Editorial

Michelle na Casa Branca?

Michelle tem várias razões para dizer que sim se for ela a escolhida de Biden. A mais grave crise depois da Segunda Guerra, o acordar da América para o racismo, a dolorosa agonia de Trump. É a hora de uma mulher afro-americana, é a hora dela.

Todas as sondagens, até agora, convergem: Trump, cuja reeleição era dada como garantida por causa da economia, que até à chegada do vírus corria resplandecente, está em grande risco de perder as presidenciais.

O improvável Joe Biden será, ao que tudo indica, o próximo Presidente dos Estados Unidos da América. Independente do comportamento de Trump nos últimos meses, o efeito catastrófico da covid-19 na economia americana – com uma quebra de 33% no Produto Interno Bruto no segundo trimestre, um recorde desde o pós-guerra – ditou o destino do mais insólito Presidente dos Estados Unidos de que há memória. Trump reage acossado: agora quer adiar as eleições, previstas para Novembro. Já admitiu não as reconhecer.

Joe Biden, por estes dias, vai nomear o seu vice-presidente. Aliás, sua. Já se tinha comprometido em nomear uma mulher. Já tinha dito que gostaria de ver Michelle Obama nesse lugar. A mulher de Barack Obama tinha dito que não, que já tinha passado muitos anos na Casa Branca…

Mas e se a escolha de Biden recair mesmo em Michelle Obama? Pese o carácter monárquico, a solução transformava as eleições americanas. Dada a popularidade estratoférica de Michelle Obama, o seu nome praticamente garantia a vitória de Biden que, sendo provável, ainda não está escrita definitivamente nas estrelas.

Michelle Obama tem juventude e talento e é um sinal para o eleitorado afro-americano (apesar de Joe Biden já ter o apoio em peso desse eleitorado) num tempo em que o assassinato de George Floyd despertou a América em peso para o seu racismo estrutural. É um facto que dois mandatos de Barack não alteraram a natureza das coisas. Mas depois da hostilidade de Trump para com os manifestantes e da sua dissociação do problema do racismo –, a escolha de uma mulher negra na corrida à Casa Branca levava o problema do racismo para onde ele tem que estar, o debate político. Joe Biden é apoiado pelos líderes afro-americanos, mas a capacidade de Michelle chegar às massas é assombrosa. É ver o sucesso da sua autobiografia Becoming, convertida depois em documentário (outro caso de amor das massas). Nestes últimos dias de Julho, Michelle lançou o seu podcast no Spotify para o qual convidou, para “uma conversa intimista”, o marido Barack Obama que, nas cerimónias fúnebres do activista pela emancipação dos negros John Lewis, mostrou que continua munido de uma incrível capacidade política.

Michelle tem várias razões para dizer que sim. A mais grave crise depois da Segunda Guerra, o acordar da América para o racismo, a dolorosa agonia de Trump. É a hora de uma mulher afro-americana, é a hora dela.

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