envolver 30 mil pessoas. Se os resultados forem positivos, a autoridade do medicamento norte-americana, a FDA, poderá avaliar a segurança dessa vacina “nos próximos meses”.

Segundo uma lista actualizada pelo jornal New York Times, há mais de 140 vacinas em desenvolvimento em todo o mundo. Dessas, seis estão na Fase III e o Exército chinês aprovou uma para uso limitado em soldados durante um ano.

Ainda assim, Fauci salientou que se a FDA aprovar uma vacina até ao final do ano, ela será disponibilizada aos norte-americanos em várias fases.

“Acredito que todos os norte-americanos vão ter acesso a uma vacina ao longo de 2021, se tivermos uma vacina segura e eficaz – e eu acredito que sim”, disse o imunologista. “Não acredito que toda a gente tenha acesso à vacina ao mesmo tempo, e é por isso que temos comissões para definir prioridades. Mas, em última análise, os nossos planos apontam para que qualquer americano que precise de uma vacina terá acesso a ela ao longo do ano de 2021.”

Uso de máscaras

Para além de Anthony Fauci, a subcomissão da Câmara dos Representantes ouviu esta sexta-feira o director do Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças norte-americano (CDC), Robert Redfield, e o subsecretário da Saúde dos Estados Unidos, o almirante Brett Giroir.

Os momentos mais intensos foram protagonizados pelo congressista republicano Jim Jordan, que já se tinha destacado no apoio ao Presidente Trump durante as investigações do processo de impeachment, no final de 2019.

Esta sexta-feira, Jordan tentou retratar Fauci como alguém que desvaloriza os riscos de transmissão nos protestos anti-racismo ao mesmo tempo que aconselha o encerramento de empresas e escolas. O imunologista recusou-se a fazer comentários sobre a legitimidade dos protestos e reafirmou que existe sempre um risco elevado de transmissão em grandes multidões, em particular quando o uso de máscaras não é generalizado.

A audição ficou marcada pelo reforço dos apelos ao uso de máscaras pela população em geral. O director do CDC, Robert Redfield, sugeriu mesmo que se o uso de máscaras fosse generalizado e se as regras de distanciamento fossem cumpridas, a economia do país poderia funcionar quase ao ritmo a que funcionava antes da pandemia. 

O mesmo apelo, feito tanto por Fauci como pelo subsecretário da Saúde, contrasta com a decisão do Presidente Trump de organizar um comício em Tulsa, no estado do Oklahoma, a 20 de Junho, e no Arizona três dias depois. Ambos os comícios foram realizados em espaços fechados e os participantes não foram obrigados a usar máscara.

Anthony Fauci disse ainda que os países europeus conseguiram controlar melhor a pandemia do que os Estados Unidos porque aplicaram quarentenas mais restritivas e as populações não resistiram tanto ao uso de máscara.

“Durante a quarentena, 95% dos países europeus ficaram fechados. Aqui, tudo somado, as medidas adoptadas em cada estado representaram um encerramento de 50%”, disse Fauci. 

“Alguns estados fizeram tudo muito bem, outros não. Nós emitimos recomendações e algumas foram seguidas e outras não”, disse o imunologista.

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