Jornalismo amplifica desinformação sobre fraude eleitoral nos EUA, alerta estudo de Harvard

O problema está na cobertura das alegações que Trump publica no Twitter. Mesmo quando dizem que não há provas, a narrativa do candidato republicano faz o seu caminho.

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A narrativa de Trump, veiculada no Twitter, por exemplo, chega aos média mais insuspeitos NurPhoto/Getty

Os órgãos de comunicação norte-americanos estão entre os maiores amplificadores de desinformação sobre fraude nas eleições presidenciais de Novembro. É o que sugerem os resultados preliminares de um estudo da Universidade de Harvard, partilhados no começo deste mês, que mostram que receios de manipulação eleitoral nos Estados Unidos estão a ser promovidos, principalmente, por notícias nos média que cobrem as declarações que o Presidente norte-americano Donald Trump faz no Twitter.

“As redes sociais desempenham apenas um papel secundário, de apoio”, resumem os investigadores na apresentação dos resultados. Como tal, alertam, “a principal cura para o distúrbio de desinformação que se observa não é criar mais ferramentas de verificação de factos no Facebook”.

A equipa do Berkman Klein Center, uma instituição de Harvard dedicada a estudos da Internet, examinou 55 mil notícias publicadas em sites de órgãos de comunicação social, 75 mil publicações no Facebook e cinco milhões de tweets. O objectivo era perceber a origem das preocupações sobre fraude em votos enviados por correspondência, um método usado há duas décadas em alguns estados que ganhou importância nacional por causa da pandemia.

Parecer equilibrado

O canal de televisão conservador Fox News é um dos principais responsáveis — mas não é o único.

“O New York Times, o Washington Post e a CNN têm sido bastante consistentes a alertar para falsidades no geral e desempenham um papel importante ao centro do ecossistema mediático. O problema é que sites de órgãos de jornalismo tendem a querer parecer equilibrados”, explica ao PÚBLICO Yochai Benkler, um dos autores do estudo, professor de Direito em Harvard.

“Os órgãos de comunicação social apresentam e introduzem a controvérsia [de fraude eleitoral] como um conflito partidário em que Democratas e Republicanos discordam, em vez de especificar claramente que as alegações não têm base em estudos reais e que todos os estudos existentes na área dizem que é um problema menor”, continua Benkler.

Um artigo recente do New York Times, por exemplo, sobre o encerramento de locais de entrega de votos por correspondência no Texas arrancava com o título “Citando questões de segurança, governador do Texas limita locais de entrega de votos”. Apenas a meio do texto é que surge uma frase a alertar para a falta de provas: “Não há provas que votos por correspondência conduzam a fraude generalizada”, lê-se no sétimo paragrafo. “Debate sobre votações por correio levanta receios de desinformação”, um título de Maio da agência noticiosa Associated Press, é outro exemplo de Benkler. 

Os resultados do estudo de Harvard contrariam a ideia popular segundo a qual bots (programas de computador que simulam comportamentos humanos nas redes sociais), autores de clickbait (técnicas sensacionalistas para motivar o clique num conteúdo) no Facebook e trolls russos são os principais amplificadores de desinformação.

Narrativa de Trump

São as declarações de Donald Trump que estão por detrás dos receios na votação por correspondência. “A narrativa é conduzida por Trump e pelo Partido Republicano, geralmente, através de órgãos de comunicação social ou publicações no Twitter de Donald Trump que aparecem em órgãos de comunicação social porque o Presidente as escreveu”, acentua Benkler. “Não é a atenção que recebem no Twitter que desencadeia a narrativa.”

Os resultados, porém, não são inéditos. Um estudo anterior do Berkman Klein Centre sobre o ecossistema mediático nos Estados Unidos entre 2015 e 2018 já tinha mostrado que a Fox News era mais influente na propagação de informação falsa do que bots, trolls, e esquemas de clickbait.

A solução não é parar de cobrir as declarações do Presidente. “Se foi o Presidente que disse, é notícia”, reconhecem os investigadores no estudo.

Solução: uma “sanduíche de verdade”

Em vez disso, Benkler sugere uma “sanduíche de verdade”, uma ideia partilhada por Margaret Sullivan, colunista do Washington Post. Em vez de tratar qualquer declaração do Presidente como uma potencial manchete, a notícia deve começar pelos factos essenciais (e não pelas palavras do Presidente) e só depois notar que o chefe de Estado comentou algo sobre o tema e, caso seja relevante, contextualizar as declarações com estudos e factos.

“É provável que seja necessária uma maior vigilância por parte dos meios de comunicação social profissionais tradicionais, da Associated Press, das redes de televisão, e dos editores locais de canais de televisão sobre se cobrem, e como cobrem, a campanha de Donald Trump”, conclui a equipa de Harvard.

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