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As ilhas de São Jorge (em cima), do Pico (ao centro) e do Faial (à esquerda), a mais recente dos Açores; Imagem: ESA

Ilhas que apareceram e desapareceram nos Açores

O arquipélago dos Açores é muito mais do que as nove ilhas que tão bem conhecemos hoje. A Sabrina e o banco D. João de Castro, por exemplo, foram duas ilhas que apareceram e desapareceram num período de meses. O banco D. João de Castro pode mesmo vir a constituir a décima ilha dos Açores num futuro geológico próximo.

Percorramos a história geológica do arquipélago dos Açores. Esconde muito mais do que aquilo que, à partida, poderíamos pensar que conhecíamos. Fazia ideia de que sete das ilhas do arquipélago se afundam e que, pelo contrário, as ilhas das Flores e de Santa Maria sofreram, já após a formação, processos de elevação? E que duas ilhas açorianas existiram apenas por escassos meses? Uma delas, o banco D. João de Castro, localizado entre as ilhas Terceira e São Miguel, desapareceu ao fim de meio ano. E a ilha Sabrina, formada numa parte intrínseca de São Miguel, foi desmantelada em três meses. Vejamos o que se sabe hoje das ilhas que apareceram (incluindo as actuais nove) e desapareceram nos Açores.

Em primeiro lugar, importa dar algum contexto geológico sobre o arquipélago dos Açores tal qual o conhecemos hoje. Encontra-se na fronteira entre três placas litosféricas – da América do Norte, da Eurásia e da Núbia (antes designada por placa africana). Ou seja, está numa zona onde os limites de cada uma das placas contactam com as placas vizinhas. No caso dos Açores, a Crista Média-Atlântica (cadeia montanhosa que corta o Atlântico de alto a baixo e em que há expansão do fundo do oceano) separa a placa da América do Norte (a oeste) das placas da Eurásia e Núbia (a leste). As ilhas das Flores e do Corvo encontram-se na placa da América do Norte, enquanto as restantes se estendem ao longo da fronteira entre as placas da Eurásia (a norte) e da Núbia (a sul).

“As ilhas do arquipélago dos Açores são o resultado de actividade vulcânica associada à junção tripla entre as placas litosféricas da América do Norte, Eurásia e Núbia”, sintetiza José Madeira, geólogo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que faz parte de uma equipa que investiga os Açores há quase 40 anos.

“Esta zona de fronteira é difusa, não sendo materializada por uma estrutura vulcano-tectónica bem definida, como é a Crista Média-Atlântica, mas sim por uma série de estruturas tectónicas, vulcânicas e vulcano-tectónicas ao longo de uma faixa que incluiu as ilhas”, acrescenta a geóloga Ana Hipólito, do Instituto de Investigação em Vulcanologia e Avaliação de Riscos da Universidade dos Açores. Essa faixa a que Ana Hipólito se refere (o Rifte da Terceira) combina assim a ocorrência de falhas tectónicas (zonas de facturas na crosta onde há movimentação e geração de sismos) e de fenómenos de vulcanismo (zonas onde há formação de nova crosta).

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As nove ilhas dos Açores vistas do espaço NASA

Ao longo das últimas décadas, muitos estudos se têm centrado na origem e compreensão dos fenómenos por detrás da morfologia da Plataforma dos Açores – uma zona de grande extensão, de forma quase triangular, que engloba todas as ilhas do arquipélago e bancos submarinos situados entre as ilhas e a sul delas. Nesta região, a crosta oceânica apresenta uma espessura anormalmente elevada, pelo que os fundos oceânicos são menos profundos do que o expectável. De forma geral, os fundos da Plataforma dos Açores são delimitados pela curva batimétrica dos dois mil metros, contrastando os quatro mil metros das zonas envolventes.

As ilhas oceânicas são todas de origem vulcânica, esclarecem tanto José Madeira como Ana Hipólito. Tal como as ilhas dos arquipélagos da Madeira, de Cabo Verde ou das Canárias, os Açores não são assim excepção. “São edifícios formados pelo empilhamento progressivo de produtos vulcânicos sobre o fundo oceânico, até que acabam por ultrapassar a superfície do mar, dando origem a uma ilha”, explica José Madeira. “A maior parte da construção vulcânica encontra-se submersa e corresponde a mais de 90% do volume do edifício vulcânico.”

Elevações e afundamentos

A ilha de Santa Maria foi a primeira a ser formada, há aproximadamente seis milhões de anos. A mais recente é a ilha do Pico, com “apenas” 186 mil anos – já a nossa própria espécie, o Homo sapiens, surgida há cerca de 300 mil anos, andava na Terra.

Mas o processo de formação das ilhas oceânicas é tudo menos linear, podendo haver fases de retrocesso, sublinha Ana Hipólito. “Por exemplo, pode ocorrer a formação de uma ilha, mas que, por ser seguida de um período relativamente longo de interrupção do vulcanismo, acaba por ser erodida pelo mar (processos de abrasão marinha) e torna-se novamente um monte submarino. Se o vulcanismo retomar, há a possibilidade de a construção e o crescimento da ilha continuar.” A estes fenómenos juntam-se as movimentações verticais, tanto de afundamento (subsidência) como de levantamento, e as variações do nível do mar, “que fazem da evolução de ilhas vulcânicas oceânicas um jogo entre a construção (vulcânica) e a destruição”.

Mais cedo ou mais tarde, o destino expectável para todas as ilhas é o seu afundamento. Isto acontece por duas razões. Primeiro, porque uma ilha vulcânica é um enorme peso depositado em cima do fundo oceânico. Devido a esse peso, o fundo acaba por se afundar, “tal como acontece se colocarmos um objecto pesado em cima de uma cama – que faz uma cova”, compara Ricardo Ramalho, geólogo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e o primeiro autor de um artigo científico de 2017 centrado nos movimentos verticais da ilha de Santa Maria, do qual José Madeira e Ana Hipólito também são autores.

“A carga resultante da enorme massa transferida para a superfície pela actividade vulcânica faz com que a litosfera oceânica – que não é rígida, mas tem um comportamento elástico – sofra uma deformação, encurvando para baixo sob o peso do edifício vulcânico”, acrescenta José Madeira a propósito desse fenómeno.

Em segundo lugar, à medida que ocorre o afastamento do fundo oceânico, devido à crosta terrestre nova que nasce na Dorsal Médio-Atlântica, o fundo do oceano arrefece. Ao arrefecer, torna-se mais denso e afunda-se. “É isto que leva a que mais de 90% das ilhas oceânicas, a nível mundial, se afundem lentamente. Na ilha de São Miguel, por exemplo, a taxa de subsidência está entre 0,6 e um milímetro por ano. Nas outras ilhas será ainda menor”, diz Ricardo Ramalho.

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Ilha de Santa Maria, com seis milhões de anos, a mais antiga dos Açores Rui Soares

Contudo, a ilha de Santa Maria vem contrariar esta tendência. De há 3,5 milhões de anos para cá, esta ilha passou por um período de elevação, embora não seja possível garantir que isso ainda esteja a acontecer actualmente. Não é o único caso dos Açores, uma vez que também a ilha das Flores teve numa fase inicial, após a formação, movimentos de levantamento. Agora, provavelmente, a ilha das Flores está em subsidência, refere Ricardo Ramalho. De qualquer forma, é um fenómeno especial.

Como explica José Madeira, a partir do momento em que Santa Maria sofreu um afundamento, devido ao aumento da carga sobre a litosfera, o vulcanismo diminuiu para uma actividade residual e verificaram-se fenómenos de erosão marinha, o que originou, por sua vez, um levantamento progressivo da ilha.

Este processo de levantamento já se traduziu na elevação de Santa Maria em 200 metros nos últimos três milhões de anos, o equivalente a uma velocidade média de cerca de 0,05 milímetros por ano. Mas essa elevação não pode ser, no entanto, justificada apenas pela remoção de massa do edifício vulcânico. “Pensa-se que resulte da intrusão de produtos magmáticos sob o edifício. Ou seja, a redução da actividade vulcânica resultou do facto de o magma não chegar à superfície (não produzindo, por isso, actividade eruptiva), mas sim estacionar em níveis profundos. É como se se colocassem sucessivas ‘cunhas’ de magma sob o edifício da ilha produzindo o seu levantamento”, acrescenta José Madeira.

O que leva os cientistas a crer que tanto a ilha de Santa Maria como a das Flores tiveram, em algum momento, uma elevação prende-se precisamente com a presença de sedimentos marinhos e rochas vulcânicas acima do nível do mar com características que indicam a sua formação debaixo de água.

Quer estejam a sofrer uma subsidência ou um levantamento, a verdade é que o destino de todas as ilhas é apenas um: o desaparecimento. Quer seja por afundamento ou erosão. Embora Santa Maria ainda possa estar a elevar-se, é expectável que também desapareça. Assumindo que deixará um dia de haver actividade vulcânica e que a ilha deixará de estar sujeita a um levantamento, acabará por desaparecer por via da erosão. Mas, mesmo que a ilha continue a elevar-se, esse movimento será de tal forma lento que acabará por não compensar a erosão.

Sobre a importância de estudar a origem e evolução do arquipélago açoriano, Ana Hipólito sublinha que “toda esta informação deverá ser a base de planos de ordenamento, de acções de mitigação e do estabelecimento de redes de monitorização dos mais variados riscos geológicos a que a região dos Açores está intrinsecamente sujeita.” O geólogo Ricardo Ramalho acrescenta que, em última instância, estes estudos “podem ter consequências para uma melhor compreensão da erosão marinha da costa actual e dos recursos minerais que possa haver.”

D. João de Castro, Sabrina e Serreta

Para além das nove ilhas mais perenes dos Açores, tem havido outros fenómenos no arquipélago que despertaram a curiosidade, como o banco D. João de Casto, a ilha Sabrina e o vulcão da Serreta.

Em Dezembro de 1720, uma erupção formou uma ilha no banco D. João de Castro, entre São Miguel e a Terceira. A erupção foi acompanhada por sismicidade que afectou ambas as ilhas. Nos meses que se seguiram, este ilhéu foi destruído por acção da erosão marinha, havendo registo do seu desaparecimento em Julho de 1721.

Noventa anos depois da ilha no banco D. João de Castro, uma outra ilha chamou a atenção pela sua efemeridade – a Sabrina. A sua história começou e acabou em 1811, com erupções ao largo da Ponta da Ferraria, na ilha de São Miguel. Em Outubro daquele ano, três meses depois de ter nascido, a ilha sucumbiu à erosão do mar e desapareceu para sempre.

A erupção tinha tido início no primeiro dia de Fevereiro de 1811, manifestando-se neste primeiro episódio apenas com a emissão de gases à superfície da água. Nos seis meses que precederam a observação daquele fenómeno, uma crise sísmica intensa levou grande parte da população a fugir para Ponta Delgada. A 14 de Junho daquele ano ocorreu nova erupção, mais violenta, caracterizada por fortes explosões com projecção de cinza e blocos de rocha. “Os relatos históricos descrevem estrondos que se assemelhavam a tiros de artilharia pesada. A sismicidade que acompanhou a erupção provocou grande destruição. Desta erupção resultou um cone com cerca de 100 metros de altura e 300 metros de diâmetro”, descreve Ana Hipólito.

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A erupção de 1811 que originou a efémera ilha Sabrina desenhada pelo tenente William Miles, do navio HMS Sabrina, em Junho desse ano

“O aparecimento e desaparecimento destas ilhas não têm grande mistério”, relativiza José Madeira. “Resultaram ambas de erupções submarinas que expeliram lava fragmentada em quantidade suficiente para que a sua acumulação ultrapassasse o nível do mar. Assim que a actividade vulcânica cessou, a pequena dimensão e a pouca resistência à erosão marinha daquele tipo de materiais levaram à rápida destruição da porção emersa dos edifícios vulcânicos, que deixaram de existir como ilhas.”

Actualmente, o topo da Sabrina encontra-se a 28 metros de profundidade. Já o topo do banco D. João de Castro encontra-se entre os 20 e os 12 metros de profundidade e é considerado hoje como um vulcão activo, referem tanto José Madeira como Ana Hipólito. Isto porque se mantém sismicamente activo e com vulcanismo secundário, através de actividade hidrotermal, especifica Ana Hipólito. “Não há dúvida de que se trata de um vulcão activo e, como tal, com potencial de vir a originar novas erupções no futuro.”

José Madeira antecipa que é mesmo provável que o banco D. João de Castro volte a ser uma ilha. “É um vulcão activo, que teve erupções num passado recente e terá certamente muitas outras no futuro. É provável que venha a constituir a décima ilha dos Açores num futuro geológico próximo.”

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Erupção vulcânica da Serreta com materais a chegarem à superfície do oceano em Abril de 1999 Lusa

Já muito perto de nós, a 18 de Dezembro de 1998, pescadores açorianos avisaram as autoridades da existência de colunas de fumo a cerca de dez quilómetros da Ponta da Serreta, no canal entre as ilhas Terceira e São Jorge. Nessa altura, dava-se a primeira erupção vulcânica no Atlântico em 30 anos a ejectar materiais até à superfície. O vulcão submarino da Serreta – modelo eruptivo que não havia sido observado nem descrito na literatura científica – esteve em actividade até Agosto de 2001.

“A erupção da Serreta foi uma manifestação vulcânica invulgar pela sua profundidade intermédia. Nem foi suficientemente pouco profunda para originar uma manifestação como a da ilha Sabrina, nem foi suficientemente profunda para não haver manifestações à superfície. A profundidade do foco eruptivo rondava os 400 metros e a particularidade principal dessa erupção foi a formação de ‘balões de lava’”, relata José Madeira. “Este tipo de manifestação nunca tinha sido observado em pormenor nos Açores e apenas se conheciam duas outras erupções com estas características noutros pontos do globo – ao largo do Cachorro, no Pico, em 1963; e em 1981 no banco do Mónaco, a sudoeste de São Miguel”, remata. Hoje não há registos que confirmem a ocorrência de qualquer erupção posterior à da Serreta.

Como todas as ilhas a nível mundial, que nascem, crescem e um dia morrem, os Açores, ainda que tenham as suas particularidades, também não fugirão à regra. Não estaremos é já cá para ver esse futuro. “É o destino provável de todas as ilhas. Um dia irão desaparecer por baixo de água para sempre”, conclui Ricardo Ramalho.

Texto editado por Teresa Firmino

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