Opinião

Lixo marinho: as visões de jovens universitários e as armadilhas da agenda ecológica

Apesar da intenção benigna, os novos chavões como “desenvolvimento sustentável”, “economia azul”; “economia circular”, a própria “sustentabilidade”, a “reciclagem”, entre outros, correm o risco de não passar de chavões, porque não consagram o Homem como primeiro e único responsável entre os viventes pelo estado do ambiente.

De repente, e para os mais distraídos, foi como se o lixo marinho, com as suas ilhas de plástico, tivesse dado à costa, tal foi a sucessão de notícias e dossiers especiais dedicados a esta problemática na comunicação social. E se os impressionantes números da degradação dos ecossistemas marítimos hoje já não fazem as primeiras páginas não é porque o problema tenha desaparecido. As ilhas de plástico e os microplásticos continuam a proliferar no ambiente e os seus efeitos estão ainda por apurar cabalmente.

Ora, é bom que o tema não caia no esquecimento. Isto por duas razões. Por um lado, porque enquanto público ainda não estamos devidamente informados sobre o lixo marinho, com particular ênfase para os plásticos e microplásticos; por outro, porque importa construir, sobre a casa comum, outros discursos, baseados na razão e no que pensamos enquanto cidadãos, e não na apologia do medo.

Quando, em 2018, inquirimos cerca de 300 jovens estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto sobre as suas visões acerca do lixo marinho, compreendemos que a carga negativa evocada através de temas como “morte”, “poluição”, “plásticos”,” e “petróleo” deixava de lado “os microplásticos”, entendidos como fragmentos de plástico de dimensões inferiores a cinco milímetros, resultantes da desintegração de objetos plásticos de maiores dimensões. Os efeitos do lixo marinho, portanto, pareciam limitar-se ao mar e à sua biodiversidade, deixando de lado as suas consequências para o Homem.

De facto, os mares são vistos como ecossistemas alheios ao Homem e, por isso, as consequências negativas da ação humana sobre estes materializam-se, sobretudo, na exibição de imagens com animais moribundos apanhados por marés negras, ou dados à costa com os estômagos recheados de plástico. E, se o Homem é apontado como causa material do problema, trata-se habitualmente do Homo economicus, o Homem-empresa-multinacional-preocupado-com-o-lucro-não-olhando-a-meios-para-atingir-os-fins, e não do Homo domesticus, isto é, de cada um de nós, com as nossas rotinas comuns, com os nossos hábitos aparentemente inofensivos, obliterados por vezes pela simples constatação de que “eu até separo o lixo em casa”. Deste modo, as nossas práticas e rotinas podem, por assim dizer, permanecer à margem do debate: livramo-nos do desagradável desencontro entre as nossas preocupações ecológicas e os nossos comportamentos – mais saco de plástico, menos saco de plástico, pouca diferença há de fazer para as longínquas ilhas de plástico que, afinal, só nos entram em casa quando delas se faz manchete. De facto, apesar da sua sensibilidade ao tema, os jovens universitários que inquirimos mostram-se muito pouco comprometidos com a mudança no dia a dia.

Para além da falta de correspondência atitude-comportamento, o segundo ponto a discutir está relacionado com a agenda ecológica que domina a apresentação pública do tema. Há dois argumentos sobre a agenda ecológica que evocamos e que, não sendo originais, revelam e sintetizam as linhas principais da nossa visão.

1. A agenda ecológica considera o Homem mais um animal entre outros;

2. A agenda ecológica toma o equilíbrio ecológico como um fim em si mesmo.

As preocupações legítimas sobre a degradação da casa comum – que subscrevemos – radicam numa visão idealista da natureza, numa espécie de paraíso perdido. A natureza é o bem, e a tecnologia (para não dizer, o próprio Homem), é o mal, a vilã da história. Ora, o Homem caracteriza-se precisamente por uma superior capacidade de agir sobre o meio-ambiente; as suas obras atravessam gerações e, hoje, em muitos lugares, é quase impossível distinguir entre a paisagem natural e a paisagem humana. É precisamente porque atualmente o Homem se encontra no centro da natureza e não é apenas mais um animal entre outros animais que apenas a ele lhe podemos exigir responsabilidade moral – que tome conta da casa, tendo em vista o bem comum. E esse bem há de ser, antes de mais, um bem moral.

O equilíbrio ecológico não é, portanto, um bem em si mesmo. Antes de mais, é necessário voltar a consagrar o Homem enquanto finalidade em si mesmo; nada mais pode ser uma finalidade em si mesmo. Por outras palavras, tudo pode ser um meio para um fim, exceto o Homem. Esta mudança de mentalidade é fundamental para construir um discurso positivo e significativo sobre as nossas legítimas preocupações sobre a casa comum. Se as estruturas capitalistas de produção industrial são as responsáveis materiais pela degradação do meio ambiente, cada um de nós será o responsável moral. É necessário, na nossa perspetiva, voltarmo-nos para o universalismo dos deveres humanos – carta ainda por escrever, de que falava Simone Weil – um universalismo ético e moral que rejeite o discurso vigente do intersubjetivismo.

O desafio bem exigente, que se coloca a cada um de nós, é o de assumir a sua responsabilidade enquanto administrador da casa comum. Apetece lembrar Hannah Arendt e dizer que o trabalho não pode ser reduzido ao labor, nem a obra ao consumo. As coisas que fazem parte da nossa vida, que construímos ou adquirimos, devem ser feitas para durar e as nossas escolhas livres para rejeitar a precariedade instigada pelo consumismo e a sua obsolescência programada. Isto, claro, na medida das possibilidades, desde logo económicas, mas também culturais, de cada um: exige-se mais a quem mais tem.

Hoje, contrariamente à atitude dos hippies dos anos 70, a preocupação com o ambiente não pode limitar-se à oposição ao capitalismo, ao sistema, à mão destrutiva do Homem ganancioso sobre a Natureza, pura, vítima, e que deve ser afastada de qualquer tipo de influência humana. Hoje, a visão sobre a relação Homem-Natureza terá de assumir um teor mais racional. Nesta visão, o Homem deixa de ser visto como aquele que está contra à Natureza, tornando-se parte integrante da própria e readquirindo noção da sua responsabilidade, enquanto principal agente sobre os seus elementos. Apesar da intenção benigna, os novos chavões como “desenvolvimento sustentável”, “economia azul”; “economia circular”, a própria “sustentabilidade”, a “reciclagem”, entre outros, correm o risco de não passar de chavões, precisamente porque não consagram o Homem como primeiro e único responsável entre os viventes pelo estado do ambiente: o único cujas escolhas decidem do futuro. Retomamos, portanto, o justo modelo de antropocentrismo, com o Homem tendo o dever de tomar conta da Natureza, enquanto simultaneamente participando dela, cuidando e criando.

Em grande parte como fruto da agenda ecológica atual, quer os órgãos da comunicação social, quer os órgãos das próprias instituições que estudam ou trabalham a temática ambiental, têm revelado uma preocupação acrescida com a comunicação da ciência e do conhecimento envolvidos nos estudos e problemáticas ambientais – de que, aliás, as próprias infografias do PÚBLICO ou as do Parlamento Europeu sobre o lixo marinho são provas. Ao capacitar os cidadãos para opinarem e decidirem de uma forma informada, essa comunicação toma hoje um papel especialmente relevante, também por poder favorecer a construção de uma nova visão sobre o ambiente e sobre o lugar e a responsabilidade do Homem dentro daquela que é, em suma, também a sua, embora partilhada, casa.

Os autores escrevem segundo o novo Acordo Ortográfico

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