Pode uma vacina salvar as nossas cidades?

Na era do teletrabalho, em que tudo se pode fazer à distância, a presença no espaço público torna-se opcional. E só com espaços agradáveis, seguros e acessíveis, será possível resgatar as ruas do esquecimento.

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LUSA/MÁRIO CRUZ

Sem fuga possível, foi neste ano que as cidades se confrontaram com os seus hábitos e os seus vícios. Lisboa foi um desses casos, em tantos outros. Com menos viagens e menos eventos, as cidades voltam-se para dentro. E assim, em vez de ver as ruas do Bairro Alto cheias de empreendedores tecnológicos com a Night Summit, e depois do regresso dos adeptos que visitaram Lisboa para a final da Taça dos Campeões, vêem-se algumas lojas que, timidamente, se enfeitam para o Natal. 

Este Natal é diferente, é certo, e as ruas estão vazias. Mas pelo que disse Fernando Medina, em várias entrevistas, a pandemia é uma oportunidade para a cidade. E poucos dias depois, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa apaziguou os ânimos dos manifestantes do movimento “Sobreviver a Pão e Água”, que faziam greve de fome em frente da Assembleia da República. 

Com menos turistas, as ruas desertam. E o que pode trazer os lisboetas de volta às rua, depois do desconfinamento? Tem havido um esforço para alargar passeios e tornar as zonas comerciais mais atractivas para peões, é certo. Mas será suficiente, quando faltam ligações de transporte entre o centro de Lisboa e o resto da Área Metropolitana, com mais de dois milhões de habitantes? 

O afastamento das pessoas dos centros das cidades não é novo. Jane Jacobs escreveu, nos anos 60, Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas, onde refere como a generalização do automóvel compromete a fruição do espaço público. É certo que a retirada de automóveis do centro, seja na proibição das matrículas mais antigas, seja nos parquímetros, vai devolver espaço aos peões. Mas as cidades mudaram e cresceram tanto que, hoje, há pessoas que, sem transportes públicos adequados, se vêem quase impedidas de chegar ao centro da cidade. 

Quando se repensa o desenvolvimento urbanístico de Lisboa, há que fazer um ponto de situação do estado da Área Metropolitana. Há planos, como o Plano Regional de Ordenamento do Território (PROT-AML), que são prioritários e precisam de sair da gaveta. Em causa está a normal coordenação entre municípios, tão necessária quando tantos habitantes da Grande Lisboa vivem, trabalham e têm tempo livre em concelhos diferentes.

Só assim se explica a falta de coesão da Grande Lisboa, e também a carência de transportes. Que para um lisboeta do Montijo, sem automóvel, sejam duas horas para chegar a Sintra, e que a linha de Cascais continue sem ligação às restantes linhas de comboios suburbanos. E que, para mudar de transporte, se perca tanto tempo, entre horários que ficaram por coordenar. 

Na era do teletrabalho, em que tudo se pode fazer à distância, a presença no espaço público torna-se opcional. E só com espaços agradáveis, seguros e acessíveis, será possível resgatar as ruas do esquecimento. Que 2021, com a saída do confinamento, traga ar livre e espaço público, e menos afastamento das nossas cidades.