Críticas à nomeação de filha do Presidente angolano para a Bolsa de Valores

É uma “distracção evitável e corrigível”, disse o jornalista e activista Rafael Marques. Fica fragilizado o combate à corrupção de João Lourenço, dizem outros analistas.

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Andrew Caballero-Reynolds/ REUTERS O melhor seria que a filha de João Lourenço se demitisse, aconselha Rafael Marques

Cristina Giovana Dias Lourenço, filha do Presidente angolano, João Lourenço, foi nomeada em Março pela pela ministra das Finanças de Angola para o cargo de administradora executiva da Bolsa de Dívida e Valores de Angola (Bodiva). Mas a notícia só foi conhecida agora.

Cristina Giovana Dias Lourenço, que é técnica superior de 2.ª classe no Ministério das Finanças de Angola, foi dispensada para dirigir os departamentos de Finanças e Património e de Comunicação e Intercâmbio da Bolsa angolana, avançou o Jornal de Negócios em Portugal.

Rafael Marques, jornalista e activista angolano, disse à agência Lusa que a nomeação da filha do Presidente angolano para um cargo público é “uma distracção evitável e corrigível”. Não considerou o processo nepotismo, mas disse ser “desaconselhável”.

“Primeiro, é preciso esclarecer que não é uma nomeação feita pelo Presidente, aliás a filha de João Lourenço, já antes de ele ser Presidente, exercia uma função no Ministério das Finanças. Mas do ponto de vista da opinião pública, seria de todo aconselhável que a ministra das Finanças, responsável pela nomeação, não a fizesse”, disse Rafael Marques à Lusa.

Já para Salvador Freire, líder da Mãos Livres, organização não-governamental de promoção dos direitos humanos, a nomeação de Cristina Dias Lourenço configura um ato de nepotismo. “Isto configura-se como nepotismo, não pode de forma nenhuma a filha do Presidente da República ocupar a responsabilidade que hoje ocupa. Nepotismo é tráfico de influência, isso faz com que venha beliscando a boa governação, a transparência”, afirmou à Lusa.

Rafael Marques entende que o cargo de Cristina Dias Lourenço “não trará mais-valia à Bodiva ou à carreira da filha do Presidente da República angolano”. O ideal seria ela “demitir-se do cargo para salvaguardar a imagem do pai”, João Lourenço, defendeu.

Muitos associam esta nomeação às práticas do anterior Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, que nomeou filhos, como Isabel dos Santos e José Filomeno “Zenu” dos Santos, - condenado na semana passada a cinco anos de prisão - para cargos públicos.

A antiga deputada do MPLA, Tchizé dos Santos, também filha de José Eduardo dos Santos, criticou a nomeação de Cristina Dias Lourenço para a Bodiva. “O actual Presidente da República, em reunião do próprio Comité Central [do MPLA] criticou o seu antecessor dizendo que nomeiam filhos sem experiência para cargos do fundo soberano, mas agora a sua filha que nem cinco anos de licenciada têm e já foi de pára-quedas como directora nacional das finanças sem concurso público, e agora é nomeada como administradora da Bodiva”, disse Tchizé dos Santos, citada pelo Club-K.

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