Prevenir é garantir anos de vida

“Mais Prevenção, Mais anos de vida”. O título é sugestivo e serviu de mote para o webinar organizado pelo Público, em parceria com a Multicare, no passado dia 5 de novembro. Durante quase duas horas, um conjunto de especialistas debateu a temática e respondeu a algumas perguntas colocadas pelos leitores.

Afinal, não queremos viver todos mais anos? E com qualidade de vida? A partir de que momento começamos a pensar na longevidade? E que medidas tomamos para prevenir doenças? Como podemos então definir a prevenção? Com moderação da jornalista Cláudia Pinto, o painel de oradores deixou mensagens relevantes ao nível da prevenção de doenças e promoção da saúde. Este foi o primeiro de dois webinares realizados pelo Público em parceria com a Multicare, para o qual foram convidados especialistas de excelência em diferentes áreas de saber. Ana João Sepúlveda, directora geral do 40+Lab; Rui Nogueira, médico de família na USF Norton de Matos e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar; Ana Rita Gomes, directora de Desenvolvimento de Negócios da Multicare e Joana Sousa, nutricionista e membro da direcção da Ordem dos Nutricionistas.

Ter estilos de vida saudáveis, não fumar, combater o sedentarismo, optar pela dieta mediterrânica, aconselhar-se com o seu médico assistente, fazer os exames complementares de diagnóstico que o mesmo lhe recomende, escolher as melhores opções no seu dia a dia, desde a alimentação ao exercício físico são desafios emergentes que se intensificam num ano de pandemia. Neste debate falou-se também da importância da vacinação e das escolhas que fazemos para uma longevidade com maior qualidade de vida sendo ainda destacado o papel da tecnologia e das novas plataformas digitais para dar resposta à pandemia de Covid-19.

Rui Nogueira, médico de família na USF Norton de Matos e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) socorreu-se do provérbio “Mais vale prevenir do que remediar” para iniciar o webinar e acrescentou que “todas as atitudes preventivas são mais fáceis do que remediar”. Assim, prevenir é essencial para ser mais fácil tratar, para ter melhor prognóstico e a prevenção diminui a necessidade de tratamentos mais agressivos e invasivos. “Temos de ter uma constante atitude preventiva no sentido de vivermos melhor. Esta é uma atitude de sempre, universal e todas as pessoas preferem evitar ficar doentes”, explicou o médico. Como exemplos práticos, o médico referiu que “é mais fácil diagnosticar precocemente o cancro do intestino do que tratar. Mas também é mais fácil deixar de fumar do que ter cancro do pulmão”. Rui Nogueira considera que esta é a maior atitude preventiva – entre muitas outras – porque está relacionada a várias consequências.

O médico de família falou ainda dos factores não modificáveis como a idade e aqueles que não dependem da nossa intervenção, ao contrário dos estilos de vida saudáveis, como por exemplo, a prática de exercício físico e não fumar. “Temos que dar vida aos anos, mas sermos saudáveis. Só assim valerá a pena”, defendeu.

Dentro dos hábitos que contribuem para uma maior saúde, a alimentação tem um papel preponderante. Joana Sousa, nutricionista e vogal da Direcção da Ordem dos Nutricionistas começou por afirmar que “os hábitos alimentares são aqueles que estão dentro dos factores de risco que mais contribuem para a perda de anos de vida saudável”. Pensando numa perspectiva de mortalidade, os hábitos alimentares assumem um papel de maior destaque, segundo o Relatório do Programa Nacional para a Alimentação Saudável que a oradora citou. “Ao incutirmos um comportamento alimentar ajustado estamos a ganhar anos de vida saudável. Se tentarmos perceber onde é que a alimentação mais interfere vamos referir-nos às principais causas de morte a nível mundial: cancro, doença cardiovascular, diabetes e doença renal”, afirmou.

Para os nutricionistas, o grande desafio advém do acréscimo de informação sobre este tema. “Hoje em dia, com todos os canais de partilha e de comunicação que temos, todos sabem sobre alimentação e acham que podem contribuir com alguma informação neste contexto e a verdade é que caímos no risco da desinformação.” E como se combate isso? Na opinião de Joana Sousa, é preciso que as pessoas saibam filtrar a informação e tenham um acesso directo àquilo que são cuidados de saúde primários no contexto da nutrição mas chamou à atenção para a quantidade mínima de nutricionistas existentes nos cuidados de saúde primários. “É impossível querer apostar na literacia alimentar da população portuguesa sem que os profissionais de nutrição com competência para tal estejam próximos da população”, acrescentou.

A também professora da Faculdade de Medicina de Lisboa abordou ainda a escassez da existência destes profissionais nas autarquias [mais de 80% de autarquias a nível nacional não tem apoio nutricional] e no contexto escolar. “As crianças são o espelho da família e se elas crescem num ambiente não salutogénico, esse é o ambiente que é normal para elas, não vêm como algo que não é adaptado àquilo que é o ideal porque é o seu contexto. Se eu coabito numa família que tendencialmente se caracteriza para um comportamento alimentar desajustado e com tendência para um aumento ponderal, a verdade é que aquilo é o normal para ela e tem de se saber trabalhar.” Assim, a família e a escola acabam por ter um papel essencial neste desafio. “Quanto mais precoce for esta intervenção mais ganhos em saúde vamos ter”, adiantou, chamando à atenção para números preocupantes, como por exemplo, o de que “mais de 50% de crianças e adolescentes consomem refrigerantes diariamente, o equivalente a três quilos de açúcar por ano”.

Como pensar na longevidade?

Ana Sepúvelda, socióloga, directora geral do 40+Lab e presidente da associação Age Friendly Portugal tem estudado o tema da Economia da Longevidade e trouxe ao webinar a perspectiva de que a partir dos 40 anos, todos tomamos consciência de que estamos a entrar noutra fase da nossa vida. “A nível individual existem dois factores de promoção da longevidade: um relacionado com o corpo (alimentação e exercício físico) e, outro, com a mente (saúde mental, capacidade de gestão de sentimentos, entre outros)”, afirmou. Para a oradora, a longevidade vai sendo cada vez mais entendida como “um activo financeiro”.

Rita Gomes, directora de Desenvolvimento de Negócios da Multicare referiu que a aposta na inovação tem sido uma premissa da seguradora desde há alguns anos. “Desde 2009 que disponibilizamos um check-up sem custos adicionais para o cliente; em 2016 fomos a primeira empresa a lançar uma plataforma de telemedicina com médicos disponíveis 24 horas, sete dias por semana e com serviços ligados aos estilos de vida.” Reforçando o facto de haver uma maior esperança média de vida, Rita Gomes divulgou a mais recente novidade, o programa Multicare Vitality, que é exclusivo em Portugal em que os clientes que tenham mais hábitos de vida saudáveis podem receber até 280 euros em vouchers e até 15% no desconto do prémio da seguradora. “Esses benefícios podem ser de cariz semanal ou mensal e o desconto do prémio, anual.” Com base em questionários de saúde, o programa materializa-se numa aplicação que confere metas aos utilizadores, desafiando-os para a prática de exercício físico e dando sugestões no que respeita a hábitos de vida saudáveis. “Os clientes podem registar os seus passos e o seu ritmo cardíaco e ao cumprirem metas semanais, recebem FidCoins que podem trocar por vouchers dos nossos parceiros.”

A utilização deste programa que conta com mais de 20 anos de experiência tem demonstrado ser eficaz na alteração de comportamentos e na melhoria da qualidade de vida. “Esta App está presente em mais de 25 países e conta com 20 milhões de utilizadores, mas onde existe mais histórico para se conseguir medir os benefícios é na África do Sul e no Reino Unido. Percebeu-se que os participantes deste programa Vitality fazem mais 50% de actividade física em cinco anos, morrem menos e têm menos de 10% de episódios de internamentos”, partilhou Rita Gomes, indicando que, quem participa vê, de facto, as suas vidas mudadas através deste programa.

Desafios actuais

O médico Rui Nogueira apontou três motivos essenciais para a prescrição de exames complementares de diagnóstico: se existem dúvidas em relação a um diagnóstico (dúvida clínica), perante uma doença já determinada e em que é preciso fazer a vigilância adequada e, em alguns casos muito específicos e muito bem definidos (como por exemplo, pessoas com determinado risco para desenvolver uma doença) em que é útil solicitar um exame. Como exemplo, destacou o cancro da mama. “Uma em cada dez mulheres tem, teve ou vai ter cancro da mama e sabemos que a faixa etária onde é mais provável o seu aparecimento situa-se entre os 50 e os 70 anos. Sabemos também que se se fizerem mamografias de dois em dois anos e se associarmos, em muitas mulheres, dependendo do critério, uma ecografia mamária, conseguimos reduzir a complicação da doença porque conseguimos detectá-la numa fase mais precoce e de ter sucesso no tratamento.” O presidente da APMGF sublinhou o facto de “a grande maioria das mulheres que têm cancro da mama têm a doença trata e até curada porque beneficiaram deste rastreio precoce”.

Rui Nogueira chamou ainda à atenção para outros rastreios oncológicos de base populacional muito importantes, mas ressalvando que a indicação para a sua realização depende sempre de uma avaliação clínica prévia por parte do médico assistente. Relativamente à relevância da vacinação, o médico destacou a sua enorme utilidade. “Nós evitamos muitas doenças graves devido à possibilidade que temos de vacinar. A maior parte das vacinas tem também o efeito de imunidade de grupo. É muitíssimo importante vacinar as crianças nos primeiros dois anos de vida”, referiu, confessando o receio do atraso em algumas vacinas devido à pandemia de Covid-19 e que poderão ser responsáveis por alguns surtos de doenças, nomeadamente, a tosse convulsa, o sarampo ou a difteria. “Há apenas uma vacina que é apenas de imunidade pessoal e que é a do tétano, mas todas as outras têm interesse para o próprio e para a comunidade. Portugal tem dos melhores Programas Nacionais de Vacinação do mundo. Temos taxas elevadíssimas de vacinação e felizmente ainda não chegou a moda a Portugal de não vacinar”, sublinhou.

Quando relacionamos a longevidade e a economia, o principal benefício desta associação é individual. “Ao termos mais de metade da população com mais de 40 anos, aumenta a necessidade de aposta no bem-estar e a sensação de auto-estima”, referiu Ana Sepúlveda. A grande mudança que o conceito de longevidade nos traz é que nunca é tarde para a grande maioria das coisas e que a idade não é um impeditivo para novas experiências.

Novos tempos, novas exigências

No que respeita especificamente à pandemia de Covid-19, a Multicare teve novos desafios a enfrentar. “Tivemos de ser muito flexíveis e ter o dinamismo para arranjar novas soluções. A primeira reflexão que foi preciso fazer foi acerca do que iríamos cobrir uma vez que as cláusulas contratuais de seguros não incluem as pandemias”, explicou Rita Gomes. A Multicare fez um acordo com alguns hospitais privados e começou por financiar o tratamento de doentes de Covid-19 que não optassem pelo Serviço Nacional de Saúde. “Agilizámos alguns processos e diminuímos a carga administrativa. Houve também uma redução brutal de consultas e cirurgias programadas, pelo que ajustámos os tempos de pagamento aos hospitais.” Para os clientes, a seguradora tinha apostado há já muito tempo na telemedicina, mas houve meses em que a procura duplicou e triplicou no que respeita a novos pedidos. “Foi ainda lançado um questionário de sintomas (symptom checker) e a entrega de medicamentos ao domicílio, ambos gratuitos”, destacou a diretora de Desenvolvimento de Negócios.

No final, Ana Sepúvelda despediu-se com a mensagem de que é cada vez mais necessária a gestão de saúde emocional. “Há um relatório do Banco Mundial [anterior ao começo da pandemia [que aponta a inteligência emocional como um dos factores críticos para uma pessoa ser bem-sucedida no mundo do trabalho, no futuro”, referiu.

Joana Sousa concluiu aconselhando os leitores que assistiram ao webinar a evitar alguns dos erros alimentares identificados durante esta conversa. “Há que ter o cuidado de não fazer mais de quatro a cinco refeições por semana de carne vermelha, de consumirmos idealmente duas a três porções de fruta diariamente e tentarmos ter o cuidado de acompanhar o nosso plano de refeições semanal com leguminosas que pode ser na sopa ou no prato a acompanhar”, rematou.

Rui Nogueira chamou ainda à atenção para a necessidade de lidar com o frio. “Este ano, temos ainda de ter  ainda mais cuidado para não nos deixarmos apanhar pela gripe. Nesta altura de expansão de uma pandemia que não está controlada, com um vírus que está em roda livre na comunidade, temos de ser muito criteriosos e conscientes em relação aos três meses de frio que ainda temos pela frente”, concluiu.

Fique atento ao Público pois anunciaremos em breve a data de transmissão em directo do segundo webinar organizado em parceria com a Multicare e que será dedicado ao tema da imunidade.

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