Assim fala a “doutora Fosfina”

Falámos com a astroquímica Clara Sousa e Silva sobre sinais químicos de vida extraterrestre. Falámos ainda da vida extraterrestre como mito e tema de ficção científica. Poderá haver vida inteligente fora da Terra? E por que razão tanta gente acredita em discos voadores?

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Clara Sousa Silva Melanie Gonick

Na terceira edição do “Assim Fala a Ciência”, um novo podcast do PÚBLICO, com o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos e co-organizado por mim e pelo bioquímico e divulgador de ciência David Marçal, falei com Clara Sousa Silva, uma jovem investigadora em astroquímica da Universidade de Boston, nos Estados Unidos. Também já esteve no “clube vizinho”, o Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT). Ela doutorou-se no University College de Londres, onde estudou os espectros, isto é, retratos físico-químicos, das fosfinas, ou hidretos de fósforo (PH3), substâncias particularmente mal-cheirosas.

A Clara, que faz parte da diáspora de cientistas portugueses no mundo (reunidos na rede GPS, Global Portuguese Scientists), integrou uma equipa do MIT e da Universidade de Cardiff que em Setembro passado anunciou a presença de fosfinas na atmosfera de Vénus, o que poderia ser um indício de existência de vida nesse planeta. A investigadora é também uma exímia comunicadora de ciência, ajudando jovens a perceber a investigação em astrofísica e promovendo uma maior participação feminina na ciência.

Falei, portanto, com uma especialista em sinais de vida extraterrestre, um tema apaixonante para os terrestres. Ela explicou-me como se interessou pelas fosfinas e em que consiste a sua investigação com essa substância química. Segundo as conclusões do seu artigo, ou há bactérias em Vénus que as produzem ou não sabemos o suficiente de química. Procurei saber para que lado desse dilema ela se inclinava: foi bastante cautelosa, pois a ciência precisa sempre de confirmação. Fez bem pois, já depois da entrevista, foi divulgado por um grupo de astrónomos de Leiden e por um outro grupo da NASA e da Universidade de Berkeley que aqueles resultados podem estar errados, devido a falhas na calibração do radiotelescópio ALMA, do Observatório Europeu do Sul, no Chile. A ciência é mesmo assim, feita de avanços e recuos. A equipa de Clara Sousa Silva está a reanalisar os dados do seu estudo e ainda não se pronunciou.

Mas a conversa foi muito além da fosfina. Falámos de Carl Sagan e de outros cientistas que se interessaram pela vida na alta atmosfera de Vénus, uma vez que a sua superfície é hoje um verdadeiro inferno. Perguntei-lhe se valeria a pena enviar novas sondas para esse planeta “irmão” da Terra. Perguntei-lhe o que pensava sobre a tese da origem extraterrestre da vida na Terra (tese da panspermia) e sobre a eventual existência de vida extraterrestre com um código genético diferente (todos os seres vivos conhecidos partilham o mesmo, apesar da sua diversidade, por terem uma origem comum).

Tentando combater a desinformação, falámos ainda da vida extraterrestre, como mito e tema de ficção científica. Poderá haver vida inteligente fora da Terra? E por que razão tanta gente acredita em discos voadores?

Por último, interroguei-a sobre a sua ânsia por comunicar ciência aos mais jovens. Ela respondeu-me que é possível envolver alunos do ensino secundário em ciência de ponta. Disse-me que eles podem viver a aventura da ciência: cheia de dúvidas, mas também cheia de esperança de as desfazer.

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Professor de física da Universidade de Coimbra