Um conto de Natal, de Cláudia Lucas Chéu

Chegada a meia-noite, e como previsto, a criança foi extraída do corpo da mãe. Nua, roxa e indefesa, tratava-se de uma menina. Perante o espanto do mundo inteiro, o messias tão esperado: uma rapariga.

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Mick Haupt/Unsplash

Em Dezembro não nevou. Nada de inusitado, naquela cidade nunca nevava. Tinha chegado finalmente o dia. Há meses que os noticiários anunciavam o nascimento de alguém importante, alguém que iria revolucionar o mundo. A cesariana estava marcada para a meia-noite. Segundo o noticiário, a parturiente já se encontrava no hospital, devidamente acompanhada por uma equipa médica especializada. A parturiente chamava-se Maria. Segundo informavam também os noticiários, Maria tinha sido submetida a uma inseminação artificial. O pai da pessoa importante que iria revolucionar o mundo tratava-se de um anónimo, que deixara o seu contributo no banco de esperma e que, muito provavelmente, não ficaria registado na história. Ninguém sabia por que motivo a criança anunciada iria mudar o mundo. As informações contraditórias que saíam diariamente não permitiam verificar qual das opções estaria correcta.

Os mais recentes prognósticos relacionavam-se com poder e política. Contudo, com igual veemência, tanto garantiam que a criança viria munida de poderes sobrenaturais que acabariam com toda a corrupção política mundial, como diziam que o próprio se tornaria o rei dos homens e das mulheres de todo o mundo. Auspiciavam que o mundo inteiro se tornaria um só reino, novamente Pangeia e Torre de Babel, tudo junto. Perto da meia-noite, todas as televisões e canais online transmitiam em directo da sala de cirurgias onde se encontrava a parturiente. Biliões de pessoas por todo o mundo assistiam em tempo real nos respectivos aparelhos ao grande momento anunciado. Maria encontrava-se devidamente “epidurada” e deitada na marquesa, não sentindo o corpo do pescoço para baixo. Ninguém emitia qualquer espécie de som. Médicos, enfermeiros e assistentes, todos mudos e concentrados na tão importante tarefa, ainda que a sala se encontrasse sobrelotada de cameramen e “perchistas”, cada qual captando o melhor que podia a nível de som e de imagem. A tensão estava instalada, escutava-se apenas o bip bip constante da máquina que registava a frequência cardíaca da parturiente.

Planos apertados da cara tensa de quem seria em breve mãe, mas não uma matriarca qualquer, zooms do rosto da mulher que iria ter o grande, o verdadeiro messias. Faltavam apenas dois minutos para a meia-noite. Um “perchista”, certamente fraco de braços, deixou cair a perche com estrondo no chão. Ninguém acusou o desastre do pobre técnico de som. O obstetra continuou a tarefa já iniciada de pescar à mão, qual espécie de urso com boas maneiras, o tão esperado bebé das águas da placenta. Nas televisões e nos sites começou a contagem decrescente de 10 segundos para a meia-noite, como se se tratasse de um réveillon. As pessoas que assistiam à distância começaram a contar em voz alta, expectantes e esperançadas, como há muito não era visto esse gesto colectivo na humanidade.

Chegada a meia-noite, e como previsto, a criança foi extraída do corpo da mãe. Nua, roxa e indefesa, tratava-se de uma menina. Perante o espanto do mundo inteiro, o messias tão esperado: uma rapariga. As pessoas choraram simultaneamente de choque e emoção, com a menina ainda suspensa nas mãos do obstetra. Depois aconteceu algo errado com a emissão e todos os canais se desligaram instantaneamente. As pessoas ficaram extremamente revoltadas e entupiram as linhas telefónicas, os emails e as mensagens com reclamações. Todos os servidores foram abaixo. E até a electricidade falhou; o mundo inteiro ficou às escuras. Foi este, portanto, o primeiro feito da messias — mandar abaixo as comunicações à distância. O primeiro feito significativo da dita menina foi obrigar, nessa noite, quem se encontrava no mesmo espaço físico a ter de lidar com a presença de quem consigo estava; e com esse facto.

P.S. Senhoras e cavalheiros, não precisam de agradecer o conto de Natal feminista. Faço-o porque tenho uma filha em casa para criar.