“Terra de Sonhos”. Uma viagem inesquecível

Cristina García Rodero, conceituada fotógrafa espanhola, volta a atravessar fronteiras e faz uma viagem pelas comunidades rurais da Índia. Homenageia as suas mulheres numa exposição prestes a chegar a Cascais.

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Retrato de Shirvani Cristina García Rodero
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Cristina García Rodero

Shirvani é uma menina de olhar assustado. Está de vestido amarelo e carrega um saco de arroz para oferecer à família do seu noivo. O alimento é a promessa de que naquela união não faltará comida. É o seu dia de casamento e ela posa para Cristina García Rodero, 70 anos, uma das mais conceituadas fotógrafas de Espanha, conhecida por cruzar fronteiras e ampliar a visão sobre o mundo.

Foi o retrato de Shirvani o escolhido para representar “Terra de Sonhos”, uma exposição assinada pela multipremiada fotógrafa, organizada pela Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI, a Fundação Vicente Ferrer e a Câmara Municipal de Cascais, no âmbito do programa “Arte na rua” da Fundação “la Caixa”. Este programa tem como objectivo aproximar as pessoas da arte, fora do contexto habitual dos museus e das salas de exposições. A exposição estará patente, entre 10 e 30 de Setembro, no Passeio Dom Luís I, em Cascais.

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PÚBLICO - Retrato de Shirvani
Retrato de Shirvani Cristina García Rodero
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Através de um conjunto de 40 imagens, a fotógrafa, licenciada em Belas Artes pela Universidade Complutense de Madrid, e a primeira espanhola a ser admitida na prestigiada agência de fotojornalismo - Magnum, foca a sua arte na representação das mais distantes e escondidas realidades, partindo em mais uma viagem. Neste caso, através da sua lente, dá voz às comunidades rurais da complexa e fragmentada Índia, mais concretamente, às mulheres de Anantapur, no estado de Andhra Pradesh, um dos mais pobres deste país.

As mulheres pela lente de Cristina García Rodero

“Terra de Sonhos” é mais uma prova da paixão de Rodero pela vida e pelas pessoas, sentimento transversal a todos os projectos aos quais se tem dedicado. Foi assim com o trabalho que a lançou quando, enquanto estudante, investigou as celebrações populares, tradições religiosas e pagãs em Espanha. Foi assim com o trabalho que desenvolveu na Geórgia e Arménia, em que retratou as consequências dos conflitos armados. Foi também assim com o ensaio em que mostrou as duras repercussões que o bloqueio comercial criou  no quotidiano da população de Cuba.​

Aqui o sentimento é o mesmo, mas estreita-se o ângulo: na sua nova exposição, Cristina García Rodero comunica no feminino, colocando a tónica no papel das mulheres que constituem estas comunidades rurais indianas, como verdadeiros símbolos de força, superação e transformação.

A exposição é produzida pela Fundação “la Caixa” e foi realizada junto da Fundação Vicente Ferrer, uma Organização Não Governamental, presente em 3.260 municípios da Índia e que dá apoio a três milhões de pessoas, cujas acções a fotógrafa acompanhou ao longo de um mês e meio.

A oportunidade permitiu-lhe observar e retratar a realidade e os desafios que poucos conhecem. Por exemplo: Cristina García Rodero entrou clandestinamente em sete casamentos, presenciando, assim, uma das cerimónias mais importantes na vida de uma mulher indiana. É um evento que dita o seu futuro, não fosse o momento em que, quase sempre, conhecem o futuro marido.

A fotógrafa viu mais: visitou os hospitais da Fundação Vicente Ferrer e presenciou a alegria de um mulher que dá à luz um menino e a desilusão de outra que vê nascer uma menina — sinal de que, no futuro, será necessário pagar um dote ao seu futuro marido. É também por este motivo, explicaram-lhe que, quando engravidam, as mulheres não podem saber o sexo da criança, sob o risco de ser uma bebé e, assim, quererem interromper a gravidez.

Apesar de apenas 40 imagens constituírem a exposição “Terra de Sonhos” apresentanda no âmbito do programa "Arte na rua”, Cristina García Rodero terminou esta viagem com um total de 67 mil imagens. A selecção para a exposição teve dois critérios: por um lado, o valor artístico da imagem, por outro, a história de cada uma das protagonistas.

É por isso que o resultado é quase sempre paradoxal: as cores fortes, garridas e alegres coexistem e contrastam com o olhar das mulheres fotografadas. Olhares vulneráveis, como o de Nandini, uma menina albina que estuda na Escola Primária com Deficiências Visuais de Bukaraya Samudrum da Fundação Vicente Ferrer, de Kavitha. Olhares carregados como o da jovem Shirvani, carregando um saco de arroz, prestes a casar. Ou olhares doces, como o de uma cuidadora que pratica exercícios de mobilidade com crianças num centro de paralisia cerebral.

Com fotografias que são arte, “Terra de Sonhos” faz uma viagem pela Índia e mostra a esperança nos rostos de quem não teve escolha. É uma homenagem à força das mulheres de Anantapur, e à infinita capacidade de superação de quem sofre, para testemunhar, a partir de 10 de Setembro, no Passeio Dom Luís I, em Cascais.

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