Reportagem

Miguel Vieira encerra o segundo dia do Portugal Fashion com três cocktails

Uma viagem ao processo de uma sessão fotográfica, uma ode à moda para todos os tipos de corpos, uma Primavera que virá tão sensível como sombria e uma apresentação que acabou com três brindes: foi assim o segundo dia na Alfândega do Porto.

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No segundo dia do Portugal Fashion, nesta sexta-feira, já não ficaram tantas cadeiras por sentar. A afluência à Alfândega do Porto foi maior do que no primeiro dia, especialmente para assistir à apresentação de Miguel Vieira. Nesta edição, não deixam de surgir alternativas aos desfiles convencionais, motivadas pela readaptação do evento ao limite de convidados e ao distanciamento social. Susana Bettencourt abriu as portas às sessões fotográficas, Inês Torcato passou um vídeo musical que celebra as peças em diferentes tipos de corpos e Miguel Vieira presenteou os espectadores com três cocktails condizentes com as suas linhas. Já Alexandra Oliveira, da marca Pé de Chumbo, seguiu com um desfile tradicional na ampla sala do arquivo.

O momento mais aguardado do dia chegou com 20 minutos de atraso. De sala cheia, com a devida etiqueta de distanciamento que os tempos pedem, Miguel Vieira coloriu a noite de três cores pastel: rosa, azul e castanho. A cada cor correspondiam três cocktails, “Pink Garden”, “Capri Blue” e “Biscuit Brown” respectivamente, frutos de uma parceria com o Vogue Café e distribuídos pela sala a cada apresentação.

A parceria, feita através do Portugal Fashion, foi bidireccional: Miguel Viera fará parte, temporariamente, do menu do restaurante com as três bebidas “que fazem pendant com três cores fortes da colecção”. Com o apoio de uma barwoman seleccionou a combinação de ingredientes que daria a melhor correspondência de tonalidade com a linha, sem esquecer a importância do sabor.

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O designer destaca o “glamour muito especial” da moda, que reinava quando começou. “A recepção dos convites em casa, a chegada dos convidados ao desfile, as pessoas preocuparem-se com a indumentária para vir ver o desfile e o contacto físico com os maquilhadores, cabeleireiros e manequins.” Tudo peculiaridades do evento que, lamenta, já não poderem ser experienciadas. “Para mim, a moda tem a ver com toda esta mise-en-scène e todo este glamour que engloba o desfile”, confessa. Em contraste, realça o trabalho acrescido na realização e produção de um vídeo, além de que “é uma coisa mais impessoal”. Sonha que, em pouco tempo os desfiles regressem. “Foi isso que me fez entrar na moda e é disso que eu gosto. Sinto falta de haver palmas, sinto falta de ver os telemóveis a filmar o desfile.”

O confinamento em casa não despertou a vontade de desenhar, mas sim de “refazer a parte de modelagem” da colecção que “já estava pronta”, explica o criador. A finalidade era “as mulheres poderem usar peças de homem e os homens usarem peças de mulher”. Sente-se feliz por saber que “um casaco de homem assenta bem numa mulher, e vice-versa”. Quebrando as barreiras de género, tem vindo a focar o assunto nas suas colecções, com “homens com as unhas pintadas ou um pouco de maquilhagem, não perdendo a sua masculinidade, nem entrando em exibicionismo”.

Miguel Vieira é apologista da qualidade versus quantidade. “Prefiro um pulôver de caxemira do que dez de poliéster”, explica, e as multimarcas com quem trabalha “estão muito habituadas a este tipo de situação”. Como tal, em retrospectiva, não vê um impacto da pandemia “tão aterrador como imaginava”. À excepção de algumas peças mais festivas, não teve grandes quebras de venda, partilha.

Susana Bettencourt diz não às convenções​

Foram a azáfama citadina e “a correria em que temos sido obrigados a viver nos últimos anos”, com os seus contrastes cromáticos estridentes, que inspiraram Susana Bettencourt a criar a colecção apresentada. Desta vez, não foi um desfile, nem uma apresentação digital, a designer levou o seu atelier para a Igreja do Neya Porto Hotel, mostrando aos espectadores o trabalho da sua equipa.

A artista levantou, assim, a cortina para o que acontece por detrás de cada peça, com sessões fotográficas e styling, numa ode ao trabalho de bastidores. “A nossa transparência não pode ser só a mostrar o processo das peças, tem de estar no caminho todo”, justifica, acrescentando: “Eu queria que as pessoas entendessem a quantidade de profissionais necessários para aquilo que depois se vê no ecrã, porque é [um processo que é] desvalorizado.” 

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Susana Bettencourt vive num “equívoco interior” causado pelo “choque entre o coração de artesã e o mundo digital”. A chegada do vírus agravou esta relação ao exigir que se adaptasse quando sentiu a necessidade de criar conteúdo e fotografia, “algo para ir comunicando”. A colecção estava pronta, mas teve “o problema de não estar preparada para o confinamento, sem conteúdo suficiente para promover a loja online”, explica. Assim, o objectivo passou a ser “ter feedback directo” para melhorar as suas peças.

Ao PÚBLICO, a criadora conta que já há um ano tinha decidido desligar-se das convenções da moda de autor e seguir o seu próprio caminho. Por isso, apostou no conceito “one collection, one year”, abdicando das clássicas duas colecções por ano. Chama-lhe uma troca de estratégia: “Não vou seguir a correria e a obrigação que me estão a dar, vou criar o meu próprio espaço.” Este ano, com a pandemia, foi uma questão de “relaxar e assumir a posição”. Em Março apresentou, então, uma colecção de moda de autor, “Overload”, que não está vinculada a uma estação e “reflecte a experimentação” da marca. Agora, traz a sua colecção Outono/Inverno 20/21 divulgada em simultâneo no Portugal Fashion e no website, sendo que até ao Natal serão lançadas as várias peças da colecção.

A criadora sentiu mais impacto da pandemia na empresa, do que na marca. “Nós tínhamos feito feiras internacionais em Março, em que as encomendas não foram confirmadas. Aí foi uma grande quebra porque normalmente temos o arcaboiço das encomendas de multimarcas para nos assegurar pelo menos parte da produção”, descreve.

Designer de causas, Susana não poderia deixar de marcar a sua posição este ano ao falar de sustentabilidade e minimalismo. “Temos de começar a consumir menos e com mais critério”, prossegue. Como tal, limitou a produção, exigindo um planeamento prévio para cada peça. “É um risco de stock, mas ao mesmo tempo é uma edição limitada”, sublinha. A colecção de Verão também já está pronta, mas “escondida”, brinca.

Inês Torcato defende os corpos “normais”​

A apresentação de Inês Torcato consistiu no lançamento de uma nova marca comercial, a par com a moda de autor. A designer pretende “trabalhar todas as estações” para “celebrar a igualdade e as diferenças entre as pessoas”, explica. O mais importante na moda é a acessibilidade, “é toda gente poder vestir aquelas peças”. Assim, utilizou o seu momento neste evento de moda para projectar um vídeo de uma banda a tocar, vestida com as suas criações. Uma banda de “pessoas normais”, em vez de modelos. Na Alfândega do Porto, presencialmente, desfilaram apenas sete modelos. 

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A criadora já tinha idealizado fazer algo em formato digital, pois “já que ia ser uma edição sem público, fazia sentido a apresentação ser diferente”. Além disso, alerta para a responsabilidade que lhe cabe de “limitar o contacto entre pessoas”, nomeadamente na sua equipa. No entanto, não deixa de notar que “é muito estranho estar aqui sem o público, e os bastidores estarem com tão pouca gente”. Brinca que, sem a confusão característica dos bastidores, “parece que não se passa nada e ninguém está a trabalhar”.

Há algum tempo que Inês Torcato pensava ter um vertente mais comercial. Durante a quarentena, ficou sem os trabalhos de freelancer, “uma grande parte do rendimento”, focando-se apenas na marca. “No aborrecimento, decidi comprar roupa online, e aí é que senti as dificuldades e percebi que seria um bom momento para criar esta marca, porque notei que havia falhas no mercado”, explica, enumerando-as: a roupa é vestida apenas por modelos, e não há discriminação das medidas de cada peça. “Eu não tenho corpo de modelo: tenho 1,62 cm e visto um 38. Portanto, para comprar roupa online, em qualquer site, era muito difícil”, partilha. “É essa parte que eu vou preencher com esta marca nova na loja online — é ter as peças fotografadas em vários corpos para criar alguma identificação com aquilo que estamos a ver.” Além disso, ambiciona poder mostrar as medidas personalizadas de cada peça, afastando-se das tabelas standard normalmente usadas.

Segundo a artista, as encomendas de peças por medida, que faz como freelancer, desapareceram. Para já, ainda nota “desconforto das pessoas em experimentar a roupa” na sua loja no Porto e, portanto, continuará a apostar na venda online, que cresceu à medida que a pandemia se alastrou.

Uma Primavera “sensível” mas “rude” pela Pé de Chumbo

​Para Alexandra Oliveira, criadora da marca Pé de Chumbo, o sentimento de realização após de desfile mantém-se, ainda que com menos espectadores. “É mais complicado, mas no fundo nos bastidores foi tudo igual: a emoção e o resultado foram os mesmos”, avalia. O desfile começou com a frescura de tons claros, rapidamente passou para uma explosão cromática de fios combinados, e terminou com o classicismo do preto. A renda predominou, “tinha muitas coisas em armazém que tinha de usar”, explica. O tema desta colecção contorna a pandemia, que não deixa de ser inspiração, numa alegoria primaveril. Chama-se “A Primavera volta sempre”, porque “vai voltar, mas vai ser muito diferente”. Assim, a criadora justifica as disparidades na sequência apresentada: “Temos uma parte mais sensível e uma parte mais rude, muito a retratar o que nós temos vivido.”

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A artista fala de estar na posição de “pensar sempre no futuro”, enquanto se tentam “arranjar soluções para o dia-a-dia”. Registou “uma quebra muito grande” nos mercados para onde vendia mais, como “os Estados Unidos e Itália, que fecharam completamente”. Também com as lojas se tornou complicado, “as pessoas não quiseram receber [a colecção de] Inverno e agora não querem comprar [a de] Verão.” 

No entanto, entre os desafios que a pandemia impôs, houve “sempre algo para fazer” com novas adaptações. Um delas passou pela reorientação da produção para o mercado hospitalar. “Produzimos material hospitalar, máscaras, certificámos algum material”, conta, explicando que mantém o design de autor mas que, como “está reduzido”, compensa com o que “vai surgindo”. “Eu tenho 20 senhoras comigo e tenho de lhes dar trabalho”, remata. 

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O segundo dia contou ainda com Maria Gambina, que apresentou a sua colecção no parque de estacionamento da Alfândega; e com as marcas Maria Meira, Unflower Brand e Rita Sá nos desfiles Bloom, as propostas dos jovens criadores. Como é habitual, deu-se também a apresentação Shoes + Bags, e ainda uma exposição de joalharia da marca Together We Stand, no Neya Porto Hotel. 

Texto editado por Bárbara Wong

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