CARTAS DE MÃE E FILHA EM TEMPOS DE QUARENTENA

Dia 95: por que não sabem os homens ir ao supermercado?

Uma mãe/avó e uma filha/mãe falam de educação. De birras e mal-entendidos, de raivas e perplexidades, mas também dos momentos bons. Para avós e mães, e não só.

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@DESIGNER.SANDRAF

Mãe,

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Porquê, mas por que não sabem os homens ir ao supermercado?

Deixa-me por uns minutos esquecer os avanços registados na divisão das tarefas domésticas, que são alguns, eu sei, e estar-me nas tintas para o perigo das generalizações? Posso limitar-me a desabafar e a dar voz à queixa que oiço a tantas mulheres? Vou presumir que disse que sim a ambas, e vou-lhe contar o que vemos quando olhamos para dentro do saco das compras que nos trazem:

a) As frutas e os legumes vêm embaladas — porque não tiveram paciência de escolher, pôr num saquinho e pesar, apesar de muito mais caras e de estarem verdes;
b) Deixaram-se levar que nem uns patinhos e trouxeram os produtos de todas as marcas que vêem nos anúncios, independentemente de precisarmos deles;
c) Esqueceram-se de 40% das coisas da lista que tão cuidadosamente lhes demos;
d) Trouxeram quantidades ridiculamente grandes ou pequenas de tudo o resto;
e) Demoraram o mesmo tempo a comprar “umas coisinhas”, do que nós demoramos a fazer as compras do mês;
f) Tentam distrair-nos com a história de que encontraram “uma antiga colega nossa que estava grávida, mas estava com um outro homem que não o marido”, mas depois não são capazes de nos dizer nem quem era a colega, nem se o bebé era do ex ou já deste, o que aconteceu ao casamento, de quantas semanas está à espera, qual a data prevista para o parto, ou sequer com o é que se vai chamar a criança!
g) Nem sombra do pacote das fraldas, a única coisa que era fundamental.

Ups. Acabei de me lembrar que estou a escrever à pessoa errada. A mãe, que odeia ir ao supermercado, vai destruir a minha teoria de que isto é uma coisa de “homens”. Mas pronto, se calhar percebe o que se passa na cabeça deles. E pelo menos em relação ao ponto f) tenho a certeza de que se solidariza com o meu desespero, não dormi a pensar em quem será?!


Querida Ana,

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Tens toda a razão, acho inacreditável que um homem apareça em casa com uma “notícia” dessas, sem nomes, sem detalhes, sem nada — colega, mas colega de onde? — deixando-nos a remoer a cabeça sobre quem será e o que lhe terá acontecido. É que se me dissesses que um homem confrontado com uma telenovela dessas, largava a lista das compras era muito mais interessante tirar nabos da púcara do que encher o carrinho de detergentes e hortaliças, eu compreendia perfeitamente.

Aliás, compreendia todos os pretextos para fugir à tarefa. Detesto passear nos corredores de alimentos dos supermercados, com as prateleiras cheias de produtos iguaizinhos, numa redundância que me aflige e me parece absurda, odeio as arcas frigoríficas atulhadas de congelados de tudo e mais alguma coisa, e abomino procurar o saco de plástico (arranho-me sempre a separá-los naquelas máquinas), perscrutar a fruta para tentar adivinhar se está madura ou não está, nunca sei, e por fim pesá-la, etc., etc., e se queres saber parece-me um sinal de inteligência pegar na que já está embalada e etiquetada e pirar-me dali. Ou achas que eles só as embalam para os homens?

Idem aspas com os produtos anunciados na televisão — devíamos ficar gratos por alguém os escolher por nós, e devemos expressar o nosso reconhecimento por financiarem a sobrevivência dos meios de comunicação social — que importa se depois não nos dão os anos de vida que prometem, nem o iogurte sabe a uma “explosão de morangos” como afirmam, se cortarem para metade as horas de permanência naquela catedral do consumo inútil? Pior ainda, tudo aquilo tem de ser depois preparado, cozinhado e salteado, já estou a hiperventilar. Filha, não vês, os homens só estão a poupar horas na cozinha às mulheres!

Como vês a explicação para este desinteresse não se prende com os hemisférios cerebrais, nem com o XY ou XX da célula que nos deu origem, mas pura e simplesmente com o facto de comprar comida que desaparece em dois tempos ser uma tarefa basicamente desinteressante. Não é muito mais interessante gastar o tempo e o dinheiro no corredor dos parafusos ou dos produtos para a limpeza do carro?

Bem, imagino que por esta altura já estás a bracejar de fúria. Imagino que protestas qualquer coisa como, “mas se ele não faz, tenho de ser eu a fazer”. Pois. É verdade. E percebo que seja muito irritante. Mas, de facto, escreveste à pessoa errada.

Enfim, estou a arranjar lenha para me queimar, mas suponho que se as mulheres fizessem uma greve de braços caídos e não houvesse jantar na mesa, e as crianças se pendurassem nas calças deles a choramingar de fome, e se sem fralda fosse preciso mudá-las de roupa 20 vezes, talvez os homens (e as mulheres como eu!) aprendessem.

Entretanto, deixa-lhe as crianças e vai tu respirar um bocadinho de paz e sossego para o hipermercado. Talvez ainda lá encontres a tal colega e descubras o enredo da telenovela, que agora também eu estou cheia de curiosidade.

Beijinhos


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram

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