Ex-presidente da Agência Espacial Portuguesa aponta falta de “massa crítica” à indústria nacional

A engenheira aeronáutica italo-alemã esteve cerca de ano e meio na liderança da Agência Espacial Portuguesa e regressa agora à Agência Espacial Europeia, onde vai dirigir, na Holanda, o Departamento de Políticas e Programas.

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Chiara Manfletti Daniel Rocha

A ex-presidente da Agência Espacial Portuguesa considera que Portugal é reconhecido como local para desenvolver projectos no sector do espaço, com empresas estrangeiras a quererem instalar-se no país, mas apontou à indústria nacional falta de “massa crítica”.

Chiara Manfletti – que cessou funções como presidente da Agência Espacial Portuguesa esta segunda-feira, um pouco “mais cedo” do que previsto, por “razões pessoais” – fez, em entrevista à agência Lusa, um balanço do seu mandato, que terminaria no fim de 2020, mas que classificou como “óptimo”.

Quando há cerca de dez dias foi anunciada a sua saída, Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, afirmou ao PÚBLICO que Chiara Manfletti tinha sido destacada para Portugal apenas por cerca de dois anos pela Agência Espacial Europeia (ESA) e a agência a “convidou para ela acelerar o seu regresso”.

A engenheira aeronáutica italo-alemã, que esteve cerca de ano e meio na liderança da Agência Espacial Portuguesa, regressa esta terça-feira à Agência Espacial Europeia (ESA), onde vai dirigir, na Holanda, o Departamento de Políticas e Programas, que tem a incumbência de definir as políticas e os programas futuros para o espaço na Europa.

Chiara Manfletti, que foi consultora do director-geral da ESA, considera que o sector do espaço em Portugal “é vibrante” e está a crescer, com o país a ser reconhecido no exterior como um local para desenvolver projectos. A ex-presidente da Agência Espacial Portuguesa disse, sem nomear, que há “muitas empresas” estrangeiras que “querem vir para Portugal” e estabelecer “parcerias com empresas portuguesas”.

Segundo a engenheira aeronáutica, Portugal está, por isso, em melhores condições para competir com outros países europeus, mas, acima de tudo, para colaborar e ser um “parceiro de confiança”. O facto de Portugal ter uma agência espacial, co-presidir ao Conselho Ministerial da ESA, órgão governativo, ter uma agenda política para o espaço e de assumir em Janeiro de 2021 a presidência do Conselho da União Europeia torna o país “um parceiro sólido e reconhecido por outros países”.

Para Chiara Manfletti, o que está a faltar ao país, para que possa estar entre os melhores no sector do espaço, é a “massa crítica na indústria” nacional. A presidente cessante entende que o envolvimento das empresas portuguesas em projectos de fôlego com raiz em Portugal, como a construção de uma constelação de microssatélites para observação da Terra, permitirá capacitá-las e torná-las fornecedoras de serviços ou, mesmo, líderes em segmentos de negócio.

Justificando a importância do investimento no sector, Manfletti assinalou que o espaço “fornece soluções para outros sectores” da economia, como transportes e energia, “beneficiando o país como um todo” e potenciando novos empregos. Portugal fixou como meta para o sector espacial, em 2030, a criação de mil postos de trabalho e uma facturação anual de 400 a 500 milhões de euros nas empresas.

Os Açores e as medalhas

A antiga líder da Agência Espacial Portuguesa defende que o país, apesar de não ter um programa de exploração do espaço, “em parte” devido à falta de recursos financeiros, “tem sido inteligente” ao participar em missões científicas europeias com esse fim, nomeadamente nos domínios da física solar, dos planetas extrassolares (exoplanetas) e do clima espacial.

Chiara Manfletti considera ainda que Portugal “pode ser activo” na produção, por exemplo, de novos materiais, testados em ambiente de microgravidade. O arquipélago dos Açores, para onde está prevista a construção de uma base espacial para lançamento de pequenos satélites, na ilha de Santa Maria, é apontado pela ESA como uma das localizações adequadas para a aterragem do Space Rider, um veículo reutilizável de transporte de carga que permite fazer experiências na órbita terrestre baixa durante dois meses, como testar tecnologias de observação da Terra, de exploração robótica e telecomunicações.

Manfletti acalenta, neste contexto, um sonho para Portugal: que os Açores possam promover voos suborbitais e serem uma região de turismo espacial. Quanto a haver astronautas portugueses, responde, questionando: “Porque não?” “Na verdade, é muito simples. Há concursos europeus. Se muitos portugueses se candidatarem, as hipóteses de serem seleccionados aumentam”, sublinha.

Chiara Manfletti foi condecorada na quinta-feira pelo Governo com a Medalha da Defesa Nacional de 1.ª classe pela “forma exemplar” como desempenhou as suas funções na Agência Espacial Portuguesa, uma distinção que a deixou “profundamente honrada”. Também já o ministro da Ciência lhe tinha atribuído uma medalha de mérito científico do ministério da Ciência, que costuma ser atribuída a portugueses ou estrangeiros que têm feito contribuições importantes para a ciência e tecnologia de Portugal.

Uma das missões da Agência Espacial Portuguesa, constituída em Março de 2019, visa promover novas actividades e negócios no sector espacial, em particular na observação da Terra com pequenos satélites, e facilitar uma maior participação do país nos programas europeus, da ESA e da União Europeia. Sobre a sua estada em Portugal, a engenheira aeronáutica, com dupla nacionalidade italiana e alemã, resumiu-a como “uma aventura maravilhosa”.

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