“Chuck” Feeney, o filantropo que pendurou os cheques 6,7 mil milhões de euros depois

Ao longo dos últimos 40 anos, Charles “Chuck” Feeney doou quase toda a sua fortuna. Agora com 89 anos, o co-fundador das populares lojas Duty Free Shoppers nos aeroportos, defensor de que se deve doar enquanto se está vivo, guardou menos de dois milhões para o final da vida.

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Charles “Chuck” Feeney Atlantic Philanthropies

O nome Charles “Chuck” Feeney pode não fazer soar muitas campainhas. Hoje com 89 anos, o americano com dupla nacionalidade irlandesa foi co-fundador, em 1960, das Duty Free Shoppers, lojas que se encontram espalhadas pelos aeroportos de todo o mundo. O conceito floresceu e rendeu-lhe uma fortuna de milhares de milhões de euros ao longo dos últimos anos, mas o seu objectivo de vida nunca foi manter o dinheiro na sua conta.

O empresário é, em termos de filantropia, o modelo assumido de outros multimilionários como Bill Gates, da Microsoft e do investidor Warren BuffetAo longo dos últimos 40 anos, Feeney doou cerca de oito mil milhões de dólares (cerca de 6,7 mil milhões de euros) às mais variadas causas. A corrente de dinheiro fechou-se nesta segunda-feira, 14 de Setembro, com o encerrar da Atlantic Philantropies, a fundação que criou com o objetivo de encontrar e financiar projectos.

Foi também pioneiro com o conceito de Giving While Living, ou seja, doar durante enquanto se está vivo, apoiando projectos e associações ao invés de financiar uma fundação criada em sua memória depois de morrer. “Eu não vejo grandes razões em adiar doar quando há tanto de bom que pode ser concredizado através do apoio de causas que valem a pena. Para além de que é muito mais divertido dar enquanto se está vivo do que quando se está morto”, disse à Forbes.

Numa entrevista à mesma publicação, mas em 2012, Feeney revelou ter posto de parte dois milhões de dólares (cerca de 1,7 milhões de euros), o suficiente para ele e a mulher viverem o resto dos seus dias quando se reformassem. Dito de outra forma, ao longo da vida o empresário ofereceu 375.000% mais dinheiro do que o que reservou para si. 

Segundo Steven Bertoni, o jornalista e editor da Forbes que tem acompanhado o percurso filantropo de Feeney, o empresário que fez fortuna a vender bens de luxo a turistas nos aeroportos vive hoje com a mulher num apartamento em São Francisco, EUA “com a austeridade de um quarto de um dormitório universitário”.

O encerramento da fundação não surge do nada. Para manter-se no caminho certo, “Chuck” Feeney mantinha um plano detalhado dos objectivos e prazos relativamente aos investimentos, de forma a garantir que, em 2020, o trabalho estava concluído.

Em que foram investidos os oito mil milhões de dólares?  Quase metade foi para a educação, não só nos Estados Unidos, mas também além fronteiras. Outros 870 milhões foram dedicados a fundações de cariz social e de direitos humanos e mais 700 milhões foram investidos nos cuidados de saúde, incluindo 176 milhões para o sistema de saúde pública no Vietname.

Doar em segredo

E fê-lo anonimamente. Se por um lado há figuras que aproveitam o mediatismo das suas doações, Feeney tentou não associar o seu nome às quantias que oferecia, chegando a ser chamado de “James Bond da Filantropia” pela Forbes.

De facto, a generosidade de Feeney influenciou o lançamento da iniciativa Giving Pledge de Bill Gates e Warren Buffet. O plano é convencer os mais ricos a doar pelo menos metade da sua fortuna enquanto estão vivos, e dezenas de milionários já aceitaram.

Por um lado, o investidor Buffet considera Feeney “um modelo” e um “bom herói para se ter”, enquanto Bill Gates fez questão de enviar uma mensagem durante a videochamada que marcou o fim da Atlantic Phillantropies. Também Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, enviou uma carta formal a agradecer a Feeney pelo seu trabalho.

“Aprendemos muito. Faríamos algumas coisas diferentes, mas estou bastante satisfeito. Sinto-me muito bem em completar esta ideia enquanto estou vivo”, disse à Forbes. “Agradeço a todos os que se juntaram a nós nesta jornada. A todo aqueles que estão a considerar a ideia Giving While Living: Tentem e vão ver que gostam”.

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