Egípcios saem à rua apesar de “proibição total” de manifestações

Protestos são pequenos e dispersos, mas duram há duas semanas. Regime fez cerca de 400 detenções.

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Já em Setembro do ano passado tinha havido protestos instigados por Mohamed Ali, um egípcio a viver em Espanha, tal como agora LUSA/STRINGER

O mais impressionante dos protestos das últimas duas semanas no Egipto não é onde estão a acontecer (sobretudo em localidades mais pequenas) ou quantas pessoas estão presentes (algumas dezenas). É, simplesmente, existirem, num ambiente de total proibição de manifestações pelo regime, apesar de uma onda de prisões preventivas, e do enorme risco para quem sair à rua: não só o de ser preso, mas o de poder ser morto. 

Os protestos ocorreram sobretudo em pequenas localidades do Norte do Egipto, ainda que também em Gizé (subúrbios do Cairo) e Luxor (Sul) e foram por isso chamados de “a revolução da jalabyia”, a túnica tradicional.

Foram instigados por Mohamed Ali, egípcio a viver em Espanha que, no ano passado, acusou os militares de levarem a cabo projectos luxuosos: a ira dos egípcios de classe média ou baixa, que mal conseguem pagar as suas contas, levou a uma série de manifestações em Setembro passado.

O regime de Abdel Fattah el-Sissi, no poder na sequência de um golpe militar em 2013, respondeu então detendo mais de 2300 pessoas em apenas duas semanas por acusações duvidosas com base nas leis anti-terrorismo, segundo a Amnistia Internacional (AI). Entre os detidos estavam também pessoas que nem sequer tinham participado nos protestos: “Qualquer um que possa ser visto como uma ameaça vai ser esmagado”, dizia então a AI.

Muitas pessoas continuam detidas desde essa altura, e perante o repto renovado de Ali para mais protestos nas última semanas foram detidas pelo menos 400 pessoas, segundo o site de notícias independente Mada Masr.

O responsável da Human Rights Watch no Egipto, Amr Magdy, disse ao site de informação Middle East Eye que os protestos são “significativos ainda que sejam dispersos e relativamente pequenos”, já que “qualquer egípcio sabe que se participar num protesto contra o governo se arrisca a ir preso ou, pior, ser morto”.

Na repressão destes protestos houve uso de balas reais pelas forças de segurança e há relatos de pelo menos um morto.

“Sete anos de repressão sob Sissi deixaram a sociedade sem partidos políticos ou activismo independente, por isso quaisquer protestos que aconteçam neste ambiente de grande intimidação e risco são muito corajosos”, declarou Magdy.

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