Opinião

Ministro Siza: isto não é uma “gripezinha”

Como pode um ministro, que se queira credível e levado a sério, dizer aos portugueses – trabalhadores e empresários – que o pior já passou?

1. O centro das preocupações está hoje na saúde pública e na gravíssima crise económica e social que a pandemia originou. Como é patente por quase toda a Europa, onde a cada passo florescem novos focos e surtos, mesmo que localizados, a guerra contra a epidemia está longe de se poder ter por ganha. Isto para já não falar no resto do mundo, onde as Américas estão à beira do desastre e os desenvolvimentos na Ásia, na Oceânia e na África são, no mínimo, muito preocupantes. Se a situação sanitária é deveras alarmante e nos obriga a cautela e a prudência redobradas, a situação social e económica consubstancia garantidamente a maior crise que vivemos desde a II Guerra Mundial

Por toda a Europa, a até mais acentuadamente em Portugal, os números já conhecidos são assustadores. E não menos assustadora é a resposta do Governo, designadamente do ministro da Economia, que anda a dourar a pílula e a pôr paninhos quentes, enganando os portugueses. Merece a pena confrontar as declarações delicodoces de Siza Vieira da última sexta-feira – dia em que se conheceu a contracção devastadora da economia no trimestre – com as declarações do mesmo dia do ministro das Finanças francês, Bruno Le Maire. Enquanto que o primeiro, numa reacção à ministro da propaganda do Iraque, asseverava que o “pior já passou”, o segundo alertava os franceses para que, em especial em matéria de desemprego, o “pior estava para vir”.

A cultura de responsabilidade democrática, prestando contas com verdade e sem subterfúgios, tratando os cidadãos como adultos, infelizmente não pertence ao património dos socialistas portugueses (que ainda hoje praticam o negacionismo quanto à bancarrota de Sócrates) e muito menos se inscreve na “ética” das habilidades do Governo Costa. Siza Vieira, até há pouco, pontificava entre os raros que parecia não comungar da “estética habilidosa” do primeiro-ministro e dos seus sequazes. Mas na primeira grande oportunidade sucumbiu à tentação de integrar a copiosa lista dos governantes habilidosos, decretando o início da retoma. E, já conhecemos a ladainha, depois virá o fim do início da retoma, a seguir a continuação da retoma e finalmente “a retoma da retoma”. Até que os dados crus e nus da realidade chamem alguém que trate os portugueses como adultos.

2. A posição oficial do Governo, veiculada por Siza Vieira, deve fazer soar os alarmes. Começou por nunca falar no falhanço manifesto das previsões do Governo. À velha maneira da retórica socrática, que era protagonizada na perfeição pelo já então e sempiterno ministro Santos Silva, referiu-se repetidamente às previsões da Comissão Europeia (que, lembre-se, nunca foram coincidentes com as do Governo). Disse, aliás, em tom de desdramatização, que não havia propriamente surpresa com a contracção de mais de 14% em face do semestre anterior porque ela estava em linha com as previsões da Comissão. Mas recusou-se a dizer que esse resultado desmentia em absoluto as previsões do Governo, que eram totalmente desfasadas da realidade.

Daqui se retira, por um lado, que as previsões do Governo Costa não são nem fiáveis nem credíveis, a ponto de o próprio Governo as ignorar e desvalorizar. E, por outro, que todas as variáveis e grandezas orçamentais, construídas com base nessas previsões, carecem de realismo e de plausibilidade. Não deixa de ser chocante, ademais, a forma como, logo de imediato, o ministro Siza se recusa a equacionar os reflexos nas contas públicas e no desfecho macroeconómico do final do ano. Depois de notícias tão excruciantes como estas, procura ainda manter em aberto a possibilidade de atingir e cumprir as metas orçamentais (que já haviam sido revistas no orçamento suplementar).

3. O problema principal deste modo de proceder do Governo reside na circunstância de aquelas previsões erradas terem sido construídas e fabricadas de propósito para adoçar a realidade, para a mistificar e “martelar”, e depois, numa sucessão orquestrada de enganos e omissões, ir gerindo as expectativas. Primeiro, apresentam-se estimativas mais favoráveis para ir adiando e entretendo. Depois, assim que é ostensivo que tais estimativas se goraram, assume-se a predição dos gabinetes europeus, dizendo que afinal isso não era nem menos nem mais do que se esperava. Entretanto, sabendo-se que as metas previstas não podem ser atingidas, decreta-se o “esperar para ver”. Aparentemente, tudo esteve, está e estará sob controlo. E é bem verdade, tudo esteve e tem estado sob controlo de uma desprezível maquineta de propaganda, geradora de ilusões ou mesmo de ilusionismo.

4. Mais grave do que tudo isto só mesmo a asserção de que o pior já passou. Pode alegar-se, em defesa pífia, sonsa e saloiamente esperta, que o ministro se refere ao pico da pandemia e da consecutiva paragem da economia. Nem isso é certo, seja para a pandemia, seja para o bloqueio da economia. Mas mesmo assumindo que, em sede de saúde pública, o momento mais difícil está ultrapassado, isso não vale, nem de longe nem de perto, para os efeitos sociais e económicos da crise. Desde logo e à cabeça, em matéria de desemprego. Como pode um ministro, que se queira credível e levado a sério, dizer aos portugueses – trabalhadores e empresários – que o pior já passou? Porque embarca neste optimismo “panglossiano”, muito ao jeito da ladainha do milagre português e do júbilo ridículo com a fase final da Liga dos Campeões? Acha mesmo – ele, o seu Governo e o seu primeiro-ministro – que agora só podemos melhorar?

5. Vivemos tempos muito graves e muito duros. Precisamos de quem nos fale a verdade, seja capaz de organizar o planeamento da recuperação em tempo recorde e de mobilizar vontades, energias e capacidade de resistência. A crise económica e social que já aí está não é uma “gripezinha”, com um febrão em Março-Abril, entretanto debelado. É a crise mais grave de que temos memória e exige estadistas à altura. Com ladainhas socráticas, de triste memória, não iremos a lado nenhum.

SIM e NÃO

SIM. Baixa do número de infecções. Apesar das teorias da conspiração e dos milagres, só há uma maneira de combater a pandemia. Encarar a realidade e tomar medidas. Queixas nacionalistas não resultam.

NÃO. Ministra da Justiça. Insisto: a oposição e os media não podem conformar-se. A ministra tem de explicar porque contornou e ignorou um júri europeu independente na escolha para a Procuradoria europeia.

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