Moria: Natzy dormiu com os dois filhos ao relento, como milhares de refugiados

Governo insiste na abordagem securitária e envia para a ilha do Egeu mais dez unidades da polícia e guarda-costas privados. As últimas crianças sozinhas, de um total de 406, chegaram a Salónica na manhã desta quinta-feira.

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A maioria dos mais de 12 mil refugiados que viviam no campo dormiram à beira da estrada Reuters/ALKIS KONSTANTINIDIS

Com o pouco que tinha sobrado de pé a ser destruído por novos fogos, durante a noitedepois do grande incêndio da véspera, não resta nada do Campo de Moria, o gigantesco recinto de refugiados da ilha grega de Lesbos. Dos quase 13 mil requerentes de asilo que ali viviam, alguns puderam abrigar-se nas tendas que existem no exterior do campo, outros encontraram abrigo no centro de apoio de uma organização não governamental, mas a maioria passou mesmo a noite ao relento, em colinas, estradas ou parques de estacionamento.

“A nossa casa ardeu, os meus sapatos arderam, não temos comida, não temos água”, disse Valencia, uma menina congolesa de oito anos, descalça, a um jornalista da Reuters, enquanto lhe pedia uma bolacha. Ao lado, a mãe, de 30 anos, com um bebé recém-nascido ao colo, explicava que tinham dormido à beira da estrada. “Não há comida, não há leite para o bebé”, disse Natzy Malala.

Na quarta-feira ao fim do dia, o Governo grego anunciou planos para realojar temporariamente as pessoas que viviam no campo em tendas, num ferry e em dois navios que seriam enviados esta quinta-feira para a ilha. Algumas organizações não governamentais (ONG) distribuíram sacos-cama. Voluntários e habitantes organizaram-se, em conjunto com grupos de refugiados, para ajudar os mais vulneráveis, mas era impossível chegar a toda a gente.

Atenas, segundo o Ministério das Migrações, enviou tendas e estava tentar montá-las no exterior do campo, quando deflagraram os novos fogos.

“Ainda há um pequeno incêndio no campo e a maioria dos refugiados estão escondidos um pouco por todo o lado”, escrevia ao início da madrugada no Facebook Salam Aldeen, fundador e coordenador da ONG Team Humanity, que tem o seu centro a 150 metros do perímetro do campo. “Agora temos refugiados a dormir em paz na nossa casa, e depois de mais de 24 horas em dormir, só tenho uma última palavra para lhes desejar uma noite descansada.”

Os voluntários da Team Humanity passaram o dia de quarta-feira a receber pessoas e a tentar que os refugiados recebessem pelo menos as garrafas de água conseguiram comprar com dinheiro de várias organizações.

“Agora somos o único centro comunitário de Moria que não ardeu, e isso é muito triste”, lamentou Aldeem. “Todas as ONG que trabalharam duro e construíram espaços de refúgio perderam-nos. Não sabemos qual será o plano nem para onde irão 13 mil pessoas. Espero que todas acabem por sair, não só da ilha mas do país.”

Apesar dos desejos de Aldeem, o pouco que se sabe dos planos das autoridades não passa por retirar estes requerentes de asilo de Lesbos. Afinal, não mudaram as circunstâncias que transformaram um espaço previsto em 2015 como centro temporário, de passagem para quem chegava à Europa e com capacidade para 2750 pessoas, no maior campo de refugiados da Europa, símbolo de tudo o que falhou na política migratória dos últimos anos.

De Moria saíram apenas as 406 crianças que ali se encontravam sozinhas. Viajaram para a cidade de Salónica em três voos. O primeiro saiu da ilha na quarta-feira à noite, o último, com 85 menores, já na manhã desta quinta-feira.

Alemanha apela a outros Estados-membros

A Comissão Europeia ofereceu-se para ajudar na reinstalação destas crianças. O estado federado alemão da Renânia do Norte-Vestfália ofereceu-se para acolher mil refugiados dos mais de 12 mil que restam, mas isso deverá demorar pelo menos alguns dias.

Berlim fez um apelo, através do ministro dos Negócios Estrangeiros, Heiko Maas: “O que aconteceu em Moria é uma catástrofe humanitária. Temos de clarificar o mais depressa possível, com a Comissão Europeia e os outros Estados-membros [da UE], como é que podemos ajudar a Grécia.” “Isto também implica que outros países da União Europeia estejam disponíveis para receber migrantes”, sublinhou.

Mas sem que outros países ou Bruxelas pareçam decididos a contribuir para encontrar uma solução duradoura, como sempre esteve previsto, Atenas pretende aparentemente substituir o centro que ardeu por uma estrutura fechada, um edifício a erguer no lugar do antigo campo. As autoridades municipais discordam e dizem que os 85 mil habitantes vão interpretar essa construção como um sinal de que os requentes de asilo vão ali ficar de forma permanente. “Ainda não há uma decisão. Está no ar”, afirmou à Reuters Costas Moutzouris, governador da região do Egeu do Norte.

Um responsável do Governo, citado pelo jornal Kathimerini, diz que alojar as pessoas em barcos não é solução e passa a mensagem errada para os migrantes que querem naturalmente sair de Lesbos.

 Atenas continua entretanto a enviar reforços policiais para a ilha. Depois das três unidades da polícia antimotim que chegaram ainda na quarta-feira para impedir os refugiados de alcançarem a capital da ilha, Mitilini, foram enviados esta quinta-feira mais seis unidades desta força, quatro equipas de Prevenção e Supressão do Crime e uma equipa do serviço de segurança Attica (privado, que trabalha com o Governo). Ao todo, escreve o diário Kathimerini, estão agora 900 agentes na ilha, incluindo 240 guarda-costas privados.

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