Especialista em indígenas morto por tribo isolada

Rieli Franciscato foi atingido no peito quando tentava aproximar-se do povo indígena que tentava proteger. De acordo com uma associação que estuda esta tribo, o grupo não sabe distinguir os seus inimigos de quem os quer ajudar vindo de fora.

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Reuters/UESLEI MARCELINO

Um especialista brasileiro da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) foi morto na quarta-feira por indígenas, em Uru-eu-wau-wau, perto de Seringueiras, no estado de Rondónia. Rieli Franciscato, coordenador da Frente de Protecção Etno-ambiental desta área, foi atingido no peito por uma flecha disparada por um grupo que vive isolado.

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, Rieli Franciscato foi alertado por vários moradores para a presença de alguns membros da tribo numa zona rural do município de Seringueiras. Não foi a primeira aparição do grupo na região — já tinham sido identificados em Junho e, desde então, o investigador brasileiro de 56 anos estava encarregado de monitorizar estas incursões. Este grupo já é seguido desde a década de 1990, altura em que foi localizado e ganhou o nome de “isolados do Cautário”, em alusão ao rio que passa no estado, pela FUNAI.

Chegado ao local, o especialista, que somava mais de 30 anos dedicados à protecção e estudo das tribos isoladas, começou a entrar numa zona de mato, sendo nessa altura atingido no peito por uma das flechas disparadas pelos indígenas. Segundo o relato feito por um dos dois polícias que estava com o indigenista no momento, Rieli Franciscato soltou um grito, arrancou a flecha e ainda conseguiu correr “50, 60 metros”, mas acabou por colapsar no chão.

Numa nota publicada no site da FUNAI, a fundação lamenta “profundamente” a morte de Franciscato e manifesta “solidariedade aos familiares e colegas” do especialista.

“Rieli dedicou a vida à causa indígena. Com mais de três décadas de serviços prestados na área, deixa um imenso legado para a política de protecção desses povos”, diz o coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contacto da Funai, Ricardo Lopes Dias, citado no comunicado.

Segundo a organização não-governamental Kanindé, que Rieli Franciscato ajudou a fundar, esta tribo indígena não sabe distinguir os seus inimigos de quem os quer ajudar vindo de fora.

A morte de Rieli acontece numa altura em que as comunidades indígenas vivem ameaçadas pela violência e exploração florestal que têm sido incentivadas pelo Governo liderado por Jair Bolsonaro. A covid-19 também tem causado extrema preocupação no seio das populações de índios, num Brasil que é dos países mais afectados pela pandemia, contabilizando quase de 3,5 milhões de casos e 130 mil mortes.

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