Opinião

O ultimato norte-americano e o fumo do dragão

O que me parece indiscutível é que, talvez face a uma quase irrelevância internacional do nosso burgo, os EUA não se aperceberam de que já tomámos a opção chinesa.

Se há domínio da vida em que o pragmatismo e os interesses conjunturais são o “pão nosso de cada dia”, a diplomacia é, por excelência, um deles, porventura o mais paradigmático. Basta ler a Diplomacia de Kissinger para o perceber. Basta recuarmos na nossa própria História para compreendermos que a supostamente mais antiga aliança entre Estados, que une Portugal e o Reino Unido, é bem disso demonstrativa, sendo que, tirando o apogeu dos Descobrimentos, sempre ficámos a perder: vejam-se as negociações do “mapa cor-de-rosa”, o ultimato britânico, os saques e pilhagens que por cá sucederam na sequência da “ajuda” britânica aquando das invasões napoleónicas, para já não falar no Tratado de Methuen (1703), em que o nosso vinho do Porto era trocado por têxteis que terminaram, já à época, com a menos desenvolvida indústria que, em especial, dizimou o Norte do país.

O embaixador norte-americano aproveitou para nos dizer que tínhamos de escolher: ou os EUA ou a China, no que parece ser um aggiornamento do ultimato inglês. Claro que agora já não temos colónias a perder e a ameaça é económica e de posicionamento na NATO, o que não é pouco. Se bem me lembro, há muito que vimos navegando à bolina nesta matéria. Todos nos recordamos que “abrimos as pernas” ao capital chinês nos tempos da grave crise na sequência do rebentamento da bolha de 2008; que a EDP é detida por chineses, na maioria do seu capital social, para além de outras empresas vitais à soberania do Estado. No rigor, já somos, economicamente, uma espécie de colónia chinesa. Bem sei que quando não há dinheiro, os Estados curvam-se, como o fizemos vergonhosamente frente a um regime ditatorial e corrupto como o de José Eduardo dos Santos. Distribuíram-se medalhas e comendas por colecções de arte que, afinal, foram menos que um espirro de Pifo. É a real politik, dizem, ou parafraseando uma frase conhecida, “é a diplomacia, estúpido”.

Donde, Augusto Santos Silva, peixe de águas profundas, relembrando Jaime Gama, deu a resposta que podia: em Portugal ainda mandam os portugueses. O homem que mais ministérios distintos ocupou em democracia, fazendo dele um governante com tracção às quatro rodas, talvez esteja agora na pasta onde julgo que nos é mais útil a todos. O ministro sabe o poder económico que temos, conhece o dossier das Lages e também sabe que a autocracia de Putin é o cimento aglutinador da NATO. Percebe-se o recado do embaixador norte-americano, que seria idêntico mesmo que na Casa Branca não estivesse Trump. Podia ser um pouco mais polido, mas na substância seria o mesmo.

Se o 5G é ou não um instrumento temível de espionagem chinesa e a Huawei uma obra do demo, teremos de perguntar aos peritos. Certo é que vários Estados-membros da UE já negaram o seu acesso aos respectivos mercados. Deveríamos ser informados do que se sabe, com o rigor e objectividade possíveis nestas coisas, que nunca são completos. Porém, o que me parece indiscutível é que, talvez face a uma quase irrelevância internacional – Guterres é uma excelente e esforçada pessoa, mas a ONU, de momento, pouco mais é que uma espécie de ONG onde as pessoas se lamentam, sem que existam mecanismos e verbas reais de intervenção efectiva – do nosso burgo, os EUA não se aperceberam de que já tomámos a opção chinesa.

Mesmo sabendo que a China é uma ditadura, com um Presidente desejoso de um domínio chinês do mundo – o gigante há muito acordou –, com o fim a médio prazo das liberdades fundamentais em Hong Kong e em Macau, com um aparelho de Estado totalmente controlado, onde as minorias, em especial muçulmanas, são “reeducadas” (eufemismo para torturadas e mortas), dando-se Xi Jinping ao luxo de dizer que estão a fazer muito bem e os Estados e organizações internacionais, cientes de que é sempre o dinheiro que movimenta o mundo, a assobiarem para o lado ou a falarem com voz de ratinhos amestrados para o grande dragão.

E os outros Estados fazem diferente? Vão fazendo ou não em função do seu poderio económico. Mas não nos antípodas. Donde, o MNE fez o que lhe competia: disse ao embaixador que falasse numa oitava abaixo e que a questão estava a ser discutida, e está certamente a tratar de soluções que agradem aos EUA, sem bulir com o poderio chinês na nossa economia. Um equilíbrio complexo para o qual Santos Silva parece o homem certo (a boutade de “quem se mete com o PS leva” foi de Jorge Coelho). E com o candidato presidencial apoiado pelo PCP ainda com dificuldades em caracterizar os últimos regimes ditos comunistas, mas com um assinalável avanço num partido que não é conhecido por evoluir nas suas posições: João Ferreira não deseja grande parte das opções políticas da Venezuela ou da Coreia do Norte para Portugal. Ficamos todos mais descansados.

Sugerir correcção