“Campo da vergonha” de Moria será esvaziado até à Páscoa

Atenas muda de planos e promete retirar de Moria, em Lesbos os mais de 12 mil requerentes de asilo que estão na ilha, alguns há anos. Alemanha oferece-se para acolher 1553 pessoas.

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O campo temporário não oferece grandes condições às mil pessoas que já se transferiram LUSA/DIMITRIS TOSIDIS

Uma semana depois do grande incêndio que deixou em cinzas o maior campo de refugiados da Europa, o Campo de Moria, na ilha grega de Lesbos, o ministro da Protecção Civil do Governo de Atenas, Michalis Chrysochoidis, garantiu que todas as mais de 12 mil pessoas que ali viviam “vão sair”. “Antecipo que 6000 sejam transferidos para a Grécia continental até ao Natal e os restantes até à Páscoa. As pessoas desta ilha passaram muito. Foram muito pacientes.”

Em declarações exclusivas ao diário britânico The Guardian, durante uma visita à ilha, o ministro admitiu que o campo que ali se foi erguendo ao longo dos últimos cinco anos – pensado inicialmente como centro transitório para um máximo de 3000 pessoas –, um espaço insalubre, nunca devia ter existido. “Era um campo da vergonha”, disse. “Agora pertence à história. Vai ser limpo e substituído por um olival.”

Ao longo da semana passada vários responsáveis gregos, incluindo o primeiro-ministro, Kyriakos Mistotakis, tinham indicado que os requerentes de asilo (eram perto de 13 mil quando o campo ardeu, entretanto saíram 406 menores que se encontravam sozinhos) iriam continuar em Lesbos. A intenção seria construir um edifício para os abrigar no mesmo local, um objectivo que enfrenta forte oposição da população local, que chegou a impedir a passagem de viaturas que iriam limpar o campo e preparar a construção.

Os refugiados, que têm passado as noites ao relento e, organizaram manifestações diante das barricadas da polícia que os impede de se moverem livremente, com cartazes onde se lia “Não queremos comida, queremos liberdade” ou “Moria mata vidas”.

Iniciativa pan-europeia

Para além da oposição das autoridades e dos requerentes de Lesbos, por trás da mudança de planos estará a expectativa de que seja finalmente possível convencer outros países europeus a acolher algumas destas pessoas. Esta terça-feira, a coligação no poder na Alemanha chegou a acordo para receber 1553 pessoas de 408 famílias que já viram o seu estatuto de protecção temporária confirmado pelas autoridades, anunciou o porta-voz da chanceler Angela Merkel.

Na sexta-feira, a Alemanha já se oferecera para reinstalar 150 das 406 crianças sozinhas, que entretanto foram transferidas para Salónica – França, Holanda, Finlândia, Portugal, Suíça, Bélgica, Croácia, Eslovénia e Luxemburgo foram apontados como destino dos restantes. Portugal fez já saber que está preparado para receber 28 menores já em Setembro.

O problema mais grave seria sempre o do acolhimento dos outros requerentes de asilo, uns 12.300. Pressionada pela população civil, voluntários e pelo seu próprio partido (incluindo os dois candidatos à sua sucessão), a CDU (União Democrata Cristã), Merkel insistiu esta semana que qualquer transferência de migrantes para a Alemanha tem de ser feita no âmbito de uma iniciativa pan-europeia. Só o Luxemburgo se mostrou disponível a participar numa solução conjunta para crise de Moria.

“É um gesto muito generoso, muito corajoso”, disse o ministro Chrysochoidis ao Guardian, comentando as duas ofertas alemãs. “Por toda a Europa os países têm os seus próprios políticos internos sobre este tema, mas penso que eles [os Estados-membros] podem ver que estamos a proteger as fronteiras do bloco”, disse o responsável grego. “Diminuímos muito o fluxo de pessoas”, acrescentou Chrysochoidis, desmentido denúncias de organizações não-governamentais já confirmadas pelo Alto Comissariado da ONU para os Refugiados de que o seu Governo tem devolvido requerentes de asilo ao mar, esperando que sejam recolhidos pela guarda costeira turca.

Campo temporário

A verdade é que em relação aos que já estão em Lesbos, a esmagadora maioria verá com grande probabilidade reconhecido o estatuto de refugiado e poderá, por isso, mover-se para outros países da EU nos três meses seguintes à atribuição dos documentos. É o caso de cerca de 70% dos requerentes de asilo ali registados, oriundos do Afeganistão.

Para já, pede o ministro, o essencial é que os antigos ocupantes do campo destruído se mudem para um campo temporário perto da capital de Lesbos, Mitilini, onde podem completar os seus processos de requisição de asilo. Algo que todos evitam, denunciando o que julgam ser “um novo Moria, uma nova prisão” e temendo ali ficar indefinidamente. A oposição tem sido tanta que só mil pessoas já concordaram em entrar nestas instalações erguidas em tempo recorde pelo Exército.

O Governo já pediu ajuda às ONG e distribuiu avisos em diferentes línguas para tentar encorajar a recolocação. “Se isto não for possível através do diálogo terá de ser usada a polícia”, avisou em declarações à televisão Mega o ministro das Migrações, Notis Mitarachi. O governante admitiu pela primeira vez que nas novas instalações muitas famílias deverão passar o próximo Inverno em tendas.

A polícia deteve entretanto cinco migrantes suspeitos de terem ateado o fogo de dia 9 de Setembro. O Governo acusa os residentes de Moria de iniciaram o incêndio em protesto contra as medidas de isolamento impostas com a confirmação dos primeiros casos de covid-19 – sujeitos a apertadas regras de confinamento deste Março, os requerentes de asilo viram ser imposta uma quarentena no início deste mês.

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