Opinião

Fumos de guerra em plena pandemia

A Europa não pode assistir impávida e serena à agressão de Erdogan no Mediterrâneo.

Em pleno ressurgimento da covid-19, com praticamente a totalidade dos Estados debatendo-se com recessões económicas de uma gravidade nunca vista desde a Grande Depressão dos anos 30; com os défices orçamentais a explodirem para níveis que, por certo, só poderão vir a ser pagos no futuro, em termos de valor real das dívidas públicas, por uma futura inflação muito expressiva; com afrontamentos dentro de certos países, com destaque para os Estados Unidos da América, de uma violência própria de pré-guerra civil; com preocupações de toda a ordem, sobretudo de caráter social mas também racial, exacerbadas pelo contexto de pauperização decorrente da covid-19; com crises bancárias a delinearem-se no horizonte, geradas pela insolvência e incapacidade de reembolso de créditos concedidos a milhares de empresas e particulares, o mundo parece ter esquecido os tradicionais conflitos e até duvidará que eles possam vir a eclodir.

Ora, é neste ambiente degradado e difícil que um tal Recep Tayyip Erdogan tem vindo a criar novos e perigosos focos de tensão na área do Mediterrâneo onde também se jogam interesses vitais da União Europeia.

Erdogan afirma sem pudor o propósito de revisitar a História com o objetivo de redesenhar a carta do Mediterrâneo. É um dirigente sem qualquer escrúpulo, que esmaga o seu próprio povo, sobretudo desde o alegado golpe de Estado que terá habilmente montado, a 15 de julho de 2016, que despreza sem pudor a grande tradição kemalista de uma Turquia livre e laica, que se acha numa deriva autoritária que o levou a aprisionar sem qualquer justificação jornalistas e políticos da oposição e a demitir dezenas de milhares de funcionários públicos. E, no meio de estranho silêncio da imprensa portuguesa, morreu na prisão, em condições degradantes e na sequência de uma longa greve de fome, a grande advogada turca Ebru Timtik.

Servindo-se de cerca de cinco milhões de emigrantes que mantém junto à fronteira com a Grécia como instrumento de chantagem sobre a Europa, Erdogan começou por intervir na Síria, protegendo os grupos islâmicos radicais que dominam a região de Idlib, e apropriou-se de uma outra zona importante junto da fronteira, depois de nela ter massacrado os curdos, verdadeiros heróis na luta contra o Daesh.

Prosseguiu com o envio do exército turco para a Líbia, agora em conúbio com o mais que duvidoso regime pró-islâmico de Tripoli que salvou de uma derrota iminente às mãos dos partidários do general Haftar e do governo de Tobruk.

Continuou com o descarado apoio ao Hamas, que constitui uma ameaça permanente à segurança de Israel.

Iniciou ações hostis contra a Grécia, iniciando prospeções de jazidas de gás natural no espaço económico grego (e cipriota), hostilizando embarcações de pesca helénicas e ameaçando a ilha grega de Castellorizo, situada perto da costa turca, rodeando-a de navios de guerra.

A reação da Grécia não tardou: enviou para a zona litigiosa fragatas e a totalidade da sua frota de doze submarinos.

Com a arrogância típica de um ditador populista, Erdogan não tem problemas em declarar, num grotesco desafio à Grécia e à União Europeia, que a Turquia fará prevalecer a sua belicosa posição porque não tem problemas “em sacrificar mártires”.

A ausência de uma força de reação europeia estruturada em aplicar sanções à Turquia torna o ditador islamo-fascista mais desafiante.

Um incidente entre duas fragatas, uma turca e outra grega, foi evitado no último momento, bem como um combate aéreo, em grande parte porque, até aqui, o governo grego deu instruções de máxima contenção às suas forças armadas e também porque a França, único país que, com a Itália, enviou forças para a área, fez na altura interpor os seus aviões Rafale.

O estado de alerta na região é permanente e a qualquer momento pode acontecer um incidente que leve a uma guerra à qual a União Europeia não poderá assistir impávida e serena, vendo dois dos seus Estados-membros (Grécia e Chipre) serem agredidos pela Turquia, num claro desrespeito do direito internacional público aplicável.

A intervenção das grandes potências pode ainda levar a Turquia a sustar a ameaça de uma guerra de agressão e aceitar submeter a questão ao Tribunal Internacional de Justiça. Mas a crise global da covid-19 não pode fazer esquecer esta ameaça gravíssima.

Trata-se de um barril de pólvora que, se rebentar, envolverá países tão diversos como o Egipto, Israel, os Emirados Árabes Unidos e, obviamente, os Estados-membros da União Europeia, que enfrentaria um (novo e decisivo) momento para a sua sobrevivência.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

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