Adam Niescioruk/Unsplash
Foto
Adam Niescioruk/Unsplash

Megafone

Dois anos

Foi só um ano que perdemos? Vamos esquecer que a nossa vida ficou suspensa como uma marioneta inerte no ar? Um ano em que uma coisa tão importante como o toque, o carinho e o afecto foram vistas como pecados capitais por um bem maior?

Estamos cheios de esperança. Olhos postos em 2021 como se, magicamente, na noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro tudo fosse mudar. A pandemia, as máscaras, o álcool gel desaparecem e a distância entre nós estreita-se. A partir de dia 1 não vamos conter-nos nos abraços, nem ter medo dos beijinhos. Mesmo os beijinhos daquela tia que antes nos faziam confusão. Agora vamos ser nós a correr para os braços da tia prontos a ser lambuzados. Também vamos sair disto pessoas melhores, é o que dizem. Mais humanas, com o olhar posto na desigualdade. E este medo, este medo que nos percorre a todos sempre que ouvimos falar em mais despedimentos, em mais uma crise, em menos apoios sociais... Esse medo também vai desaparecer.

Já para nem falar do que vai ser o regresso livre a restaurantes agora na corda bamba, nem na loucura dos fins-de-semana. Os loucos anos 20 de volta e toda a gente a beber, a dançar, a falar com estranhos nas casas de banhos das discotecas, batons a voar entre bocas no meio de elogios sinceros que uma vodka a mais propiciou.

Sim, vai ser tudo diferente. Tudo o que este ano nos roubou, 2021 vai dar-nos a dobrar. Mais amigos, mais família, mais copos de fim de tarde, mais trabalho, menos sufoco financeiro...

Mas foi só um ano que perdemos? Vamos esquecer que a nossa vida ficou suspensa como uma marioneta inerte no ar? Um ano em que uma coisa tão importante como o toque, o carinho e o afecto foram vistas como pecados capitais por um bem maior?

Com as fronteiras praticamente fechadas ou com condições impossibilitantes, muitos emigrantes não puderam vir a casa. Muitos imigrantes não puderam ir às suas casas. E se dúvidas houvesse, o próprio primeiro-ministro desaconselhou o regresso dos emigrantes em Agosto último. E tudo bem, entende-se que não se queira andar a espalhar um vírus tão mortal em aviões, barcos, autocarros, comboios. É o bem maior, o bem comum. Atafulhamos o que sentimos em pão caseiro, vinho e lives do Instagram e fica tudo bem, porque vamos ficar todos bem.

Mas e o que é que fazemos com as saudades que temos das pessoas? E o que é que fazemos ao vermos os nossos filhos, irmãos, netos, sobrinhos crescerem, muitas vezes do outro lado do mundo, habituados a verem-nos através de um ecrã como se fôssemos o último lançamento do Netflix? Não foi um ano. Não foi só 2020. Não vejo uma parte da minha família desde 2109 e só voltarei a vê-los (se acreditarmos que dia 1 de Janeiro tudo volta ao antigo normal, claro), em 2021. As minhas duas sobrinhas, que crescem à velocidade da luz, mal me reconhecem. A mais nova, da última vez que lhe senti o calor da pele ainda não andava. Hoje já anda, fala, tem ideias e uma personalidade a desenvolver-se. E, para ela, eu sou a titi que, de vez em quando, aparece no telemóvel.

Portanto, não foi um ano. O novo coronavírus roubou-me mais do que tempo. Roubou-me mais do que trabalho. Roubou-me a minha família, os almoços de Verão em que se condensava um ano inteiro, roubou-me os mimos e as brincadeiras que ia fazer com as minhas sobrinhas, as confidências trocadas com a minha irmã e até uma banal ida às compras. O que me deu foi um nó no peito de saudades. Dois anos. Dois anos de nó no peito, dois anos sem tocar as pessoas que me são mais importantes e um outro tanto sem poder ver mesmo quem esteja mais próximo. Pode ser só uma diferença de concelho, mas podia ser o oceano todo, tal é a distância.

Dia 31 vou engolir as passas todas sem mastigar. Doze passas, com um desejo único: que sejam só dois anos.

Sugerir correcção