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Jaguares queimados e tornados de fogo: as chamas nas zonas húmidas do Brasil lançam avisos sobre o clima

Até 6 de Setembro, quase 16% do Pantanal brasileiro ardeu. O maior pântano do mundo abriga cerca de 1200 espécies de animais vertebrados, incluindo 36 que estão ameaçadas de extinção.

Desde meados de Julho que as chamas consomem as terras húmidas da região centro-oeste do Brasil, deixando um rasto desolador de terra carbonizada que já é maior do que a cidade de Nova Iorque.

Uma equipa de veterinários, biólogos e guias locais chegou em finais de Agosto para percorrer a estrada de terra acidentada conhecida como auto-estrada trans-pantanal em camiões de recolha, com o objectivo de salvar todos os animais feridos que encontrassem.

Os jaguares vagueavam pela terra negra, conta a equipa, famintos ou com sede, com as patas queimadas até aos ossos e pulmões enegrecidos pelo fumo. Viram corpos de jacarés, maxilares congelados em gritos silenciosos, o último acto destas criaturas desesperadas por arrefecer antes de serem consumidas pelas chamas.

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Um jacaré morto numa zona que ardeu durante os incêndios no Pantanal, em Poconé, Mato Grosso REUTERS/Amanda Perobelli

Este fogo maciço faz parte dos milhares de incêndios que varrem o Pantanal brasileiro – o maior pântano do mundo – este ano. Os especialistas climáticos temem que se possa tornar um novo normal, ecoando o aumento dos incêndios provocados pelas alterações climáticas, da Califórnia à Austrália.

O Pantanal é mais pequeno e menos conhecido que o seu famoso primo, a selva amazónica. No entanto, as águas normalmente abundantes e a localização estratégica da região – entre a floresta tropical, as vastas pastagens do Brasil e as florestas secas do Paraguai – tornam-no um íman para os animais.

Os incêndios estão agora a ameaçar num dos ecossistemas com maior biodiversidade do planeta, dizem os biólogos. O Pantanal abriga cerca de 1200 espécies de animais vertebrados, incluindo 36 que estão ameaçadas. Através desta paisagem exuberante de 150 mil quilómetros quadrados no Brasil, as aves raras esvoaçam e a mais densa população mundial de jaguares vagueia.

O fogo não é novo aqui. Durante décadas, os criadores de gado utilizaram chamas para devolver os nutrientes ao solo a baixo custo e renovar os pastos para o seu gado bovino. Mas essas chamas, alimentadas pela seca, ardem agora com força histórica, correndo através da vegetação desidratada.

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Um jaguar esfrega-se na vegetação enquanto caminha através do fumo de um incêndio nas proximidades, no Parque Estadual do Encontro das Águas, no Pantanal em Poconé, estado de Mato Grosso REUTERS/Amanda Perobelli

Os maiores incêndios no Pantanal este ano têm o quádruplo do tamanho do maior incêndio na floresta amazónica do Brasil, mostram os satélites da NASA. Um número recorde de 23.490 quilómetros quadrados ardeu até 6 de Setembro – quase 16% do Pantanal brasileiro, de acordo com uma análise da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

No mês passado, a Reuters testemunhou um incêndio que passou da floresta para as pastagens perto da zona turística de Poconé, no estado brasileiro de Mato Grosso. O ar sugado pelo fogo fez com que um vento forte se transformasse num tornado de fumo. A temperatura subiu para 46,5 graus Celsius.

Dorvalino Conceição Camargo, um agricultor de 56 anos com um chapéu de palha comum entre os cowboys locais, ajudou a apagar as chamas. Suado do esforço, Camargo afirma nunca ter visto fogos tão maus. “Tudo está a sofrer”, diz.

As cheias nunca chegaram

O Pantanal é conhecido por ser húmido, não seco. A maior planície alagada do mundo enche-se normalmente com vários metros de água durante a estação chuvosa, entre Novembro e Abril de cada ano.

PÚBLICO - Dorvalino Conceição Camargo no rancho em que trabalha a olhar para o fumo dos incêndios no Pantanal, em Poconé, Mato Grosso
Dorvalino Conceição Camargo no rancho em que trabalha a olhar para o fumo dos incêndios no Pantanal, em Poconé, Mato Grosso REUTERS/Amanda Perobelli
PÚBLICO - Dorvalino Conceição Camargo a tentar chamas no rancho em que trabalha, no Pantanal, em Poconé, Mato Grosso
Dorvalino Conceição Camargo a tentar chamas no rancho em que trabalha, no Pantanal, em Poconé, Mato Grosso REUTERS/Amanda Perobelli
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Dorvalino Conceição Camargo REUTERS/Amanda Perobelli
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Camargo lembra-se de navegar nas águas quando era criança, a bordo de numa canoa. De volta à fazenda onde trabalha, mostrou a marca da altura da água que existe na quinta – 70 centímetros, contados a partir do solo – marcada num poste de um curral de gado. Mesmo num ano seco, o nível da água chega a metade disso, disse ele.

Este ano, as cheias nunca chegaram. Apenas um pouco de água reunida numa vala próxima, diz Camargo. Agora que a água evapora na estação seca, o rio Paraguai, que atravessa o Pantanal, recuou até ao seu ponto mais baixo desde 1973, segundo Julia Arieira, investigadora climática da Universidade Federal do Espírito Santo do Brasil.

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Vista aérea de uma casa rodeada por vegatação queimada, no Pantanal REUTERS/Amanda Perobelli

Os cientistas culpam o aquecimento do Oceano Atlântico, logo acima da linha do Equador, que está a retirar humidade da América do Sul e a enviará para Norte, provavelmente sob a forma de furacões mais fortes.

Doug Morton, cientista da NASA, diz que este fenómeno é causado por mudanças na temperatura do oceano conhecidas como a Oscilação Multidecadal do Atlântico – o equivalente do Oceano Atlântico ao El Niño no Pacífico. Ao contrário do El Niño, que acontece tipicamente a cada dois a sete anos, a oscilação alterna entre quente e frio aproximadamente a cada 30-40 anos.

Quando está quente, como tem estado desde os anos 90, o aquecimento no Atlântico Norte tropical contribui para secas e incêndios sul-americanos. A mudança da temperatura dos oceanos é “um provável condutor das condições secas que vimos até agora este ano no Pantanal”, segundo Morton, que lidera o laboratório de ciências biosféricas da NASA.

Morton diz que o “ponto quente” poderá também estar a contribuir para uma maior secura na parte sul da Amazónia, onde os incêndios atingiram provavelmente um pico de dez anos em Agosto; e nas zonas húmidas da Argentina, onde as chamas são as piores desde 2009.

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Vista aérea do fumo que paira sobre o rio Cuiaba, no Pantanal REUTERS/Amanda Perobelli

Mais preocupante ainda, Morton aponta que o aquecimento global pode perturbar a Oscilação e deixá-la permanentemente na fase quente, contribuindo para mais incêndios. Mesmo que isso não aconteça, os cientistas temem que o aumento da temperatura global, por si só, torne os grandes incêndios cada vez mais comuns.

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Bombeiros do estado de Mato Grosso reabastecem o camião com água em frente a um tornado de fumo no Pantanal REUTERS/Amanda Perobelli

A destruição da floresta tropical amazónica a Norte está a exacerbar a seca no Pantanal a longo prazo, diz Philip Fearnside, ecologista do Instituto Nacional de Investigação Amazónica do Brasil. Isto porque as árvores da selva reciclam a chuva e empurram a humidade de volta para o ar como vapor de água, que os ventos depois transportam para as regiões vizinhas nos chamados rios voadores.

A desflorestação amazónica aumentou 34,5% em 12 meses até Julho, em comparação com o mesmo período há um ano, de acordo com dados preliminares da agência governamental de investigação espacial INPE.

Sob o Presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, o Brasil também enfraqueceu a aplicação da legislação de protecção ambiental. O gabinete de imprensa de Bolsonaro encaminhou as perguntasda Reuters para o Ministério do Ambiente, que não respondeu ao pedido de comentários.

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O ministro do Ambiente, Ricardo Salles, visitou o Pantanal em Agosto, afirmando que as agências ambientais federais tinham enviado cinco aviões e trabalhadores adicionais para ajudar os mais de 100 bombeiros estaduais a combater as chamas. “Os incêndios estão a causar grandes danos à fauna, flora e à região do Pantanal”, disse Salles.

Animais mortos

Nenhum ser humano morreu nos incêndios do Pantanal, segundo o tenente-coronel Jean Oliveira, que tem liderado todas as agências governamentais na resposta aos incêndios. Por outro lado, os meios de comunicação locais relataram na quinta-feira uma morte no estado. A vida selvagem, no entanto, tem sido duramente atingida, disse Oliveira.

PÚBLICO - Uma vaca numa área de um rancho que ardeu durante os incêndios no Pantanal, em Poconé, Mato Grosso
Uma vaca numa área de um rancho que ardeu durante os incêndios no Pantanal, em Poconé, Mato Grosso REUTERS/Amanda Perobelli
PÚBLICO - Uma lontra gigante come um peixe enquanto nada no rio Cuiabá
Uma lontra gigante come um peixe enquanto nada no rio Cuiabá REUTERS/Amanda Perobelli
PÚBLICO - Uma veterinária e uma guia local inspeccionam uma cobra morta durante os incêndios no Pantanal
Uma veterinária e uma guia local inspeccionam uma cobra morta durante os incêndios no Pantanal REUTERS/Amanda Perobelli
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Embora não haja contagens exactas, acredita-se que milhares de animais tenham morrido, segundo o biólogo Rogério Rossi, da Universidade Federal de Mato Grosso. A equipa veterinária itinerante consegue salvar apenas uma pequena fracção dos animais feridos. Muitos destes animais são difíceis de apanhar, longe de estradas acessíveis.

O veterinário Jorge Salomão Jr. fez um inventário da carnificina. “Já vimos muitos animais mortos, principalmente répteis, serpentes, jacarés”, diz. “Vimos muitos veados mortos, antas mortas, macacos mortos, quatis mortos.”

Na área queimada de 1347 quilómetros quadrados perto da cidade de Poconé, as cobras mortas são vistas de poucos em poucos metros. A guia local Eduarda Fernandes, que está a trabalhar com a equipa de resgate, vagueou pela área, com os pés a afundarem-se na fuligem profunda.

Apanhou uma serpente petrificada no incêndio. Tinha mordido a sua própria carne, no que um biólogo diz ser provavelmente uma reacção involuntária ao procurar qualquer fuga da dor de ser queimada viva. Questionado sobre o que pensava ter acontecido, Fernandes respondeu: “Dor. Desespero.”

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