Líbano: À espera da conclusão do trauma Hariri

Quem matou o ex-primeiro-ministro libanês, o político mais influente do pós-guerra civil? Esta semana, conhece-se o veredicto, e teme-se que desencadeie um dominó perigoso.

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Poster gigante de Rafiq Hariri em Beirute Reuters/MOHAMED AZAKIR

A terrível explosão de Beirute foi uma surpresa, numa semana em que todas as atenções estavam voltadas para o veredicto, esperado sexta-feira, de um tribunal especial, montado com o apoio das Nações Unidas, para julgar os suspeitos de assassinar, há 15 anos, o ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri.

Hariri era um muçulmano sunita e foi a figura política mais marcante após o fim da guerra civil, em 1990. Os quatro suspeitos, julgados apesar de não comparecerem em tribunal, são xiitas e membros do Hezbollah, que é ao mesmo tempo um partido e uma milícia xiita, apoiada pelo Irão. Se forem considerados culpados, teme-se que estale um novo conflito sectário neste país que foi já consumido por uma feroz guerra civil.

O atentado à bomba que matou Hariri, em 2005, foi o último grande trauma libanês – e marca ainda as contínuas crises políticas deste país.

Hoje, no entanto, o país que já foi “a Suíça do Médio Oriente, está a tornar-se num novo Afeganistão”, como dizia uma sexagenária ao jornal Le Monde em Julho. A crise económica deixou a maioria dos cidadãos sem dinheiro sequer para comer – a carne tornou-se uma memória, o pão quase um bem de luxo.

O assassínio de Hariri, e os enormes protestos que motivou, bem como a pressão internacional, forçaram a Síria a pôr fim à presença militar que mantinha no Líbano há 29 anos, porque um investigador da ONU associou Damasco ao atentado que o matou.

Depois disso aconteceu a guerra na Síria, e aprofundaram-se mais as tensões sectárias e políticas no Líbano e no Médio Oriente. A investigação sobre o assassínio de Hariri revelou potenciais ligações do Hezbollah à morte de um político apoiado pelo Ocidente e pelos Estados do Golfo que se opõem a Teerão.

Tudo isso produziu uma mistura que, neste momento de pressão, pode transbordar de forma perigosa.