Covid-19 é pretexto para despedir em fábricas na Ásia com trabalhadores sindicalizados

Fábricas contratadas pela Primark, Zara e H&M usam como justificação para despedir os impactos da pandemia de covid-19. Relatório mostra que os trabalhadores mais visados são aqueles que estão sindicalizados.

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Reuters/ANDREW BIRAJ

Fábricas têxteis de grandes retalhistas, como Primark, H&M e grupo Inditex, estão a despedir trabalhadores nas suas fábricas asiáticas. A justificação dada relaciona-se com os efeitos da pandemia de covid-19, mas um novo relatório da Business and Human Rights Resourse Centre (BHRRC,  Centro de Recursos Empresariais e de Direitos Humanos, em português) indica como causa o sindicalismo dos empregados, avança o The Guardian, citando o documento.

Milhões de trabalhadores destas fábricas, situadas em regiões mais pobres do continente asiático, perderam os seus empregos desde que a covid-19 fechou fábricas e empresas mundialmente. No entanto, o relatório do BHRRC  mostra que existe um padrão destas fábricas fornecedoras de retalhistas têxteis: “visam trabalhadores sindicalizados para despedimento”.

O relatório destaca a perda de quase 5000 postos de trabalho, alegadamente ligados à filiação sindical em nove fábricas em Myanmar, Camboja, Bangladesh e Índia. Esta não é uma prática recente provocada pela pandemia, uma vez que entre Janeiro de 2015 e Março deste ano, o BHRCC “procurou obter 220 respostas de marcas de roupa relacionadas com abuso de liberdade de associação nas suas cadeias de abastecimento”.

Ao jornal britânico, Thulsi Narayanasamy, líder da BHRRC na área dos direitos dos trabalhadores, afirmou: “Os trabalhadores enfrentam uma elevada repressão quando exercem os seus direitos mais fundamentais e as marcas não se estão a dedicar o suficiente para assegurar a protecção dos trabalhadores nas suas cadeias de abastecimento”.

“Ameaçar o direito de se organizarem colectivamente e de fazerem parte de um sindicato num momento tão crítico [pandemia], impede-os de serem capazes de garantir que recebem salários, estão seguros no trabalho e livres de assédio”, acrescentou.

O relatório analisa em pormenor diversos casos em fábricas nos países referidos. Em todos os casos a BHRRC afirma que as grandes marcas deveriam ter sido mais activas a assegurar os direitos dos trabalhadores.

Entre os casos mencionados no relatório está uma fábrica no Myanmar, da qual a marca Mango é cliente, onde foram despedidas 571 pessoas no final de Março, das quais 520 são membros do sindicato da fábrica. Segundo o relatório a fábrica justificou-se com o aumento de casos de covid-19, mas os despedimentos ocorreram apenas horas depois de o sindicato ter pedido mais medidas de protecção contra o coronavírus. Em Maio, a fábrica recuperou 75 dos trabalhadores afectados e disse que centenas de outros seriam novamente contratados quando as operações voltassem ao normal.

Também um fornecedor na Índia, que faz peças para a H&M, despediu 1200 trabalhadores de uma fábrica, em Junho, citando falta de encomendas devido à pandemia. No entanto, outras fábricas do mesmo fornecedor continuaram abertas e aquela era a única sindicalizada, diz a BHRRC.

No Bangladesh, três fábricas pertencentes ao Windy Group – que fornecem o grupo Inditex (dono da Zara) e a H&M - despediram 3000 trabalhadores. Os colaboradores alegam que foram despedidos devido ao seu activismo sindical.

“Nas suas respostas, tanto a H&M como a Inditex disseram que as reduções nas fábricas foram feitas devido aos impactos económicos da covid-19. As marcas indicaram que foram fechados acordos entre as três fábricas e sindicatos locais e os trabalhadores foram indemnizados de acordo com a legislação local. No entanto, os trabalhadores continuam a exigir a reintegração”, lê-se no relatório.

Várias das empresas mencionadas no relatório, incluindo a Primark, Levi Strauss, Inditex, H&M e Mango, salientaram, em respostas à BHRRC e ao jornal The Guardian, que estão empenhadas em proteger os direitos de os trabalhadores formarem e aderirem a sindicatos.

Segundo a BHRR estes casos “são apenas a ponta do icebergue” pois maioria dos casos não chega a ser reportado.

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