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A crise dos refugiados: consequências do desinteresse

A coragem de um refugiado é imensurável. São pessoas que diante adversidades completamente externas a elas mesmas, de carácter político, bélico ou social, se vêem obrigadas a fugir das suas vidas, para ironicamente se salvarem e aos seus.

Actualmente, há mais de 26 milhões de refugiados espalhados por todo o mundo. Pessoas que, sujeitas a constantes perseguições e violações dos seus direitos, optam por abandonar tudo o que têm em busca da paz. Embora a deslocação forçada por qualquer contexto de guerra ou conflito seja uma realidade frequente desde a Segunda Guerra Mundial, a mais recente “crise dos refugiados”, de que tanto ouvimos falar, teve o seu pico em 2011, provocada pelo início da Guerra Civil na Síria. Ainda que o número total de refugiados não seja composto apenas por cidadãos sírios, estes representam metade do fluxo anual de deslocações deste género.

São mais de dez as emergências activas no planeta relacionadas com fugas abruptas de indivíduos dos seus países de origem, entre as quais as situações da Venezuela, Nigéria, Síria, Iraque, Sudão do Sul, etc. É, principalmente, nas últimas três enumerações que a Europa desempenha um papel fundamental, tanto de auxílio imediato como resolução do problema. Mas, apesar dos muitos progressos nas operações de salvamento, assistência e acolhimento de refugiados, ainda muito há a fazer, e embora se trate de uma crise mundial, é precisamente na resposta europeia que me pretendo focar.

De acordo com a Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR), é desde 2015 que a União Europeia (UE) conhece um afluxo sem precedentes de refugiados que fogem da guerra e da pobreza extrema, constatando-se assim como a maior crise humanitária desde as grandes guerras. Em tempos onde pessoas são deslocadas à força das suas casas a cada dois segundos, o trabalho das organizações não-governamentais nunca foi tão importante. Analisando a divisão e distribuição de refugiados pelos países pertencentes à UE, reconhecemos que este número é brutalmente desproporcional. Casos de países como a Grécia, a Turquia e a Itália, que recebem, em média, mais de cinco mil pessoas refugiadas por ano, apresentam um índice de fluxo de deslocação sobrecarregado, quando em comparação com a Hungria, Polónia e Eslováquia, que em 2016 pretendiam criar uma segunda fronteira na Europa que funcionasse como uma “linha de defesa”. A grande questão que se coloca é: “Queremos ser uma Europa que deixa morrer ou que salva?”.

A coragem de um refugiado é imensurável. São pessoas que diante adversidades completamente externas a elas mesmas, de carácter político, bélico ou social, se vêem obrigadas a fugir das suas vidas, para ironicamente se salvarem e aos seus. É claro que, para a maioria dos cidadãos europeus, declarações como “direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal” ou “ninguém será submetido a tortura nem a tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes” apresentam-se como premissas bastantes básicas e totalmente normais. Mas devemos sempre relembrar a sorte que temos por vivermos num ambiente de relativa paz e segurança, uma vez que os casos onde isso não é possível são bastantes e assustadoramente frequentes. Mas, se tomamos como garantidos e obrigatórios os direitos anteriormente referidos, nomeadamente artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, porque não o fazemos também com outros? “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”, diz o artigo número um da lista criada em 1948 pela Organização das Nações Unidas. Se somos seres suficientemente “sortudos” para usufruir de todas as liberdades das quais temos o direito, porque não pensar no dever que temos também em devolvê-las a quem foram roubadas.

Das mais de 70 milhões de pessoas que se encontram em situações de deslocação forçada ou do tipo, 37% são refugiados. Dentro desta percentagem, metade equivale a pessoas refugiadas que não atingiram a maioridade ainda (menores de 18 anos), ou seja, um em cada dois refugiados é uma criança ou adolescente. O único pensamento que somos capazes de formular ao ver uma estatística tão assustadora é talvez como teria sido a vida destas inocentes crianças se tivessem apenas nascido num país diferente, se tivessem tido a oportunidade de uma educação, se não soubessem em tão tenra idade o que é tentar sobreviver. Sei e sinto, quer por factos ou esperança, que estas crianças refugiadas, inocentes, infelizes e azarentas, dariam ao mundo tudo aquilo ou ainda mais do que este lhes tirou. Cresceriam para ser o que quisessem e tudo o que o futuro precisasse, mas em vez disso são apenas cargas que os pais carregam na jornada que percorrem até à paz.

A ninguém, em qualquer circunstância, deve ser negado de apoio, ajuda ou auxílio. Cabe a cada um de nós ajudar o outro, pois vivemos numa sociedade onde não somos capazes de controlar as adversidades, mas onde temos, ou deveríamos ter, a obrigação de agir em prol do bem-estar e felicidade de todos. Aos voluntários, defensores dos Direitos Humanos, migrantes, refugidos e, principalmente, a todas as crianças que se enquadrem na descrição, génios de quem este mundo teria tanto a receber, obrigada por serem fontes de sonhos, possibilidades e acções. Que nunca se perca a esperança.

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