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Megafone

Medicina: “Não se brinca com coisas sérias”

Estarei eu a vender o humor como terapia mística? Será a comédia mais um mantra do “vai ficar tudo bem”? Infelizmente, sorrir perante uma situação difícil não resolve o problema por magia. Mas pode ajudar a aliviar o sofrimento.

Assim que entrei para a universidade, percebi que o local não era para brincadeiras. Lembro-me de pensar: “Mas como é que eu vou saber isto tudo?” E se é verdade que a vida académica é mais do que estudo, arrisco afirmar que mesmo o estudante de Medicina mais boémio concordará comigo: há um tom de seriedade que começa nas aulas teóricas, segue pelas aulas práticas e tem a pedra de toque no contacto clínico.

Estar na enfermaria, serviço de urgência e consultório obedece a regras concretas. O que vestimos, as perguntas que formulamos e os nossos gestos são ferramentas afinadas com rigor. Tal não é sinónimo de comportamento uniforme e robotizado. Ainda assim, há uma margem estreita para a criatividade.

Neste âmbito, durante o meu percurso pré-graduado, tive mestres que influenciaram positivamente sem debitarem matéria através de slides ou afins. É que, como escreveu o Professor Doutor João Lobo Antunes, há muito “currículo escondido” e não formal que nos forja. Nem sempre percebi, no imediato, o alcance dos ensinamentos.

Um desses exemplos é um cartoon que um médico de família tinha pendurado numa das paredes do seu gabinete. O desenho era o seguinte: um médico e um doente estavam sentados frente a frente. Ambos tinham máscaras de teatro colocadas. O médico triste tinha uma máscara sorridente. O doente sorridente usava uma máscara triste.

Essa imagem só fez sentido para mim anos mais tarde, já como especialista em medicina geral e familiar. Durante as consultas percebi a expectativa social e cultural que nos obriga a vestir a roupagem de outra pessoa, que algumas vezes é apenas uma sombra mal definida do que realmente somos.

O fado dramático, o lócus externo que nos amaldiçoa e a nostalgia são comuns a muitos portugueses. Será que não existem percursos de vida crus e doenças que justificam a melancolia? Obviamente que sim.

Como os bons comediantes sabem, para uma piada resultar é preciso conhecer o público e acertar no momento. Tal também é válido no consultório. Há pessoas e circunstâncias em que o silêncio e a interacção mais cerimonial são opções mais sensatas. Não obstante, o sentido de humor pode ser aquilo que nos une e nos eleva do cinzento diário. Quando eu e o doente rimos em conjunto reforçamos a relação terapêutica. Saber distinguir as situações carece de experiência e sensibilidade: a intitulada “arte” da Medicina.

Estarei eu a vender o humor como terapia mística? Será a comédia mais um mantra do “vai ficar tudo bem”? Infelizmente, sorrir perante uma situação difícil não resolve o problema por magia. Mas pode ajudar a aliviar o sofrimento.

Como nota final, partilho o que fui aprendendo com os doentes mais idosos. Sempre que posso pergunto aos octogenários e nonagenários robustos que vêm ao meu encontro — pelo seu próprio pé e com pouca paciência para esperar — como é o seu dia-a-dia. Tento desta forma discernir o “segredo” para a saúde “de ferro”. Todos têm um percurso de vida único e singular. Ainda assim, há pontos em comum. A maioria tem sempre planos desenhados e vontade de os concretizar que os arranca do sofá. Outra característica muito frequente é a boa disposição e o sentido de humor perante a política, a sociedade, as suas doenças e fragilidade. Será este o “elixir da juventude”? A fórmula para todos (leitor incluído)? Não sei. O que me parece é que o humor tem mais sentido se servir para nos rirmos de nós próprios.

É que, ao contrário do que desde tenra idade repetidamente nos dizem, podemos e devemos brincar com coisas sérias.

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