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Futuro em debate: apoiar ou deixar cair a pequena economia?

Fala-se muito em dar incentivos para digitalizar a pequena economia, mas é importante perceber que este é um processo progressivo: não ocorre de um dia para o outro. Não podemos assumir que a construção de um site transforma, por si só, um negócio em digital.

Em Portugal, 99,9% das empresas são pequenas e médias empresas (PME) e, se olharmos mais a fundo, as estatísticas mostram-nos que 96,1% são micro-empresas, correspondendo a mais de 1,2 milhões de negócios. O Instituto Nacional de Estatística (INE) define uma micro-empresa como uma empresa que emprega menos de dez pessoas e cujo volume de negócios anual, ou balanço total anual, não excede os dois milhões de euros.

Segundo o relatório anual das PME da Comissão Europeia, que faz um retrato do universo empresarial nos 28 Estados-membros, as PME em Portugal geram 68,3% da riqueza e 77,3% do emprego, empregando, em média 2,9 trabalhadores, menos um do que a média europeia. A maior parte desta tipologia de negócios são negócios familiares que correspondem ao sustento de milhões de famílias em Portugal.

O sector das PME, mais concretamente as pequenas e micro-empresas, é muitas vezes descartado ou desvalorizado por ser considerado um sector de pouco valor acrescentado, pouco diferenciador, que gera pouca riqueza e vive à conta de subsídios. Ainda que aceitemos (apenas para efeitos de discussão) que todas estas constatações são 100% verdadeiras, será isto razão para deixar cair e não estimular um sector da economia com este peso?

No pós-quarentena, assistimos à reinvenção de muitos pequenos negócios e esse fortalecimento é agora mais oportuno do que nunca. No entanto, o fortalecimento das PME, mais em concreto dos pequenos e micro-negócios, não pode ser resolvido com “pensos rápidos”, antes exigindo colaboração e visão de longo prazo.

Fala-se muito em dar incentivos para digitalizar a pequena economia, mas é importante perceber que este é um processo progressivo: não ocorre de um dia para o outro. Não podemos assumir que a construção de um site transforma, por si só, um negócio em digital. Aliás, muitas das medidas de adaptação têm um efeito totalmente contrário ao seu propósito. Por exemplo, a entrada no mundo digital está a retirar a grande vantagem de muitos pequenos negócios — a conveniência, a proximidade, a humanidade — e irá lançá-los num mercado onde perdem a maior parte das suas vantagens competitivas.

O fortalecimento da pequena economia tem de ser um processo progressivo, que necessita de medidas estruturadas e faseadas, tendo em conta as vantagens competitivas e a reinvenção da pequena economia.

Isto pode ser feito de inúmeras formas, como apostando na digitalização dos pequenos negócios, não de forma integral (estes não vão passar a ser negócios online de um momento para o outro), mas de forma complementar, alargando os seus canais de comunicação, de forma a terem uma presença online sólida e canais de comunicação digitais.

A criação de canais agregadores de pequenos negócios, dando-lhes escala para negociarem, com fornecedores de produtos e serviços, preços mais competitivos, é outra via de valorização destes negócios. Numa economia onde o e-commerce continua e continuará a crescer e onde paira sobre nós a possibilidade recorrente de novas situações de isolamento a distribuição eficiente, é fundamental equiparmos estes negócios com certas ferramentas básicas de sobrevivência.

Uma destas ferramentas passará pela criação de redes de distribuição comunitárias (à escala municipal, por exemplo), agregando vários pequenos negócios para que os custos de transporte ou das entregas em casa não esmaguem totalmente as suas margens. Da associação de pequenos comerciantes locais pode resultar uma diminuição nos custos de entrega, que viabilizará uma operação por via digital. Ao servir vários comerciantes aderentes, um estafeta pode entregar produtos de vários comerciantes de uma só vez, reduzindo os custos por entrega.

O custo desta operação, incomportável quando negociado individualmente, poderia assim passar a ser suportado em conjunto, de forma agregada, ou mesmo ficar a cargo do município, seja através de financiamento do serviço ou da alocação de técnicos, a título de apoio à economia local.

Esta medida está a ser testada e validada em vários lugares do mundo e, em Portugal, a União de Freguesias de Campelos e Outeiro da Cabeça, no concelho de Torres Vedras, começou a validar um modelo desta natureza na iniciativa, o Compro em Casa.

É importante perceber que uma aposta progressiva na pequena economia pode significar uma maior resiliência da economia como um todo, especialmente em situações de crise. Assim, de forma faseada, aumentaremos a nossa competitividade interna, o que vai introduzir efeitos muito positivos, não só para a economia, como para a nossa comunidade como um todo.

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