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Uma viagem ao interior da mente de Roger (Ballen), “a ratazana”

Roger, a ratazana, vive à margem da sociedade. "Sou julgado por ser louco, sou temido e evitado a todo o custo. Simbolizo o caos e a desordem.Roger the Rat, uma espécie de álbum fotográfico de memórias de um inadaptado, é o mais recente livro lançado pelo fotógrafo norte-americano Roger Ballen.

©Roger Ballen
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©Roger Ballen

O fotógrafo Roger Ballen não se lembra da primeira vez que colocou a sua máscara de ratazana. Na introdução do seu mais recente fotolivro, Roger the Rat, o norte-americano residente em Joanesburgo, África do Sul, refere que "talvez tenha nascido com ela". Nunca a tira. "Durmo com ela, tomo banho com ela. (...) Não sei se sou uma ratazana ou um ser humano." As primeiras páginas do livro são dedicadas à narrativa do quotidiano de Roger, a ratazana, que é uma espécie de alter-ego do autor e reflecte, apenas e só, o seu mundo interior.

Ballen acredita que a ratazana é o animal mais inteligente do planeta, tendo em conta o tamanho do seu cérebro. "Consegue sobreviver em qualquer lugar, adaptar-se a todos os ambientes e reproduzir-se com sucesso." Mas, ressalva, numa curta entrevista dada ao P3, por email, que, "para muitas pessoas da sociedade ocidental, a ratazana representa o mal, a sujidade, a doença". "Representa a falência de ordem, é uma metáfora da escuridão." O significado que lhe é atribuido é, no entanto, algo injusto. "A ratazana é só mais um animal, faz parte da natureza. Não há nada de errado com ela. Ela é inocente; pode ser vista como um dos muitos filhos de Deus."

A biografia da ratanaza é sombria, violenta. Rejeitada em tenra idade, a protagonista encontrou casa nos subterrâneos da cidade. Creceu num lugar sem janelas, sem luz, sem endereço oficial, sobrevivendo da recolha do lixo deixado para trás por seres humanos – por quem não sente qualquer compaixão. "Não tenho consciência no que toca a seres humanos. E porque deveria ter? O que é que os humanos fizeram por mim?" A aversão (recíproca) que sentia por eles, humanos, fez Roger, a ratazana, aproximar-se de animais semelhantes a si; mas rapidamente se cansou delas, tornando-se um solitário. O seu aborrecimento e a necessidade de encontrar, para si, uma mulher, conduziu-o à recolha de manequins de forma humana nos caixotes do lixo das lojas de roupa da sua cidade. "São incrivelmente bonitos, perfeitos. Podia vesti-los, falar com eles, partilhar o que sentia."

Mas cedo se tornou demasiado "protector" das suas namoradas manequins, de quem tomava conta "com carinho". "Fiz questão de mostrar aos manequins masculinos [que também recolhia] quem mandava em minha casa. Não iria tolerar tolices, especialmente tentativas de sedução das minhas amigas." Roger esperava obediência. Com o tempo, desejou ter filhos com as amigas manequins, o que o precipitou para uma procura por crianças nos "cemitérios de manequins". Encontrou-os e trouxe-os para casa, mas o desejo de amor, comunicação, afecto, não se cumpriu. Ao invés, a frustração cresceu "com a falta de resposta da família". "Ressentia o facto de não me ajudarem nas minhas tarefas, de não trabalharem ou retribuirem o meu afecto. Recusavam-se a falar comigo e mantinham o silêncio, apesar da minha necessidade de socializar." A sua insatisfação transformou-se em ímpeto violento e sexual. Por vezes, "perdia o controlo e atacava violentamente os homens e, por vezes, até as mulheres que conviviam" com ele. São as cenas do quotidiano da ratazana, plenas de bizarria e violência, que enchem as páginas do fotolivro editado pela Hatje Cantz.

"Chamei a este projecto Roger the Rat porque, por detrás da máscara, vive a mente de Roger Ballen", explica ao P3 o fotógrafo. "A intenção expressa nas minhas imagens não é a de criar imagens que espelhem o mundo que conhecemos, mas sim que externalizem o meu mundo interior. O espectador observa, assim, dois fenómenos distintos: a realidade de Roger Ballen e aquela que a câmara reproduziu."

As imagens não carregam, garante o autor, qualquer mensagem política ou análise societal, embora Roger, a ratazana, conclua assim o seu discurso: "Mesmo como uma criatura sem educação, é claro para mim que a vida humana e não humana neste planeta é dominada por violência e que seria ingénuo pensar de outra forma. A normalidade tem de ser preservada a qualquer preço. Eu sou um excluído, vivo à margem e não encontro lugar nas sociedades humanas. Sou julgado por ser louco, sou temido e evitado a todo o curso. A maioria dos humanos odeia pessoas, tal como eu, mas nós [ratazanas] desafiamos a sua ilusão de estabilidade e propósito. Eu simbolizo o caos e a desordem. Há pouca esperança num mundo melhor até que a humanidade aceite o desagradável facto de que a repressão e o medo são, derradeiramente, os donos do seu destino."

©Roger Ballen
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©Roger Ballen
©Roger Ballen
Capa do fotolivro "Roger The Rat", editado pela Hatje Cantz
Capa do fotolivro "Roger The Rat", editado pela Hatje Cantz
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