J. K. Rowling é acusada de voltar a apontar o dedo às pessoas transgénero. Será mesmo assim?

Na passada terça-feira foi lançado mais um livro da famosa autora da saga Harry Potter. Uma crítica publicada pelo The Telegraph no domingo antes revelava que Rowling apontava uma vez mais o dedo às pessoas transgénero. Agora, outros críticos dizem que esta visão não está certa.

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J.K. Rowling TOBY MELVILLE

Troubled Blood, escrito por J. K Rowling sob o pseudónimo Robert Galbraith, é o quinto volume da saga Cormoran Strike, uma série de crimes investigados pelo detective que dá nome aos livros. No jornal britânico The Telegraph, o crítico Jake Kerridge escreveu que a moral da história é “nunca confiar num homem com um vestido”. Segundo Kerridge, a linha condutora desta nova narrativa é o desaparecimento de uma mulher, que se crê ser vítima de um travesti assassino em série.

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Troubled Blood, o quinto livro da saga Cormoran Strike, da autoria de J. K. Rowling sob o pseudónimo Robert Galbraith Reuters/CARL RECINE

Contudo, novas críticas publicadas no The Guardian e no The Spectator pintam um cenário bastante diferente. Alison Flood, do primeiro órgão, refere que a personagem em questão, Dennis Creed, é apenas secundária, sem grande relevância na história geral. Depois, o ponto fulcral: nunca é mencionado que Creed se veste de mulher, apenas que utiliza uma peruca e um casaco feminino para atrair as suas vítimas, fazendo-as pensar que não lhes fará mal.

De acordo com a descrição do livro, citada pelo The Guardian, Creed “é um génio da ilusão na sua pequena carrinha branca e limpa, vestido com o casaco cor-de-rosa que tinha roubado à sua senhoria Vi Cooper, e que por vezes usa uma peruca que, à distância, para uma vítima alcoolizada, lhe concede, durante tempo suficiente, uma aparência feminina para que as suas grandes mãos se fechem sobre a boca ofegante”.

Para alguns, acrescenta Alison Flood, esta descrição pode parecer transfóbica dadas as visões de Rowling, altamente criticadas, sobre as pessoas transgénero. Da mesma forma, Nick Cohen, do The Spectator, escreve que a história de Troubled Blood não tem nada que ver com aquilo que Kerridge mencionou. “Nenhuma pessoa honesta que se dá ao trabalho de o ler vê o livro como sendo transfóbico.”

Cohen continua o artigo mencionando a onda de ódio que surgiu nas redes sociais depois da publicação da crítica no The Telegraph, apontando ele o dedo a quem ainda não tinha lido o livro, mas já expressava o seu desagrado perante a história e a autora. “Os homens e as mulheres que espalham o seu ódio a Rowling não poderiam ter lido o livro ainda por publicar: ainda que a ignorância não os incomodasse minimamente, afinal nunca na história uma turba enfurecida parou para ler um romance.”

Segundo a descrição de Cohen, “o livro de 900 páginas é ‘dickenseniano’ no seu espectro e na galeria de personagens”. O detective que dá nome à saga, Cormoran Strike, e a sua parceira, Robin Ellacott, são contratados por uma mulher para investigar o desaparecimento da sua mãe nos anos de 1970. Os investigadores da altura pensavam que teria sido Creed a matá-la, mas ninguém sabia a verdade e o corpo nunca foi encontrado.

Strike e Ellacott investigam Creed, assim como mais uma dúzia de outros suspeitos. “Tem de se procurar muito bem para se encontrar uma justificação para a crença de que a moral do livro parece ser ‘nunca confiar num homem com um vestido’”, escreve Cohen.

Porquê a avalanche de críticas a J. K. Rowling?

Em Junho, a escritora tinha recorrido ao Twitter para comentar um artigo cujo título referia “pessoas que menstruam”, respondendo que tinha a certeza que existia uma palavra para essa expressão, nomeadamente “mulheres”. As repercussões deste comentário não se fizeram esperar e inclusive membros do elenco das adaptações cinematográficas de Harry Potter expressaram o seu desagrado em relação às palavras de Rowling.

Após as duras críticas de que foi alvo, a autora escreveu e divulgou um ensaio onde relacionava ter sido vítima de agressão sexual com a sua preocupação com o acesso de pessoas transgénero a espaços exclusivos para mulheres.

“Estou a falar sobre estas coisas agora, não numa tentativa de conquistar simpatia, mas por solidariedade com o elevado número de mulheres que têm histórias como a minha, que foram criticadas por serem fanáticas ao preocuparem-se com os espaços para um só sexo”, escreveu.

As opiniões de J. K. Rowling sobre a comunidade transgénero levaram os seus fãs a afastarem-se e a demarcarem-se da escritora e a hostilidade dos internautas em relação ao novo livro fez-se sentir rapidamente, munindo-se da hashtag #RIPJKRowling (em português seria “descansa em paz J. K. Rowling”) para criticar a sua posição.

A escritora já vendeu mais de 500 milhões de exemplares só da saga Harry Potter e conta com diversos outros títulos na sua bibliografia.


Actualizada a 18/09/2020, às 11:06, com o contraponto das novas críticas ao livro Troubled Blood, de J. K. Rowling sob o pseudónimo Robert Galbraith.

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