Quarenta e dois dias para vender o TikTok? Fundador chinês defende venda nos EUA

A dona chinesa do TikTok diz que “não tem alternativa”, enquanto Donald Trump pede “uma percentagem grande” do valor da venda.

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Trump quer uma percentagem grande da venda do TikTok Dado Ruivic/Reuters

A Microsoft tem até dia 15 de Setembro para selar a compra do TikTok e evitar que a rede social de microvídeos virais seja barrada em solo norte-americano. 

O Presidente dos EUA, Donald Trump, que ameaça proibir o TikTok há semanas devido às suas ligações com a China, deu luz verde à transacção na segunda-feira — mas só se ficar concluída nos próximos 42 dias e apenas se o Departamento do Tesouro dos EUA ficar com “uma percentagem muito grande” do valor da venda, disse. 

“Não me interessa se é a Microsoft ou outra empresa [a comprar o TikTok]”, disse Trump numa conferência de imprensa sobre a possível aquisição na segunda-feira. A única condição é que seja norte-americana. “E os EUA devem receber uma percentagem muito grande [do valor de venda], porque estão a torná-la possível”, explicou. 

Falta esclarecer quem é que teria de pagar essa percentagem — o TikTok ou a Microsoft —, mas, num comunicado sobre as negociações, a empresa norte-americana assegura que está “empenhada em fornecer benefícios económicos adequados aos EUA” e que “está empenhada em adquirir o TikTok mediante uma revisão completa da segurança”.

A empresa tecnológica chinesa ByteDance, que é a actual dona do TikTok, reconhece que vender a rede social à empresa norte-americana pode ser a única solução para que a plataforma continue operacional nos EUA. O país é o segundo maior mercado da rede social fora da China desde que a Índia (que outrora ocupava o segundo lugar do pódio) baniu a aplicação no início de Julho com base em preocupações de cibersegurança. 

“O TikTok é mais do que um produto da ByteDance”, justificou Zhang Yiming, o antigo engenheiro da Microsoft que fundou e lidera a ByteDance, numa de duas cartas endereçada aos seus trabalhadores em que quebra o silêncio da empresa em torno da polémica nos EUA. 

Desde Novembro de 2019 que o Comité de Investimento Estrangeiro dos EUA (CFIUS, na sigla inglesa) está a investigar a aplicação e as ligações à chinesa ByteDance, que se especializa em ferramentas de inteligência artificial e gere o TikTok desde 2017. Em causa está a Lei Nacional de Segurança da República Popular da China, aprovada nesse ano, que dita que “todas as organizações e cidadãos devem apoiar, ajudar e cooperar com o Estado em matéria de segurança nacional”.

“Embora tenhamos deixado claro que somos uma empresa privada e que estamos dispostos a tomar medidas técnicas adicionais, o CFIUS determinou que a ByteDance deve-se afastar-se das operações do TikTok nos EUA”, revelou Yiming, admitindo que a empresa “não tem alternativa” e está presa entre “uma venda forçada nos EUA” ou “uma ordem executiva a proibir a aplicação”. 

“Tudo isto põe o TikTok numa posição interessante”, explica ao PÚBLICO Justin Sherman, membro da Cyber Statecraft Initiative, um programa do think tank norte-americano Atlantic Council que se debruça sobre decisões geopolíticas baseadas em tecnologia. “A aplicação foi recentemente banida da Índia, que reunia a maior base de utilizadores da app, e agora enfrenta a mesma perspectiva nos EUA”, sublinha Sherman. Lembra que “a política da Administração Trump quanto à cadeia de fornecimento digital entre os EUA e a China é fortemente orientada a nível político”.

A Huawei é outra empresa chinesa incluída numa “lista negra” de entidades às quais as empresas americanas não podem fornecer serviços ou produtos desde 2019 por questões de segurança. Tal como o TikTok, a Huawei nega a partilha de informação sensível com o Governo de Pequim.

Em Julho, Donald Trump chegou a descrever decisão de bloquear o TikTok como uma retaliação pela atitude da China face à pandemia de covid-19. “É um grande negócio”, resumiu Trump, quando questionado sobre a rede social em entrevista ao canal de televisão norte-americano Gray Television.

Apesar de só ter surgido em 2017, o TikTok em 2020 era a sétima aplicação mais descarregada da última década e a popularidade só cresceu com o isolamento social, ultrapassando os dois mil milhões de downloads em Abril, de acordo com dados recentes da consultora Sensor Tower. 

Vender a empresa não elimina, no entanto, todas as preocupações relacionadas com a cibersegurança. “Para efectivamente reduzir as preocupações de cibersegurança, a empresa tem de ser impedida de enviar quaisquer dados para a China”, explica ao PÚBLICO Miles Evers, professor de Política Económica e Política Internacional na Universidade de Connecticut, nos EUA. “Por outras palavras, a rede social teria de desligar-se por completo da China, o que num país em ligação com o mundo global pode ser difícil ou até impossível.”

Evers acrescenta ainda que “não se deve exagerar a capacidade de o Governo dos EUA proteger os dados à disposição do TikTok”, visto que as empresas norte-americanas têm “mecanismos institucionais” para resistir à cooperação com as autoridades e serviços secretos do país. 

Contrariamente a outras empresas norte-americanas cuja utilização é bloqueada na China, como é o caso do Facebook e da Google, a Microsoft, que empregou o fundador da ByteDance, mantém uma presença neste país asiático há mais de 25 anos. 

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