Aadesh Choudhari/Unsplash
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Megafone

A dura realidade do assédio

Por vezes não é preciso dizer nada, há olhares e olhares, e nós sabemos descodificá-los. Há o olhar fugaz que não condenamos (não é necessário ser-se extremista) e há o olhar que incomoda, que amedronta, o olhar mal-intencionado.

Há olhares e olhares, elogios e elogios. Necessitamos de parar de normalizar o assédio e para isso é preciso compreendê-lo. É preciso quebrar o tabu e as concepções enraizadas.

Não, hoje não venho falar-vos da jovem modelo Sara Sequeira, que apresentou queixa recentemente por ser alvo de assédio sexual por parte de um funcionário da CP. É de louvar a sua coragem: o facto é que, para muitas, ser modelo é o suficiente para ser contemplada com comentários deploráveis e estes, porventura, poderão ser vistos como “normais”, tal a exposição a que a profissão está sujeita.

Contrariamente ao que se pensa, é preciso bem menos para as vítimas. De calças ou de vestido, modelos ou não modelos, todas as mulheres já passaram por situações desconfortáveis em algum momento da sua vida. Estamos perante um sério problema, em que se objectifica a mulher e se naturaliza o machismo — na sua generalidade, claro, porque sabemos que, muitas das vezes, as mulheres são as suas maiores inimigas.

O tempo parou no que toca à igualdade de género; nós, mulheres, continuamos a ter o nosso valor, a sermos independentes, por isso não temos a necessidade de estar “a pedi-las”. Quem profere estas palavras tem sempre a oportunidade de as ouvir duas vezes: quando as pensa e quando as diz (se é que as pensa). Ainda assim, não se apercebe da arrogância e da falta de classe que carregam. Continuo a não compreender o objectivo destas péssimas abordagens, pois este tipo de homens não é, de todo, o que nos agrada, e está longe de o ser. Pensemos então: estes gentlemen têm uma família, por certo; o que aconteceria se a situação se invertesse e as vítimas fossem, por exemplo, as suas filhas? Será que desencadeava uma reacção de revolta, um comportamento agressivo para com os ditos cujos ou uma chamada de atenção às mesmas, culpabilizando-as?

Não nos achamos “santas”, o tal elogio irónico quando há discórdia do que é dito, somos seres autodisciplinados que sabem como e quando elogiar um homem que nos chama a atenção. Temos os nossos defeitos. Contudo, e não obstante, isso não valida qualquer crítica depreciativa ou invasão ao nosso espaço. Por vezes não é preciso dizer nada, há olhares e olhares, e nós sabemos descodificá-los. Há o olhar fugaz que não condenamos (não é necessário ser-se extremista) e há o olhar que incomoda, que amedronta, o olhar mal-intencionado.

Para se ter noção, antes de sairmos de casa, questionamo-nos acerca daquela peça mais ousada, que nos faz sentir bonitas, mas que temos medo de usar. Andarmos à noite sozinhas é impensável e passar por um grupo de homens é de evitar. Estes são alguns exemplos do quão difícil é ser mulher em pleno século XXI.

Foi em 2015 que a importunação sexual passou a ser crime, agregando os piropos, o contacto físico não desejado e os actos exibicionistas. A verdade é que as autoridades competentes se encontram muito pouco informadas para intervir nestes contextos e a maioria dos casos acaba em arquivamento, não sendo aplicadas as merecidas sanções. Não é só o medo que nos leva a não apresentar queixa: é também, e principalmente, a nossa justiça.

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