Rúben Dias coloca vendas da “geração Seixal” perto dos 500 milhões

A transferência do central do Benfica para o Manchester City, com a inclusão de Otamendi no negócio, confirma uma mudança no projecto das “águias”. É a quarta maior transacção global deste defeso.

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LUSA/MANUEL DE ALMEIDA

Pouco mais de um ano depois de transferir João Félix para o Atlético de Madrid, num negócio de 126 milhões de euros que pulverizou o anterior recorde de vendas de um clube nacional, o Benfica confirmou que Rúben Dias vai ser jogador do Manchester City, num acordo que coloca o nome do clube “encarnado” no top-5 das maiores transferências internacionais em 2020. A transacção do passe do central português por 68 milhões eleva as vendas da “geração Seixal”, nos últimos seis anos, para perto da fasquia dos 500 milhões, mas, por outro lado, a inclusão do passe de Nicolás Otamendi no negócio confirma uma mudança no projecto das “águias”, que passaram a apontar a “jogadores internacionais de prestígio”.

É a segunda maior transferência de sempre do futebol português e a quarta maior de 2020. Na noite de domingo, o Benfica informou que o acordo com o Manchester City prevê o pagamento de 68 milhões de euros, mais três milhões e 600 mil por objectivos, acrescentando de seguida, numa outra nota, que a aquisição aos “citizens” da “totalidade dos direitos do jogador Nicolás Otamendi” implicará o pagamento de 15 milhões. No total, apesar de serem duas transacções distintas, pela contratação de Rúben Dias o City vai pagar 53 milhões de euros, cedendo ainda o passe do central argentino.

A venda de Rúben Dias, que passa a ser o quinto defesa mais caro de sempre, confirma o Benfica Campus, o centro de treinos e estágio dos “encarnados” no Seixal, como uma “fábrica” de produzir talentos que, nos últimos seis anos, rendeu às “águias” um valor próximo dos 500 milhões de euros. 

Inaugurado em Setembro de 2006, o Benfica Campus começou a gerar receitas cerca de oito anos depois, com a geração nascida em 1993 e 1994. As primeiras vendas milionárias feitas por Luís Filipe Vieira com atletas formados no Seixal aconteceu em 2014, com Bernardo Silva, Ivan Cavaleiro, João Cancelo e André Gomes, todos transferidos por valores a rondarem, cada um, os 15 milhões. 

A partir daí, com a promessa do presidente do Benfica de construir na Luz uma equipa alicerçada em jogadores da formação, a fasquia subiu. Apesar de ter mantido como valor de referência os 15 milhões para atletas que não se afirmaram no plantel principal — João Carvalho e Hélder Costa, por exemplo —, Vieira duplicou as exigências para titulares benfiquistas e, entre 2016 e 2017, Renato Sanches (35 milhões), Gonçalo Guedes (30 milhões), Lindelöf (35 milhões) e Ederson (40 milhões) ajudaram a SAD a apresentar contas com lucros e redução do passivo. 

No entanto, principalmente após a saída de Jorge Jesus no Verão de 2015, Vieira foi reforçando a ideia de que o projecto que tinha para o clube passava pelo Seixal. Daí, a aposta em Rui Vitória, que teria “o perfil certo para apostar na juventude”, ou Bruno Lage, que conhecia como poucos a formação do clube. 

Porém, com os dois títulos perdidos nas últimas quatro temporadas para um FC Porto debilitado financeiramente, Vieira reformulou o discurso. Em 2017, numa extensa entrevista à BTV, o líder dos “encarnados” mantinha que a aposta na formação era a prioridade, mas já não escondia que as saídas eram inevitáveis: “Nunca poderemos dizer que não vamos vender. Queremos resultados positivos e recuperar os capitais próprios.”

Nessa mesma entrevista, Vieira deu, no entanto, um exemplo que choca de frente com a actual realidade do Benfica. Para defender a decisão de potenciar os jovens da formação, o presidente benfiquista recuperou as notícias do mercado de transferências anterior, que apontava a um possível regresso à Luz, e deixou uma pergunta: “Imaginemos que o Garay tinha vindo para o Benfica... Eu pergunto: onde estava agora o Rúben Dias? Estava na equipa B. Planeámos bem, escolhemos bem.”

Três anos depois de Vieira deixar claro que preferia apostar num jovem de 20 anos da “casa” do que fazer regressar um jogador de 30 anos de créditos firmados, o novo homem forte do Benfica Campus é, novamente, Jorge Jesus. E com Jesus, que um ano antes de trocar as “águias” pelos “leões” disse que para substituir Matic os jovens da formação tinham que “nascer 10 vezes”, o projecto mudou. 

Com Florentino confirmado no Mónaco, Jota, Nuno Tavares e Tomás Tavares também na porta de saída, da “geração Seixal”, na equipa A, restam Ferro e Diogo Gonçalves. Sem margem de erro desportiva, a aposta agora passa por “ir ao mercado contratar jogadores internacionais de enorme prestígio”, palavras de Vieira este mês. A entrada de Vertonghen, Otamendi, Everton ou Waldschmidt confirma-o. Os talentos que continuam a sair da formação (Paulo Bernardo, Tiago Dantas ou Gonçalo Ramos, entre outros) terão de esperar. 

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