Eles, os loucos

No dia em que entrei na psiquiatria tive medo dos loucos. No dia em que saí tive a certeza que não tinha encontrado nenhum louco ali. Ali só encontrei gente. Gente igual a mim.

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"A linha que delimita a nossa “saúde mental” é demasiado ténue e fácil de cruzar" daniel rocha

Tinha 20 anos quando entrei pela primeira vez num hospital psiquiátrico. E mal saí do carro, ainda longe do edifício principal, uma senhora com os lábios pintados de rosa choque e dezenas de colares ao pescoço veio ter comigo e perguntou-me quem eu era. Meio a medo lá respondi que era a nova estagiária. Ela deu-me dois beijos e disse: “Eu sou a Amélia, a rainha deste palácio.” Não ri. Tive medo. E percebi que afinal também tinha preconceitos. Muitos.

Reunindo toda a coragem que consegui, avancei para o edifício principal. E foi lá dentro que me cruzei com o Tiago pela primeira vez. O Tiago, que se tornaria o meu fiel companheiro ao longo de todo o estágio, era um miúdo de 15 anos, oligofrénico, institucionalizado depois de anos de abuso físico por parte de um pai toxicodependente, que sonhava ser jogador de futebol e exigia ser tratado por Ronaldo. Durante seis semanas esperou por mim junto à porta principal, sempre com um ramo de malmequeres silvestres ainda com as raízes que apanhava nos muitos hectares de campo que pertenciam ao hospital.

Nesse primeiro dia vi muita gente. E mais do que da equipa de profissionais lembro-me dos utentes. Da professora de inglês que tricotava camisolas, do Luís que vivia ali há anos e que raramente falava, do Sérgio que tinha a minha idade e uma psicose induzida pelo consumo de substâncias e da avó que ouvia uma voz que lhe dizia que tinha de matar os netos para salvar o mundo. Nesse dia associei muitos nomes a um diagnóstico. Mas não conheci verdadeiramente ninguém.

No início da segunda semana de estágio, a meio de um turno, comecei a ouvir gritos. Muitos gritos. Era o Tiago que, numa das casas de banho, se agredia com o que conseguia. Mas magicamente, nunca saberei porquê, parou quando me viu. E começou a chorar. Chorou muito. E as lágrimas dele levaram os meus medos e os meus preconceitos embora.

O Tiago tornou-se o meu escudeiro. Aos poucos fui descobrindo que a agressividade era a única coisa que conhecia e, com afecto, ele acalmou. Tive muita vontade de chorar na primeira vez que esperou por mim com o ramo de malmequeres. E nunca me hei-de esquecer dos olhos muito abertos e da cara de pânico quando lhe disse que, se não lavasse os dentes, os bichinhos do açúcar os iam deixar todos pretos. Ele fazia-me rir muitas vezes. E quando eu ria ele dizia “tu és bonita”.

Com o passar dos dias também descobri que a Amélia dos lábios cor-de-rosa afinal tinha outro nome e tinha sido mãe de alguém. A Amélia, que afinal se chamava São, era uma mãe que não aguentou a morte da filha e que, por isso, passou a viver outras vidas num mundo diferente do nosso. Às vezes era rainha, outras vezes era bailarina e acho que também foi sereia. Ela era tanta gente porque, na verdade, já não era ninguém.

A professora que fazia camisolas teve alta. Na saída disse que regressaria, que a sua doença acabaria por voltar a empurrá-la para o fundo, mas que esperava conseguir manter-se estável por um bom tempo. O Luís continuou por lá quando eu terminei o estágio, não sei o que foi feito dele. Nas poucas vezes que falava dizia que era Deus. Foi a pessoa mais mergulhada em solidão que vi até hoje. Sem pais, sem mulher, sem filhos, sem ninguém.

O Sérgio também voltou a casa depois de poucas semanas, acompanhado por uns pais perdidos e desesperados, mergulhados numa culpa que não tinham. Não sei se voltou a consumir, nem sei por que o fazia. Sei que era educado, cordial e bonito. Gostava do Harry Potter e falávamos sobre isso às vezes. Era bom falar com ele.

A avó que ouvia vozes melhorou com a medicação. Mas nunca deixou de se culpar pelos pensamentos e, por isso, sofria duplamente. Ainda estava internada no meu último dia de estágio.

E o meu último dia de estágio ali, naquela psiquiatria, foi o mais difícil dos meus últimos dias de estágio. Em nenhum outro me custou tanto dizer adeus. Sequei o ramo de malmequeres que o Tiago me deu nesse dia. E quando me despedi da Amélia que era São sabia que aquela podia ser a minha mãe que também perdeu uma filha um dia. Quando disse adeus ao Luís vi só um homem derrotado pela solidão. Quando virei as costas à avó que tricotava pensei que podia ser qualquer um de nós. A linha que delimita a nossa “saúde mental” é demasiado ténue e fácil de cruzar.

No dia em que entrei na psiquiatria tive medo dos loucos. No dia em que saí tive a certeza que não tinha encontrado nenhum louco ali. Ali só encontrei gente. Gente igual a mim.