Torne-se perito Crónica

A luz da tua luz, compatriota Bruno Candé

Nascido em Lisboa, crescido em Lisboa, amante de Lisboa, há que dar o nome aos bois: lisboeta.

Deixem-me ir à bolina, estendido na Meia Praia, a vaguear por dentro. A avioneta passou em direcção a mais barlavento, trazia um longo rabo de pano com uma inscrição que não consegui ler nem com a pala da mão a tapar o sol. E a avioneta continuou lá para Sagres… 

Eis que a avioneta volta de onde sopra o vento. Os do Pará, do Brasil, é que têm razão, chamam barlaventistas a todos vindos de fora, pois trazem novidades. Dizia o pano, do lado bom da escrita que eu já podia ler, a letras pretas: “STEPHEN & ELINE 12,5 ANOS”, tudo entre dois corações vermelhos. Tão bem dito… Além do óbvio dos corações, reparem no “e” comercial, o “&”, a dizer aos ociosos como eu, estendidos na areia, que aquilo não era mero afecto de casal, um qualquer encontro prolongado e vago, mas, isso sim, um contrato de vontades, uma glória de apregoar pelos céus. 

E, depois, o Stephen e a Eline não me anunciavam estar juntos p'ra aí há uma dúzia de anos, não. Eles foram meticulosos como no amor se quer. Um dia, que podemos calcular lá para a última semana de janeiro de 2008, exatos “12,5 anos”, algo aconteceu àqueles dois que merecia ser dito à costa algarvia. E ficou dito, de forma altaneira e concisa. Tudo o mais que eu quisesse saber deles, é menor; podia ser importante, mas menor. Gosto do que vai ao osso, direito ao assunto.

Dias antes, fui apresentado a Bruno Candé Marques, ator, negro, lisboeta. Um nome do caraças e três condições a merecer atenção. Quer dizer, quando o conheci já ele tinha sido morto por quatro tiros, na rua. Brutal. Mas eu, o que querem, sou assim, cuido dos pormenores. Comigo, já o disse, uma dúzia é uma caixa de ovos mas “12,5 anos” já é um intenso agora. 

Quem me apresentou ao Candé foi Tiago Palma, rapaz que nunca vi mais gordo. Em 2015, jornalista do Observador, escreveu ele sobre uma viagem que fez com Bruno Candé pela Zona J, pelo suburbano lisboeta adentro. Um dia, no Libération, o diretor Serge July pespegou a foto de Aldo Moro, primeiro-ministro italiano, de direita. Este tinha sido sequestrado pelas Brigadas Vermelhas e olhava-nos com medo. E July, que era esquerdista como o seu jornal, escreveu no editorial: “Quando um homem nos olha assim, estamos com ele.” 

Os jornais fizeram-me muito do que sou. Nessa esteira – já Candé tinha sido morto com quatro tiros e eu procurava conhecê-lo – o Tiago Palma mostrou-mo a apontar-lhe, há cinco anos, uma torre da Zona J: “Tens de ir lá acima, uma vista do caraças sobre o Tejo!” E, logo a seguir, sobre um monte de entulho que já fora casa, disse, disse-lhe, disse-me, o negro: “Olha, eu morava aqui. Aqui, onde estás a pisar.” Aos poetas quando falam assim, chamam-lhes telúricos. Ao Bruno Candé, nascido em Lisboa, crescido em Lisboa, amante de Lisboa, há que dar o nome aos bois: lisboeta. 

Deixem-me continuar assim, à bolina. No dia em que mataram Candé, os jornalistas correram para Moscavide e um estendeu o microfone a uma mulher. Ele era da CMTV que tem microfones que sujam, já houve quem atirasse um ao charco, mas a mulher não se intimidou e disse o que havia para dizer, com as propriedades léxica, semântica e propedêutica necessárias. Disse um sonoro: “Foda-se!” 

Quer dizer, o que ela fonetizou foi (está gravado e emitido): “O senhor também não se metia com ninguém apesar de ser de cor, é assim, eu acho que nós… nós… temos de acabar com o racismo.” O acervo linguístico podia ser melhor, “senhor” não condizia com o Candé generoso e popular pelo bairro fora, como o Tiago Palma tão bem assinalou, “também” é muleta de linguagem, “apesar” é significante oposto ao sentido denotativo que a falante queria dar. Mas o essencial era aquele “nós… nós…” que exprimia o que havia para exprimir: emoção. Foda-se! 

Um dia, quando passar isto da covid e eu puder agarrar de novo uma mão desconhecida, irei a Moscavide, reconhecerei a senhora, atravesso a rua se for preciso e dir-lhe-ei: “Obrigado.” Ela saberá do que falo, perita que é em emoção. Talvez me diga: “Ah, percebeu que quando eu disse apesar de ser de cor eu não queria…” Não a deixarei acabar. Se ela me der tempo falar-lhe-ei da propedêutica dos gregos (aquilo que ela expressou com a sua emoção) e nos prepara para melhor conhecimento. Plantar para colher, foi o que ela fez. Por isso prefiro que ela não me dê tempo e aceite logo o quanto lhe estou grato por nós… nós… sermos, por causa dela, e com ela, mais e melhores. 

Mas estamos tristes. Indignados também, mas estamos sobretudo tristes pela perda. Volto ao texto antigo de Tiago Palma, no Observador. Candé, português de família oriunda da Guiné-Bissau, crescido na Zona J, aluno da Casa Pia de Lisboa, explicava ao repórter o que o levara a fazer teatro. Um companheiro, contou Candé, “tanto marrou comigo, vamos, vamos, vamos, que eu abri a pestana e lá fui.” Eu disse a frase para mim próprio e saboreei-lhe o português terso. Na hora da morte, o matador terá dito a Candé para voltar para a sua terra. Assassino surdo, nem soube ouvir o português de lei que tinha à sua frente. 

Outros testemunhos lembraram o fascínio de Bruno Candé Marques por Ne Me Quitte Pas, de Jacques Brel. O filho da pobreza, que quase nenhum francês sabia, levou a canção para o espetáculo Rifar o Meu Coração, da encenadora Mónica Calle. Na Zona J, ele fez de macho latino ao som da canção de amor mais desesperada do mundo. Depois, em 2016, o black lisboeta voltou ao mesmo, noutro lugar português, o tripeiro Bairro da Sé, sempre com Brel a suar e a amar de rastos. 

Leiam a reportagem que a repórter Cristiana Faria Moreira fez, então, no PÚBLICO. Candé, o negro alfacinha chegou lá borrado de medo: “Eu estava tipo… Porto, bairro, e eu sou black… É aquela coisa de pensar que os outros têm preconceito.” Mas não, o Bairro da Sé, caragos, recebeu-o como seu o que era seu, não lhe deu nem um tiro, só abraços e aplausos. Traduziu Bruno Candé: “Deram-me uma chapada, uma grande chapada sem mãos.” Palavras do ator para a repórter: “Eu sou o milagre que tinha tudo para dar errado.” Não é verdade, ele não tinha. De errado, tinham-lhe, numa rua de Moscavide.

É, mas eu não tenho mais que uma linha para o traste da pistola. 

Tenho mais que fazer, tenho o Bruno Candé. Olhar o sol que não me ofusca. Ver uma miríade de papagaios de papel, pérolas de frases, um campo de trigo mais grado que o melhor abril. Não quero esquecer o tempo, porque ele não foi perdido. Vais-me deixar, vais-me deixar, vais-me deixar… Mas deixaste-me mais forte e melhor, Bruno Candé, que me inventaste palavras sensatas. Vou aqui ficar e daqui te ver dançar e sorrir, escutar-te a cantar e a rir até me sentir a luz da tua luz, querido patrício.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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