Marta Temido em entrevista. Ainda há mais de meio milhão de vacinas da gripe para administrar

Marta Temido sublinha que devem ser vacinadas contra a gripe as pessoas elegíveis e que Portugal conseguiu comprar mais vacinas do que países como a República Checa e a Suécia, que têm a mesma população. A entrevista é emitida na Rádio Renascença às 23h desta quinta-feira.

A vacina para a covid-19 parece ser uma realidade cada vez mais próxima. Espanha e Alemanha já têm a logística montada. E nós em que fase estamos?
Temos uma task force, uma equipa que tem como missão a entrega de um plano para a vacinação contra a covid-19 em Portugal e que vai reunir-se. Temos neste momento a produzir trabalhos para integrar esse plano a DGS, com a componente estratégia vacinal, ou seja, populações alvo, grupos prioritários, condições de administração. Gostava de sublinhar que as vacinas que vamos ter provavelmente são distintas, têm populações alvo distintas e isso tem de ser considerado.

Temos depois uma dimensão que vamos integrar nesse plano que é a dimensão da logística: cada uma das vacinas também terá condições logísticas diferentes e a própria forma de chegada ao país será provavelmente diferente. Algumas delas serão apenas entregues num ponto único, outras em vários pontos do país.

Temos de as fazer chegar às regiões autónomas da Madeira e dos Açores e portanto daí a necessidade de incluir nesta comissão o know-how, as competências do MAI [Ministério da Administração Interna], da Protecção Civil e do Ministério da Defesa Nacional. E depois temos uma componente de registo da administração das vacinas e também de eventuais reacções adversas — essa componente da segurança é muito importante e temos uma componente de comunicação. O que esta comissão vai fazer é entregar [os documentos com] os consensos que resultam destas quatro linhas de informação técnica: estratégia, logística, administração e registos informáticos e também comunicação.

Há um prazo para entregar o plano?
Sim, é até meados de Dezembro, sendo que temos tido reuniões semanais e estamos a acompanhar o trabalho diariamente e penso que durante a próxima semana teremos já alguma informação para partilhar com os portugueses.

E quanto à vacina da gripe? Quantas pessoas de risco foram efectivamente vacinadas?
Este ano o SNS comprou dois milhões e 70 mil doses de vacinas contra a gripe e o sector das farmácias de oficina terá comprado cerca de 500 mil. Tem-se dito muito que o país falhou na vacinação contra a gripe sazonal e que isso é o prenúncio de que as coisas tenderão a não correr bem, quando for a vacina contra a covid-19.

Eu gostava de dar aqui alguns números que recolhi através da agência do medicamento portuguesa, porque esta informação não encontrei pública, mas de outros países. A República Checa comprou 800 mil vacinas, com uma população semelhante à nossa, 10 milhões e 600 mil indivíduos. A Suécia comprou um milhão e 400 mil, com uma população semelhante à nossa, 10 milhões e 200 mil.

Não questionamos esses números. O que queremos saber é quantas pessoas de risco foram efectivamente vacinadas.
O que lhe posso dizer é que já vacinámos cerca de um milhão e 500 mil pessoas e que estamos ainda com cerca de 300 mil doses em stock e a receber esta semana mais 200 mil.

Então ainda temos 500 mil para distribuir? Quando serão distribuídas?
Quinhentas mil e 70. Até ao final da primeira semana de Dezembro o programa estará completo. Nós tivemos este ano uma adesão à vacinação da gripe sazonal que não é típica, até entre grupos que sempre tentámos vacinar e que aderiam menos, designadamente os profissionais de saúde.

Mas aqui a questão é que o Presidente da República disse a seguinte frase: “A senhora ministra acaba de me confirmar que até à primeira semana de Dezembro todos os que queiram vacinar-se irão vacinar-se.” A senhora ministra disse isto? Porque é que o Governo passou esta mensagem de que todos os que queriam vacinar-se iriam poder fazê-lo?
Todos os que queiram com critérios.

Não acha que houve um erro de comunicação aqui?
As vacinas, os medicamentos, os actos de saúde não são actos de consumo...

Mas houve esta afirmação e agora chegam diariamente às nossas redacções pessoas que dizem: “Eu tenho 70 anos e não consigo vacinar-me.” “O meu filho tem asma e também já não tem vacina.” Quando as pessoas ouviram o Presidente da República dizer que a senhora ministra lhe confirmou que todos os que queiram vacinar-se podiam...
Vale a pena dizer que temos vacinas a serem distribuídas neste momento e portanto há pessoas que até ao final do período poderão ainda fazer a sua vacinação. Temos de esperar até ao final para efectivamente perceber e fazer a avaliação.

Relativamente à questão da comunicação volto a insistir que as vacinas, e aqui é uma lição importante para a próxima vacina, quando falamos de pessoas elegíveis, são aquelas que reúnem critérios, são aquelas que têm necessidade e o consumo de actos de saúde é sempre um acto de externalidades positivas e negativas nos outros e portanto temos de ter isso em conta, quando tomamos as nossas decisões.

Tem sentido apoio do Presidente da República ou Marcelo Rebelo de Sousa tem sido uma espécie de outro poder? Ainda esta semana chamou a ministra da Saúde e a ministra da Justiça, porque estava preocupado com a situação nas cadeias. Recebeu várias corporações ligadas à saúde, chama especialistas...
Eu tenho sentido o apoio genericamente de toda a população e naturalmente também do Governo, do senhor Presidente da República – sempre suscitando questões e necessidade de esclarecimentos que temos procurado dar. Foi concretamente o caso ontem da reunião mantida com a senhora ministra da Justiça e comigo em Belém e portanto estamos cá também para esclarecer e para prestar informação e sobretudo continuar a trabalhar para ter o melhor resultado. É nisso que penso que neste momento as figuras do Estado estão absolutamente empenhadas.

O Presidente da República estava preocupado com os surtos nas cadeias. Como é que chegamos a Novembro e não há uma orientação para o uso de máscara nas prisões?
Mais uma vez vale a pena ver o que acontece noutros países e os países onde não existe [essa recomendação] e onde recentemente foi introduzida. O que podemos clarificar neste momento é que sob o ponto de vista da saúde a recomendação é inequívoca há várias semanas e sob o ponto de vista da utilização da máscara em espaços fechados. Agora temos de ter a noção de que dentro de um estabelecimento prisional há vários locais. Há desde logo as celas e nas celas, como na casa de cada um, provavelmente as pessoas não utilizam máscara.

Lá em casa as famílias utilizam máscara, a não ser numa situação específica? Estamos a falar de um contexto de institucionalização que é muito específico. Coisa diferente é quando os detidos se deslocam para as aulas, os espaços de convívio, para fora do estabelecimento. E depois outro aspecto é o da assistência que tem sido prestada aos detidos infectados e nesse aspecto os hospitais dos serviços prisionais têm dado uma resposta que tem sido de grande autonomia e capacidade de intervenção.

E outro aspecto que podemos referir é o programa de testes de rastreio que foi realizado aos profissionais dos estabelecimentos prisionais que conta já com mais de nove mil testes realizados através das equipas do INEM e do Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge e a possibilidade que estamos a estudar de desencadear um programa de reforço dessa testagem em detidos que permita identificar precocemente contágios.