Nelson Garrido
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Nelson Garrido

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Quem vê tatuagens, não vê coração

Continuamos a educar para formatar. Não aceitamos a diferença. Tudo aquilo que possa ser remotamente diferente é apontado a dedo, recusado, catalogado como assustador e, como tal, tem de ser arrumado e arquivado longe da nossa vista.

De tempos a tempos surgem notícias nesta Europa que não deixam de me provar que, de facto, não estamos a caminhar no sentido de aceitar a diferença. Muito pelo contrário: parece que cada vez mais o pensamento das pessoas é o da intolerância em relação a tudo o que é diferente, a tudo aquilo que não está formatado e normalizado. Parece que a necessidade de sentir segurança está directamente relacionada com esta necessidade de formatar tudo pela mesma medida. “Se é igual a mim, não será, à partida, perigoso”, pensarão essas pequenas mentes.

Aqui chegados perguntará o leitor a que propósito estarei aqui a falar na aceitação, na pressão que se vai sentindo para normalizar o indivíduo, a que notícia me refiro. E direi, caro leitor, que acabo de passar os olhos por uma notícia que refere que um professor primário, em França, foi afastado de funções (que desempenhava há já 11 anos) e colocado em trabalho administrativo. E porque? Terá o professor maltratado uma criança? Roubado alguma coisa? Nada disso. O “crime” de Sylvain Helaine é, de acordo com a notícia, apenas o de ser o homem mais tatuado de França. A notícia vem acompanhada de uma fotografia que me mostra um ser humano integralmente tatuado, inclusivamente nos olhos (que são agora totalmente negros), num procedimento que terá sido realizado na Suíça, uma vez que tal é proibido em França.

Olhando para a fotografia não poderei dizer que é algo que considere bonito ou que, para mim, seja uma expressão de arte. Mas nada mais tenho a dizer sobre a fotografia. Nada nela me diz se o Sylvain é um bom ser humano ou até mesmo um bom professor. Nada na foto e naquelas tatuagens me diz se o Sylvain é um ser humano calmo ou, pelo contrário, um homem nervoso, se é casado ou solteiro, se tem família e amigos ou se é um solitário. A verdade é que a fotografia, e a sua imagem, apenas me dizem uma coisa: estou perante alguém que adora tatuagens. Nada mais.

Contudo, não foi assim que pensaram alguns encarregados de educação em França, que o acusaram de “assustar as criancinhas” com a sua aparência. Resultado: Sylvain foi impedido de dar aulas. O início da notícia a que tive acesso não poderia ser mais esclarecedor da forma como o mundo ainda pensa, iniciando a frase com um “Confiaria as suas crianças na escola primária a este homem?” Por cá vi a notícia a circular por grupos de professores em que o teor da questão é sensivelmente o mesmo: coloca-se a tónica no excesso de tatuagens, na imagem e no facto de estar a trabalhar com crianças de seis, sete anos.

O que depreendo dos comentários que tenho visto aqui e lá (além das nossas fronteiras)? Que nada mudou. Concluo que continuamos a julgar pelo aspecto. Continuamos a perdoar crimes de colarinho branco porque afinal foram perpetrados por gente de bem, que se vestia com os melhores fatos e os sapatos de marca. Continuamos a educar para formatar. Não aceitamos a diferença. Tudo aquilo que possa ser remotamente diferente é apontado a dedo, recusado, catalogado como assustador e, como tal, tem de ser arrumado e arquivado longe da nossa vista.

O próprio Sylvain refere que, passado um primeiro momento de alguma estupefacção, os seus alunos esquecem totalmente que ele é diferente. Mas os pais, esses, não o querem lá. Não são as crianças que têm medo dele, são os pais. E por isso penso que por mais que se lute nas escolas com aulas de Cidadania (que tanto têm sido colocadas em causa nos últimos tempos), continuamos a estar muito longe de uma sociedade que se quer inclusiva e que aceita a diferença.

Penso que as crianças não terão qualquer problema em aceitar a diferença de Sylvain, assim lhes seja explicado que o professor é diferente porque decidiu sê-lo e que não é o aspecto que o define. Os pais preocupados com os filhos podem aproveitar e explicar-lhes que no mundo somos todos diferentes. Aproveitando essa ideia podem explicar que uns são mais diferentes do que outros. E que isso pode depender da vontade da pessoa (tatuagens, piercings) ou da própria natureza (algum tipo de deficiência). E já que estão a explicar isso, podem aproveitar a embalagem e explicar que a diferença é apenas isso. Superficial, o que está à vista. Não torna ninguém superior ou inferior. Porque, tanto quanto sei, “lá por dentro” somos todos iguais, o sangue que corre nas veias terá a mesma cor em todos. Talvez o contacto com a diferença leve estas crianças a tornarem-se adultos mais tolerantes para a diferença de cor, de comportamentos, de vidas, de pensamentos. Talvez os leve a querer viver numa sociedade, efectivamente, mais inclusiva.

Tanto de positivo poderia ser retirado da aparência de Sylvain na educação destes futuros cidadãos. Mas isso sou só eu que continuo a acreditar que o mundo poderá evoluir para um caminho da tolerância. Contudo, a verdade é que, no ano de 2020, a intolerância para a diferença continua a existir. A verdade é que evoluímos tanto e, afinal, evoluiu-se tão pouco. Continuamos a ver corações apenas pela “cara” que apresentamos.

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