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Conto

Não há altruísmo possível

Também considerava todas as acções egoístas, mesmo quando se fazia bem a alguém, o próprio beneficiava sempre. A bondade parecia-lhe inevitavelmente um investimento com lucro. Um cobertor em troca de uma boa consciência.

“Estamos sempre interessados em nós próprios. Não há altruísmo possível”, pensou a mulher, enquanto tirava do saco de plástico um cobertor para dar ao sem-abrigo. O rapaz tinha o cabelo empastado em sebo e cheirava mal. Tentou disfarçar a repugnância que os cheiros lhe provocavam e entregou-lhe em mãos um cobertor que estava há várias décadas na família sem ter uso, e que agora serviria para aquecer o rapaz, que agradeceu com um sorriso humilde. Pôde ver-lhe os dentes da frente tortos e podres, mas ainda assim parecia manter a dentição completa. O rapaz fazia lar do patamar exterior da entrada de um prédio abandonado, perto do seu, com apenas um cartão rectangular estendido no chão e alguns sacos de plástico; era tudo. “Tão jovem e a viver desta maneira”, pensou. Todavia, não queria saber profundamente, o conhecimento superficial já a perturbava o bastante. Estava a fazer a sua parte. Dera-lhe um bom cobertor, depois do rapaz a ter abordado à sua passagem.

– Tenho frio. Por acaso não tem um cobertor?

Não hesitou. Foi a casa e voltou com o cobertor quente dentro de um saco. Ainda lhe perguntara se queria algo para comer. O rapaz respondera-lhe que não, que a associação lhe dava comida, obrigada pela preocupação e pelo cobertor. Não esperou para vê-lo deitar-se e tapar-se com o cobertor. Tal visão iria parecer-lhe obscena. Voltou para a sua casa confortável e quente, com todos os confortos, não lhe faltava nada. Sentiu-se bem consigo própria. Tinha feito algo bom. Ajudara alguém. Encomendou uma refeição e esperou que a viessem trazer. Pensou que não há altruísmo possível. Que estamos sempre interessados em nós próprios. Lembrou-se das frases de Nietzsche, que sabia de cor. “Toda a acção é egoísta. Palavras como ‘instinto altruísta’ tocam aos meus ouvidos como machadadas.” Concordava com o filósofo alemão. O ser humano não era talhado para o altruísmo, para a bondade. Também considerava todas as acções egoístas, mesmo quando se fazia bem a alguém, o próprio beneficiava sempre. A bondade parecia-lhe inevitavelmente um investimento com lucro. Um cobertor em troca de uma boa consciência. Mesmo que essa consciência limpa durasse apenas uns momentos. Depois, a comida chegou a fumegar. A sopa cheirava bem. Não pensou mais no assunto.

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