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Na Colômbia, pescam-se corpos e “adoptam-se” mortos para chorar a guerra civil

Quando os abutres sobrevoam as águas do rio Magdalena, na Colômbia, surgem nas redes dos pescadores os corpos das muitas vítimas da violência armada do país. Felipe Romero Beltrán documentou o percurso desses "desaparecidos", desde o rio ao jazigo.

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Quandos os abutres sobrevoam o leito do rio Magdalena, que atravessa a Colômbia de norte a sul, é porque algo se passa. Na zona de Magdalena Medio, a cerca de 250 quilómetros de Bogotá, a presença destes necrófagos é prosaica e antiga – pelos piores motivos. "O rio Magdalena é um depósito de corpos assassinados", explica Felipe Romero Beltrán ao P3, em entrevista. "Por causa da guerra [civil colombiana], os corpos das muitas vítimas da violência armada são lançados para os rios." Os números oficiais apontam para 80 mil cadáveres retirados dos cursos de água do país, ao longo dos 52 anos de conflito, que até hoje opõe o Governo, guerrilheiros como as FARC, grupos paramilitares e traficantes.

Os pescadores, que sacam alimento das águas de Magdalena, encontram frequentemente partes de corpos humanos nas suas redes. "Quando tal acontece, o passo seguinte é procurar o resto do corpo." O que nem sempre é fácil, refere o fotógrafo colombiano. "Os corpos viajam quilómetros abaixo da superfície, durante muito tempo, e quando são encontrados já estão em avançado estado de decomposição." Os restos humanos são, então, retirados do leito do rio para as embarcações e são transportados até à margem, onde são limpos. Segue-se uma tentativa de identificação da vítima. "Por vezes, é possível saber de quem se trata. Sobra um anel, uma tatuagem que o rio não apagou." Em muitos casos, porém, não é possível atribuir uma identidade ao defunto. "Nesse caso, o corpo é transportado para uma parte específica do cemitério destinada a pessoas não-identificadas. Procede-se a um funeral e as pessoas são sepultadas, no interior de um caixão."

Quase todos os colombianos conheceram alguém que desapareceu ou tiveram, pelo menos, contacto com alguém que perdeu um amigo ou familiar para o conflito que marcou o país nos últimos 52 anos – foram perto de 200 mil as pessoas que perderam a vida nesse contexto. São, por isso, muitos aqueles que desejam encontrar, finalmente, o corpo de um filho, de um pai, de um amigo desaparecido. "Quando ninguém reclama um corpo não identificado, existe a possibilidade, para famílias que perderam alguém próximo na guerrilha, de 'adoptar' esse corpo, de lhe dar, simbolicamente, a identidade do 'seu' desaparecido." Aquele é um corpo de alguém que em potência poderá ser de alguém que conhecem. "Nunca se saberá a quem corresponde. Quando as famílias 'adoptam' um corpo desconhecido, fazem-no para saldar uma conta, um dolo pendente."

Os corpos que nunca são reclamados ou "adoptados" têm um destino diferente. "Ao cabo de alguns anos – entre dois a cinco – são retirados do jazigo. O caixão é aberto para que as aves terminem de 'limpar' o corpo, até que restem só os ossos." Esses são, no final, depositados numa vala comum para que outros corpos possam ocupar a anterior morada.

O fotógrafo colombiano, residente em Madrid, não se sentiu chocado ao documentar esta realidade. "Nestes lugares, onde há tantas mortes, onde a presença de violência é tão marcante, este tipo de prática normalizou-se. Tornou-se parte da cultura, da realidade, transformou-se num processo natural, quotidiano." Felipe testemunhou e documentou este ritual ao longo de três anos, o período que dedicou à realização do projecto Magdalena, que apresenta em Braga, ao abrigo do festival de fotografia Encontros da Imagem, até 31 de Outubro. "A maioria das pessoas, na Europa, não tem proximidade com este tipo de experiência, que é tão comum na Colômbia."

A pergunta que mais insistentemente se colocou foi "devo ou não mostrar?". Poderia ter, entre as imagens que compõem o fotolivro que lançou há dois meses, cenários chocantes, perturbadores, mas optou por não os revelar. "A ausência do corpo é parte importante desta narrativa. Estamos a falar de pessoas que desapareceram e que, sem identificação, continuam desaparecidas. O que me interessava documentar, na realidade, é o que ocorre perante a aparição de um corpo, perante a possibilidade de identificação de alguém que desapareceu; queria, sobretudo, captar as consequências visuais e culturais dessa ocorrência."

E documentar o rio. "O túmulo é um rio. O túmulo está em movimento." Esta é uma frase que acompanha as páginas do fotolivro Magdalena. Felipe assim decidiu por sentir que reflecte o seu interesse pelo papel dos rios nos conflitos humanos. "Encontro-me, de momento, a desenvolver um projecto mais amplo sobre os rios da América Latina e as suas conotações políticas", explica. Planeia, em Janeiro de 2021, viajar até ao México e fotografar a "grande tensão migratória" do Rio Grande, que delimita a fronteira do México com os Estados Unidos. "Muitos mexicanos tentam cruzar este rio a nado e acabam por se afogar", refere. Os rios são, por isso, a seu ver, "um símbolo muito poderoso da América Latina". "Um símbolo de vida, de trânsito, transporte, tensão, violência, morte."

©Felipe Romero Beltrán
©Felipe Romero Beltrán
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